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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Crisma 5. Formar Igreja


Em primeiro lugar, convém-nos esclarecer uma coisa: espero que tenhas ultrapassado aquela noção de Igreja como “um edifício onde se vai de vez em quando”. Se nós os dois estamos unidos no que nos é comum, isto é, se estamos unidos no Espírito Santo, então formamos comum-unidade. A Igreja é a comunhão de todos os baptizados no Espírito. É o conjunto das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo. Formam Igreja aqueles que, todos os dias, confirmam o seu Baptismo.

A Igreja nasce a partir do dom do Espírito e da experiência pascal dos Apóstolos. Estes começam a anunciar as “maravilhas de Deus” (Act 2, 11) realizadas em Cristo. Da pregação de Pedro (Act 2, 14-36), resultam inúmeras conversões e baptismos “em nome de Jesus” (Act 2, 37-38). Estes irão formar a Igreja de Jerusalém que, sob a acção do Espírito Santo, começará a evangelizar a Judeia, apesar de as mesmas autoridades judaicas que mataram Jesus os prenderem e mandarem açoitar; proíbem-nos de “falar no nome de Jesus” (Act 5, 40). Depois será a vez dos pagãos se converterem, sob a acção do Espírito Santo principalmente através de Paulo. E a Igreja, no fim do Livro dos Actos dos Apóstolos, está em Roma, capital do Império.
Lucas, o seu autor, apresenta o modelo ideal de Igreja:

«Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os Apóstolos realizavam. Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam as suas propriedades e os seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E todos os dias o Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação» [Act 2, 42-47].

Não uma situação real, mas um modelo ideal que devemos perseguir e construir. É da escuta da Palavra, da Boa-Nova de Jesus que nasce a Igreja, na medida em que todos os que se abrem ao Espírito se deixam guiar por Ele. A Igreja é aquela parcela da Humanidade em que o Espírito desenvolve a Sua acção revelacional. Não por ser formada por seres predestinados ou sobredotados, mas por terem encontrado mediações na sua vida que lhes apresentaram o Evangelho de Cristo e por se terem aberto à novidade que o Espírito ecoa. Deus, tenho a certeza disso, porque é Amor, anseia ser conhecido por todo o mundo. Mas precisa de mediações, de pessoas que o anunciem!

É esta a missão da Igreja, e é esta a missão que assume quem confirma o seu Baptismo no Espírito. Se, no meio de todas as suas imperfeições (pois é um ser em construção), procurar viver uma Vida Teologal, pela realização pessoal que sem dúvida alcançará já será testemunha. E se a Igreja se construir em comunidades vivas onde se escute e partilhe a Palavra, onde se trate Deus por Tu na oração, e onde se festeje, celebre a alegria de conhecer e experimentar o Projecto de Deus, será Sua mediação para o mundo.

Muito pessoalmente, digo-te; a primeira missão daquele que confirma o seu Baptismo no Espírito é procurar a sua felicidade e realizar-se como pessoa, em relações de amor. Está chamado (vocacionado) a ser no mundo uma pessoa única, original e irrepetível, amada e amante, realizada e possibilitadora de realização para os outros. É esse o primeiro apelo que Deus lhe faz. O melhor de tudo é que conhecemos os segredos para sermos felizes! Em Jesus de Nazaré, o Ungido, revela-se o melhor de Deus e o melhor do Homem, o que este está chamado a ser. E, de modo particular em cada um de nós. Anuncia-o com todas as tuas forças.

E sê Igreja, vive com horizontes de fé, esperança e amor novos e plenos. Deixa que o Espírito Santo te consagre, para colocares o melhor de ti, os teus dons, ao serviço dos outros e da comunidade. A Igreja vive na lógica da partilha, do que somos e do que temos, para nos enriquecermos mutuamente. E o melhor é que Deus plenifica a nossa partilha. O todo é maior do que a soma das partes. Por isso o Crisma é o “sacramento da Igreja”. A Igreja é formada por todos aqueles que, todos os dias, confirmam o seu Baptismo no Espírito. De modo particular, num dia especial em que, em comunidade, recebem as mãos e o óleo que simbolizam o dom de Cristo: o Espírito Santo.

