sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Evangelho nada diz: nem que sim, nem que não...


É sexta-feira e regressa, de novo, o tema do jejum. Não pertence ao fundamental da Fé nem sequer terá um lugar como proclamação do Projecto Amoroso e Ternurento de Deus. Mas tem-me andado na cabeça uma descoberta e partilho-a hoje, que vem a calhar.

O Evangelho nada diz sobre o Jejum. Nada recomenda ou prescreve. Isto para mim é libertador. Não porque o Evangelho diga para não jejuar, não é isso. Simplesmente nada diz. Nem diz para jejuar, nem diz para não jejuar. Fica à consciência de cada pessoa. De Jesus apenas encontramos “quando jejuardes” ou “se jejuardes”... (Mt 5, 16).

O Jejum é um aspecto quase comum às tradições religiosas: lembro-me do Ramadão dos muçulmanos, por exemplo. Quase pertence àquela atitude que os crentes naturalmente têm diante de Deus: sabem que não O muda nem é isso que O torna favorável, mas sim o seu próprio Amor e Graça, que são por si Favoráveis: «Superabundou a Graça», proclama Paulo (Rom 5,20).
Conhecemos a Liberdade que o Novo Testamento reconhece quer diante do Jejum, quer diante de todas as tradições religiosas. Jesus faz a crítica, não do jejum, mas do farisaísmo e da sua maneira de viver o jejum: «desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam» (Mt 6,16). Como não recordar já a critica do profeta Isaías:

«É porque no dia do vosso jejum só cuidais dos vossos negócios, e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas sem dó nem piedade. Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz seja ouvida no alto (…) O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão» (Is 58, 4-7).

E é interessante como para Isaías esta fraternidade e justiça que o jejum significaria é um movimento de humanização para o próprio crente: talvez esteja aí o essencial. «Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente» (Is 58,8).

E como não recordar a critica mordaz de Paulo: «Se morrestes com Cristo para os elementos do mundo, porque é que vos submeteis a normas, como se estivésseis ainda dependentes do mundo? Não tomes, não proves, não toques em coisas, todas elas destinadas a ser consumidas; coisas de acordo com os preceitos e ensinamentos dos homens! São normas que, embora tenham uma aparência de sabedoria - a respeito do culto voluntário, da humildade, da austeridade corporal - não têm qualquer valor; só servem para satisfazer a carne» (Col 2,20-23).

Fica recusada, portanto, toda a tentação farisaica que só serviria para se tornar superior aos outros e sentir-se merecedor, possuidor, conquistar da Graça – haverá maior absurdo?

Um outro texto, do Evangelho de Marcos, é significativo: aqui vem presente a experiencia histórica de que os discípulos de Jesus não seguem os costumes dos discípulos de João Baptista e dos fariseus de jejuar. «Estando os discípulos de João e os fariseus a jejuar, vieram dizer-lhe: «Porque é que os discípulos de João e os dos fariseus guardam jejum, e os teus discípulos não jejuam?» Jesus respondeu: «Poderão os convidados para a boda jejuar enquanto o esposo está com eles? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar. Dias virão em que o esposo lhes será tirado; e então, nesses dias, hão-de jejuar.» (Mc 2,18-20) Hoje pergunta-se o significado deste Esposo que lhes é tirado. Eu partilho a minha leitura pessoal.

Nas comunidades proclama-se e celebra-se a Presença daquele que é o Ressuscitado, cuja Vida é tornada Universal e Plena para todos os Homens. Os discípulos caminham numa experiencia de se unirem, de pertencerem a este Homem cuja Vida não é já a sua vida mas a Vida de toda a Humanidade: uma Vida Filial, Pascal, um Corpo animado por um Espírito, logo o Espírito de Deus, o Santo (Rom 12,5).

Mas, ao mesmo tempo, o Presente ainda é o Esperado: sim, nós ainda não somos completamente presentes n’Ele, a nossa relação ainda não é evidente, o Homem Novo ainda está a nascer, a Humanização ainda é um processo e uma história a escrever-se, o pecado e o sofrimento continuam a marcar à nossa volta. O Esposo… Como não recordar o grito de Paulo: «Também nós, que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo» (Rom 8,23); ou então o seu desabafo, que só os mártires têm o direito a repetir: «Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós» (Flp 1,23).

O Esperado ainda é um Ausente: de imediato é isso que experimentamos, é aí que está o sensível. E reconhecemos, e proclamamos, e celebramos que Ele é o Presente, o Ressuscitado, e a nossa vida está a nascer, no lado interior e pessoal, por Ele, para o Pai, no Espírito; tá bem....

Entrará aqui o jejum como símbolo? Não sei, o Evangelho não o diz. O jejum não pertence, de longe, ao centro da Boa Noticia de Jesus; a tradição do jejum à sexta, na Igreja, não passa de «tradições humanas» que, quando postas contra a fraternidade, merecem a critica que Isaías e Jesus lhe dirigem (Mt 15,9). São tradições humanas, como tantas outras: precisamos delas, destas ou de outras, sem nos apercebermos.

O que me é significativo é que o Evangelho nada diz. Não faz sentido pregar o jejum. Pertence à opção pessoal de cada um, na sua relação com o Ressuscitado, uma relação a caminhar, à procura ainda...

3 comentários:

calmeiro matias disse...

Parabéns, Rui Pedro
Acertaste com o fulcro da questão: sem a morte do Homeme velho não pode nascer o Homem Novo.
O amor não se impõe. Sugere modos de agir que facilitem a felicidade e realização dos irmãos.
Um abraço

figlo disse...

Nós vamos mesmo pelo que diz Isaías.E o "jejum" disto ou daquilo, especialmente daquelas "coisitas" que à partida ou sabemos que nos fazem mal ou na verdade não nos fazem mesmo falta nenhuma se oriente num sentido de partilha fraterna...em qualquer altura do ano...

Inês disse...

Hoje uma colega minha disse-me o seguinte:
- Maria, estás a fazer algum jejum por causa da Quaresma?

E eu disse que não...

- Eu estou. Lá no grupo de jovens cada um prometeu fazer um jejum, mas um que nos faça mesmo diferença, não de peixe. Eu prometi não beber mais do que um refrigerante por semana.

Eu disse que para mim o jejum não fazia muito sentido... mas depois pensei: bem, ao menos de cada vez que for ao café e lhe apetecer beber uma Coca Cola, vai-se lembrar que há um Jesus na vida dela. Já não é mau.

Quanto ao teu texto, adorei. Irritam-me as explicações que ouço, "jejuo porque tem de ser", "porque sempre foi assim". O Evangelho não é o nosso centro? Então não há que pregar o jejum... ainda que ele nem sempre seja totalmente mau!

Bem, fizeste-me pensar um bocadinho. Acho que sempre fui muito radical em relação a isto, e é sempre bom abrirmos um bocadinho os olhos às experiências dos outros...

Obrigada :)
Um beijinho