«Eu não Te peço só por estes, mas também por
aqueles que vão acreditar em Mim por causa da sua palavra,
para que todos sejam um,
como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti.
E para que também eles estejam em Nós,
a fim de que o mundo acredite que Tu Me enviaste.
Eu mesmo lhes dei a glória que Tu Me deste,
para que eles sejam um, como Nós somos um.
Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade
e para que o mundo reconheça que Tu Me enviaste
e que os amaste, como Me amaste a Mim.

Pai, aqueles que Tu Me deste, quero que eles estejam comigo,
onde Eu estiver, para que eles contemplem a glória que Me deste,
pois Me amaste antes da criação do mundo.
Pai justo, o mundo não Te reconheceu, mas Eu reconheci-Te.
Estes também reconheceram que Me enviaste.
Tornei-lhes conhecido o teu Nome.
E continuarei a torná-lo conhecido,
para que o amor com que Me amaste esteja neles
e Eu mesmo esteja neles».

[Jo 17, 20-26]
um grande abraço e bom Crisma!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Crisma 4. Baptismo no Espírito e Vida Teologal

Como vimos no Novo Testamento, o baptismo, ou mergulho, e a unção com o Espírito Santo estão intimamente ligadas. O baptismo na água é sinal, explicitação e proclamação do Baptismo no Espírito. O Crisma, ou unção com óleo não é separado. Ainda hoje, no rito do baptismo encontramos a unção com óleo, tal como no rito da confirmação, em que é acompanhada da imposição das mãos (que simboliza a nossa ligação aos primeiros Apóstolos, nos laços do Espírito). Portanto, ambos os sacramentos – baptismo na água e confirmação – estão intimamente ligados, pois ambos exprimem a dinâmica do Baptismo no Espírito. Procuremos compreender um pouco esta realidade.

Imagina uma piscina. Compreendes que o baptismo na água é um momento concreto, uma celebração. Podes compará-lo ao teu salto, ao teu mergulho na piscina. Mas, para não te afogares, tens duas alternativas: ou ficas parado, num sítio, agarrado à margem e acabarás por sentir frio e sairás da piscina, ou nadarás ao longo da piscina. Esse nadar, podes compará-lo ao Baptismo no Espírito.
Compreendes? Se o baptismo na água é um momento, o Baptismo no Espírito é um ritmo, uma dinâmica que dura toda a tua vida! O baptismo na água proclama essa tua vivência, mas não a pode limitar: tem de ser um sinal (sacramento) de uma realidade maior e mais importante.

Mas o que é o Baptismo no Espírito?
Desde que o Homem é Homem, o Espírito de Deus está com ele. O “sopro de vida” que Deus insufla no Homem e o torna um “ser vivente” (Gn 2, 7), é o Espírito Santo que, no interior de cada um, vai convidando, apelando e interpelando (mas sem obrigar) o Homem para que este se construa à imagem e semelhança de Deus, isto é, em relações de amor. É o que, na cultura popular, chamamos de “voz da consciência”. É a acção personalizante do Espírito Santo. Deus é pessoas – a Humanidade também. Não são iguais, mas são proporcionais; logo, há possibilidade de diálogo. Esta acção universal, acontece em todos os homens, mesmo aqueles que não conhecem o nome de Deus. Basta que se guiem pelos critérios do amor.

Num outro nível, temos a acção revelacional do Espírito Santo. Esta apenas acontece numa parcela da Humanidade. Começou no povo bíblico, um povo no qual Deus encontrou espaço para Se revelar, de modo gradual e progressivo, claro. No meio de muitos condicionalismos, sociais, culturais, genéticos, o povo da Aliança foi descobrindo e conhecendo o “Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob”. Deus chamou este povo para que fosse, no mundo, mediação de revelação. Mas, com o tempo, esse povo acabaria por se encerrar em si próprio, nas suas leis, rituais e cultos.

Mesmo quando o Homem foi capaz de inventar o pecado, isto é, imprimir nas suas relações as lógicas contrárias ao amor, e mesmo quando o povo foi infiel fechando-se em si, o Projecto de Deus para a Humanidade não se alterou um milímetro. O amor de Deus é demasiado forte para se deixar vencer pelo Homem. E temos o acontecimento de Cristo.

Quando chegou a “plenitude dos tempos”, o Filho Eterno de Deus formou uma comunhão perfeita e plena com Jesus de Nazaré, pelo Espírito Santo. Em Jesus, o Cristo, os dois níveis de acção do Espírito Santo no Homem chegaram à sua plenitude (não o seu fim, claro!): pela primeira vez, um homem deixou-se mover totalmente pelo Espírito Santo, tornando-se a medida do homem perfeito, o Homem Novo, “provado em tudo como nós, excepto no pecado” (Heb 4, 15). Além disso, ao Se revelar, revelou o Pai: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). N’Ele, o Espírito Santo encontrou total disponibilidade para agir como revelador.

Apesar de tudo, devemos ter cuidado: não podemos considerar Jesus, o Cristo como um meteorito caído do céu! É fruto de uma história, de uma caminhada do povo bíblico sempre alimentada pela voz dos profetas. Jesus começou por ser amado antes de amar, tal como cada um de nós. Maria e José terão sido mediações estupendas da ternura, maternal e paternal, de Deus-Pai. João Baptista terá possibilitado em Jesus a descoberta da Sua condição messiânica, embora de um modo diferente do que anunciava. Essa consciencialização de Jesus não terá passado sem dúvidas e hesitações, muito bem expressas no episódio das tentações (Mt 4, 1-11).

Mas, em Jesus Cristo, temos um salto qualitativo da acção do Espírito Santo na Humanidade: a acção divinizante. O mesmo Espírito que colocou Jesus de Nazaré em comunhão com a Filho Eterno de Deus vai, no momento da Sua morte e ressurreição, espalhar-se por toda a Humanidade. Esta também é assumida, é a filiação divina: filhos em relação a Deus-Pai, irmãos em relação a Deus-Filho, na comunhão do Espírito Santo. O Espírito diviniza o que somos, o que nos construímos na história, em dinâmica relacional de amor. Nada do que de humano nos construímos se perde no vazio ou no cemitério, mas é tornado pleno na Família de Deus. Atenção: estamos a falar ao nível do ser, não ao nível do ter.

Esta acção é universal: na medida em que conduz à humanização, o Espírito diviniza.
Temos, portanto, os três níveis de acção do Espírito Santo na humanidade. É evidente que não são compartimentos estanques: a acção é única, as dimensões complementam-se. Falar do Baptismo no Espírito é falar da dinâmica de abertura da pessoa à acção do Espírito, que a molda interiormente e a faz agir, optar e relacionar-se ao jeito de Deus. Uma pessoa que se deixe mover segundo os apelos do amor já se poderá dizer que mergulha no Espírito. No entanto, na medida em que conheça e experimente o rosto amoroso e familiar de Deus e o Seu Projecto plenificador para si e para toda a Humanidade, revelados em plenitude em Jesus de Nazaré (a acção reveladora); e até na medida em que se relaciona interior e amorosamente com esse Deus, essa pessoa conhecerá horizontes novos para a sua vida.
De facto, na medida em que conhece um sentido e critérios como os revelados por Jesus de Nazaré, essa pessoa poderá viver uma vida teologal, ao jeito de Deus e que brota da Revelação. Aí, o Baptismo no Espírito acontece de modo pleno.

E o que é a vida teologal?
Qualquer vida humana, em construção, portanto, em relações, precisa de viver três experiências: a da , a da esperança e, principalmente, a do amor. Estas três dimensões são fundamentais numa qualquer relação humana: confiar no outro, esperar dele o seu melhor e, claro, amá-lo. De modo recíproco.

Além disso, o homem é, por natureza, um ser religioso. Está aberto à transcendência, ao que o ultrapassa, e precisa de encontrar explicações para aquilo em que é impotente (por exemplo, as forças da Natureza, para os homens da Antiguidade) e para o absurdo, isto é, tudo o que simplesmente não tem explicação. Por isso, na história, o Homem foi concebendo divindades e sistemas religiosos, onde desenvolvia a sua fé na lógica de acreditar no que não se pode provar, a sua esperança num futuro para lá da morte, e o amor como um conjunto de morais e éticas de comportamento. Esta dimensão do Homem é fundamental como primeiro passo para acontecer Revelação. Mas pode também fechar o Homem, bloqueá-lo. É uma pena que, para muitos dos cristãos, o cristianismo se reduza a esta dimensão.

Por fim, temos a vida teologal, que é a optimização destas duas dimensões do Homem pelos horizontes da Revelação. Pela Revelação, conhecemos um Deus que tem fé em nós, que acredita e confia absolutamente no melhor de nós. Um Deus fiel, em quem vale a pena confiar.
Um Deus em quem podemos esperar, que nos motiva de modo muito especial para a nossa tarefa de construção pessoal, única verdadeiramente válida, e que acontece hoje. Um Deus que nos dá a certeza de que nada do que somos se perderá, mas tudo será assumido e plenificado. Assim, a morte não é um fim, mas um nascimento.

E, claro, pela Revelação conhecemos o Deus-Amor, Família de Amor, que não é senão Amor. Porque o Amor é fonte de vida, é no Amor que nos fazemos à Sua imagem. E, na medida em que conhecemos e experimentamos o Amor de Deus, ganhamos critérios para a nossa construção pessoal.

A vida teologal brota da Graça de Deus, do Deus que Se revela por puro dom, por amor totalmente gratuito. Do Deus que Se faz Palavra, que Se dá a conhecer. É pela escuta desta Palavra, que o Espírito nos inunda. É da escuta desta Palavra, que não se limita um conjunto de letras escritas mas é uma relação interior, que nasce a dinâmica do Baptismo no Espírito. Este conduz-nos a viver e a construirmo-nos, no meio de todas as nossas limitações e imperfeições, segundo a Vida Nova de Deus.

É toda esta realidade que o baptismo na água proclama e visibiliza. Mas, então, onde inserimos o sacramento da Confirmação?
Na altura em que o Novo Testamento foi redigido, nas comunidades primitivas, o baptismo na água era feito em adultos, após uma intensa catequização. Ser cristão era arriscado, exigia opções claras e corajosas e, sobretudo, uma fé inabalável. Formar Igreja significava risco da própria vida.

À medida em que as perseguições foram diminuindo, e o cristianismo foi sendo tolerado e oficializado no Império Romano, os baptismos foram progressivamente passando de adultos para crianças e recém-nascidos. É evidente que, nestas idades, não há a possibilidade de haver opções assumidas para se ser cristão; o Espírito Santo ainda não tem espaço para fazer acontecer a Revelação. Não há Baptismo no Espírito. Assim, o baptismo na água proclama o Baptismo no Espírito dos pais, padrinhos e de toda a comunidade cristã na qual o baptizado irá crescer. Estes têm a responsabilidade de ir introduzindo a criança, à medida que cresce, nos conteúdos da fé pela catequese. À medida que vai acolhendo a Palavra, ou a Revelação de Deus, vai mergulhando ela própria no Espírito, enquanto vai crescendo e optando.

Chega a altura em que o assumir-se como cristão será uma opção e uma responsabilidade do baptizado. Os pais, padrinhos e catequistas da comunidade iniciaram-no; se ele quer aprofundar, confirmar o acolhimento da Revelação e crescer numa Vida Teologal, só poderá ser opção dele. Ninguém o pode obrigar, nem, claro, Deus.
O sacramento da Confirmação proclama o assumir, pelo crismado, do seu próprio Baptismo no Espírito. Os pais iniciaram-no; ele confirma.

Em termos mais práticos, se o baptismo na água é um compromisso dos pais perante Deus, pela mediação da comunidade, a confirmação é um compromisso do próprio crismado. Tal como o baptismo em adultos, já tem que acontecer numa dinâmica de Baptismo no Espírito e de Revelação a acontecer. Por isso, no caso de adultos, estes recebem juntos os chamados Sacramentos de Iniciação Cristã: baptismo, confirmação e eucaristia.
É claro que, nesta idade, o Espírito encontra mais espaço para provocar a Revelação do que em criança. Por isso este é chamado de “o Sacramento do Espírito”. Só faz sentido falar dele na lógica do Baptismo no Espírito. Além disso, este também é considerado o “Sacramento da Igreja”.
grande abraço!

sábado, 8 de novembro de 2008

Crisma 3. Jesus como o Ungido

Viva! Amanhã, 9 de Novembro, os Missionários Redentoristas celebram 276 anos de nascimento! Convido-vos a visitar o blog www.redentorista.blogspot.com Lá poderão conhecer melhor a nossa missão.
O Novo Testamento nasce e centra-se numa proclamação: Jesus de Nazaré é o Ungido (que em grego, a língua em que o Novo Testamento foi escrito, se diz Cristo), o Filho de Deus, portador do Espírito Santo (Mt 1, 1; Mc 1, 1). É nesta certeza que os discípulos seguem aquele carpinteiro de Nazaré (Mt 16, 16). Todas as Suas acções e obras, todos os milagres que realizava (João apresenta-os como sinais), tudo apontava para o Seu messianismo.

Todos os evangelistas apresentam o momento do baptismo de Jesus no rio Jordão, por João Baptista, proclamando-o como o Messias, ungido com o Espírito Santo (Mt 3, 14-15; Mc 1, 10-11; Lc 3, 21-22; Jo 1, 32-34). Lucas apresenta Jesus a iniciar a Sua vida pública assumindo-se como o Ungido com o Espírito do Senhor anunciado por Isaías (Lc 4, 16-21). Paulo coloca-o como o inaugurador da “plenitude dos tempos” (Gal 4, 4). João apresenta-o como o construtor do Templo que o Senhor pretendia, ultrapassando o de Salomão (Jo 2, 19-22).

Mas, se quanto ao messianismo de Jesus estamos de acordo, já quanto ao tipo de messianismo é que temos algumas diferenças. De facto, conhecemos o tipo de Messias que o povo judeu (e os discípulos de Jesus), esperavam: o descendente de David, aquele que reunificaria, pelo poder político-militar, as tribos de Israel, expulsando os invasores (no tempo eram os romanos). Viria para aplicar a justiça de Yahvé, castigando os pecadores e libertando os oprimidos. É Ele quem virá libertar Israel, nas palavras dos discípulos de Emaús (Lc 24, 21).

Jesus inaugura e apresenta, de facto, o Reino de Deus (Lc 17, 20-21), mas apresenta-se de modo totalmente inesperado para os judeus. Não vem cumprir a ira de Yahvé, mas traz a Sua misericórdia (cf. Mt 9, 13). Vem para destruir o pecado, mas convertendo o pecador em vez de o aniquilar (o episódio do perdão da mulher adúltera é disso claro – Jo 8, 3-11). Vem para levar a lei ao Seu pleno cumprimento (Mt 5, 17), mas no seu espírito e não na sua letra; a esta, relativiza-a: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. O Filho do Homem até do sábado é Senhor” (Mc 2, 27-28).
O sábado era o dia sagrado para os judeus, e Jesus seria perseguido por efectuar milagres a este dia (Mt 12, 9-14; Jo 5, 1-18). Chama a atenção para o modo como se devem praticar os três pilares da devoção judaica: a oração, o jejum e a esmola (Mt 6, 1-18). Aliás, tem a ousadia de tratar a Deus por Pai, e ensina os discípulos a fazê-lo! O povo judeu, no seu todo, considerava-se como filho de Deus, mas ninguém tinha o direito, isoladamente, de se considerar Seu filho!

Seria esperado como o mais puro dos puros, mas convive com os mais impuros para a lei: cobradores de impostos, prostitutas, leprosos, crianças, todos os que não cumpriam os rituais de pureza da lei. Ao contactar com eles, e até ao curá-los das suas doenças, Jesus tornava-se ele próprio impuro aos olhos da lei.

Jesus é o Messias, mas um Messias completamente inesperado. Os próprios discípulos tiveram dificuldade em o aceitar, e quando foi preso e crucificado, dispersaram-se. (Mt 26, 56). Será após a experiência pascal que se reunirão de novo: “Saiba toda a Casa (povo) de Israel com absoluta certeza que Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado” (Act 2, 36).

É evidente que um Messias tão inesperado não poderia ser aceite pelos poderosos de seu tempo, as autoridades religiosas. Mesmo assim não abdicou de anunciar a Boa Nova (que em grego se diz: Evangelho) do Deus-Amor, levado a Sua fidelidade profética até à morte. Seria assassinado, “mas Deus ressuscitou-O, libertando-O dos grilhões da morte, pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte” (Act 2, 24). E o grande dom que Cristo ressuscitado daria à Humanidade seria o Espírito Santo.

O Espírito conduz ao perdão dos pecados e impele ao testemunho: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos”; “Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo” (Jo 20, 22-23; Act 1, 8).

Além disso, o Espírito Santo é o princípio de comunhão e filiação divina: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do Seu Filho, que clama Abbá! – Pai! Deste modo, já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus” (Gal 4, 6-7). O Espírito Santo é o Amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). É no Filho de Deus que está a Vida Eterna (1Jo 5, 11). É graças ao Espírito Santo que permanecemos em Deus (1Jo 3, 24). Pelo Espírito Santo, princípio de comunhão na Família Divina, somos assumidos nesta: filhos em relação a Deus-Pai, irmãos em relação a Deus-Filho.

Além de divinizador, o Espírito Santo é revelador: “Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; mas o Paráclito (advogado, aquele que defende), o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 25-26). É da escuta da Palavra que se dá o Baptismo (palavra grega que significa mergulho) no Espírito: “Pedro estava ainda a falar, quando o Espírito Santo desceu sobre quantos ouviam a palavra” (Act 10, 44). O baptismo na água é sinal desse baptismo no Espírito: “Poderá alguém recusar a água do baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós? E ordenou (Pedro) que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo” (Act 10, 47-48). É Jesus quem baptiza no Espírito Santo: “Eu (João Baptista) baptizei-vos em água, mas Ele há-de baptizar-vos no Espírito” (Mc 1, 8).

O grande dom messiânico de Jesus é o dom do Espírito. O mesmo Espírito que ungiu Jesus de Nazaré é o que nos unge: “Aquele que nos confirma juntamente convosco em Cristo e nos dá a unção é Deus, Ele que nos marcou com um selo e colocou em nossos corações o penhor do Espírito” (2Cor 1, 21-22). Pelo Espírito Santo cada um de nós é, no seu íntimo, morada de Deus: “Não sabeis que sois templos de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3, 16).

É essa a grande Boa Nova que temos de anunciar: somos filhos de Deus. Desde sempre o Espírito de Deus actuou no nosso íntimo impelindo-nos a fazer o bem e a construirmo-nos à imagem de Deus, no Amor. Em Cristo, o Espírito Santo é princípio de divinização: Deus assume-nos e plenifica-nos na Sua própria Família, na medida em que nos construímos como pessoas, no amor. “Nós conhecemos o Amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é Amor, e quem permanece no Amor permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4, 16).
um grande abraço!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Crisma 2. A Unção no Antigo Testamento e a Esperança Messianica

Compreendida um pouco a realidade dos sacramentos, podemos começar a nossa reflexão acerca do Crisma, abordando o seu significado no Bíblia. Primeiro, o Antigo Testamento.

Na cultura judaica, o óleo é símbolo do Espírito do Senhor. Os primeiros reis de Israel, Saul e David, são ungidos pelo profeta Samuel com óleo (1Sm 10, 1; 16, 1-13); este rito simboliza a sua consagração pelo Espírito de Yahvé. O único Rei de Israel é Deus (1Sm 12, 12). Os reis são consagrados, isto é, estão ao serviço de Deus e do povo.

Por um lado, são os enviados de Deus junto do povo. Devem transmitir a Sua vontade, pelos mandamentos. Obedecem e conduzem o povo à obediência à Aliança. Por outro lado, são os sumo-sacerdotes, os mediadores do povo junto de Deus. Presidem ao culto e apresentam a Deus as preces do povo.

É com David, cerca de 1000 anos a. C., que nasce a chamada esperança messiânica, que iria acompanhar toda a história do povo bíblico. Quando David conquista Jerusalém, habita num palácio. Mas repara que a Arca com as tábuas dos mandamentos do Monte Sinai está abrigada numa tenda. Decide então construir um templo para Deus. Mas é Deus quem faz uma promessa a David, pelo profeta Natan:

«E quando esgotares os teus dias e repousares com os teus antepassados, Eu exaltarei a tua descendência depois de ti, aquele que vai sair de ti. E firmarei a tua realeza. Ele é que vai construir uma casa para o meu nome. E Eu estabelecerei o seu trono real para sempre. Serei para ele um pai e ele será para Mim um filho. Se ele falhar, Eu corrigi-lo-ei com bastão e chicote, como se costuma fazer. Mas não desistirei de ser fiel para com ele, como desisti de Saul, que tirei da tua frente. A sua dinastia e realeza permanecerão firmes para sempre diante de Mim; o seu trono será sólido para sempre» [2Sm 7, 11-16].

De David sairá um filho que construirá um templo para o Senhor, e o seu reinado durará para sempre. Será um filho para Deus. O filho de David, Salomão, depois de entronizado, construiu um templo para Deus em Jerusalém. A primeira parte da promessa está realizada (1Rs 8, 20). Falta a segunda.

Mas quando morre Salomão, o reino divide-se. As tribos separam-se da tribo de Judá (a tribo de David), e formam o reino de Israel, ao norte. A promessa parece quebrada. Afinal, Salomão não era o filho prometido por Deus. O povo deveria esperar outro Ungido (que em hebraico se diz Messias), na certeza da fidelidade de Deus. Seria esse Ungido com o Espírito do Senhor que reunificaria as tribos de Israel.

No séc. VIII a. C., os reinos coligados da Síria e de Israel ameaçam Judá. O seu rei, Acaz, apela à protecção e presta obediência ao rei de uma potência pagã, a Assíria (2Rs 16, 7). O profeta Isaías apela ao rei para que procure a protecção apenas junto de Deus, e apresenta um sinal de Deus: a mulher de Acaz está grávida, e o seu filho chamar-se-á Emanuel, que significa “Deus connosco” (Is 7, 14). Os profetas não são adivinhos, apenas têm uma fé inabalável em Deus e sabem ler os sinais à sua volta com esperança. A descendência davídica está assegurada. Além disso, sairá “um rebento do tronco de Jessé”, pai de David, sobre quem “repousará o Espírito do Senhor” (Is 11, 1-2). Da descendência de David sairá um Ungido.

Mas o certo é que os sucessivos reis de Judá, descendentes de David, não apareciam aos olhos do povo como Ungidos... No séc. VI a. C., é Judá quem cai, agora perante a Babilónia. O povo é deportado. Os profetas Miqueias, Jeremias e Ezequiel apresentam o exílio como castigo de Deus perante a infidelidade do povo à Aliança. Mas anunciam também o Salvador. De Belém (cidade natal de David) sairá “aquele que governará Israel” (Mq 5, 1-4); de David sairá um rebento que “será rei, governará com justiça” (Jer 23, 5-6); Deus será o pastor do povo, por Seu servo David (Ez 34, 1-10.23-31).

Depois da Babilónia, o povo regressa do exílio, mas continuará governado por potências estrangeiras. Desde a Pérsia até à Grécia de Alexandre Magno, os profetas continuarão a anunciar o Messias, a um povo sem rei davídico. Zacarias anuncia um rei de paz (Zac 9, 9-10).

O Messias começará também a ser esperado como aquele que executaria a justiça de Deus, castigando os opressores (as potências estrangeiras) e libertando os oprimidos (o povo judeu). Surge uma literatura apocalíptica, como o livro de Daniel. Este apresenta o Filho do Homem, imagem do Messias, a quem é dada “a soberania, a glória e a realeza” (Dn 7, 13-14). Será esta a noção de Messias que começará a predominar num povo sempre oprimido, chegando até João Baptista, “o maior dos nascidos de mulher até ao Reino de Deus” (Lc 7, 28). João prega um baptismo de conversão, pois “o machado já se encontra à raiz das árvores; por isso, toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo.” (Lc 3, 9). É o dia de Yahvé, o dia da ira e da justiça do Senhor, que seria inaugurado pelo Messias.

Será uma esperança que acompanhará e marcará toda a história do povo judeu. A chegada do Ungido, ou Messias, que restabeleceria o reino davídico.
um grande abraço!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Crisma 1. Os Sacramentos

Olá! No grupo de jovens com quem caminho, aqui em Gaia (podem sempre visitar-nos! gjovens.hi5.com) alguns dos nossos vão celebrar o seu Crisma, no próxima dia 16 de Novembro. Assim, eu combinei com eles que até lá, nas próximas 3 semanas, eu colocaria de vez em quando alguns posts sobre este Sacramento, para o compreendermos melhor; serão 7 textos:
1. Os Sacramentos: afinal o que são?
2. A Unção (é o significado da palavra Crisma) na Biblia
3. Jesus como o Ungido (que se diz Messias em hebraico e Cristo em grego)
4. O Baptismo (que significa mergulho) no Espírito Santo
5. A Vida Teologal: construirmos a nossa vida em comunhão com Deus
6. Formarmos Igreja, a Comunidade dos discípulos de Jesus
E o 7º é para o dia do Crisma, e será uma surpresa! (Entretanto vou pensando alguma coisa!)
Para vermos estes textos todos juntos, basta clicar na imagem que está aqui à esquerda onde diz Crisma. Boa caminhada!
Falar do Crisma, ou da Confirmação, é falar de um sacramento. Portanto, antes de avançarmos, comecemos por pensar o que é um sacramento e qual a sua importância para a nossa vida, enquanto pessoa e enquanto cristão.

O sacramento é uma celebração comunitária da fé. O Homem constrói-se na história, e cada pessoa tem a sua história, única, original e irrepetível. Do mesmo modo, cada pessoa tem a sua própria história de fé, que é um caminho de encontro e conhecimento com Deus. A fé é uma história.

Se, na nossa história pessoal, e mesmo nas suas múltiplas dimensões (profissional, social, familiar, etc.) temos determinados momentos marcantes, também a nossa história de fé é marcada por acontecimentos especiais. São os sacramentos.

São especiais porque devem possibilitar-nos um encontrocom Deus, no Espírito Santo. São celebrativos, porque festejam a experiência do Deus que aconteceu, acontece e continuará a acontecer na sua vida. De facto, o sacramento deve resultar de um passado rico em experiência de Deus e deve apontar para um futuro de confiança no Deus fiel. A sua linguagem é simbólica: apresenta ritos e sinais que nos apontam para o Seu Projecto.

Além disso, são celebrações comunitárias. Só faz sentido falar de Igreja se falarmos de comunidades. Esta é o contexto privilegiado de acção do Espírito Santo. E, se reflectirmos bem, descobriremos que, nos melhores momentos da nossa vida, estivemos sempre rodeados daqueles a quem amávamos e com quem estávamos unidos em algo comum (comum-unidade).

Mas o que é que significa a palavra sacramento?
Sacramento vem do latim e significa, literalmente, sinal. O sacramento é um sinal.

A Igreja é o conjunto de todos aqueles que têm a possibilidade de conhecer e experimentar o Amor de Deus e o Seu Projecto Salvador para toda a Humanidade. Aqueles que, nas suas vidas, podem saborear o jeito de ser, amar e de se relacionar de Deus.Ora, o Espírito Santo não tem nenhum altifalante com que se comunicar com o Homem. O Seu altifalante somos nós, que O escutamos. Precisa de mediações.

Tal como quando olho para um semáforo vermelho reconheço a obrigatoriedade de parar, quando olho para a Igreja, para as suas comunidades, para todos aqueles que a formam, devo reconhecer o Deus-Comunidade de Amor. Claro, de modo imperfeito, progressivo, até chegar o dia em que O conhecerei de modo perfeito (1Cor 13, 12). Por isso devemos assumir-nos como Igreja de modo sacramental: mediações de encontro com Deus.

Aqui reside a importância dos sacramentos: serem momentos privilegiados em que nos encontramos com o nosso Deus e vivermos ao Seu jeito. É a vida teologal: que brota de Deus, da acção do Seu Espírito Santo. Esta acontece em contexto comunitário de escuta da Palavra, do Deus que se revela, de oração na intimidade com o Deus que Se deixa tratar por tu, e de celebração, proclamação do Seu Amor infinito e pleno. Para, por fim, se transformar em comunidade de missão, de testemunho.
Os sacramentos são, para a comunidade, o que esta é para o mundo: mediações de encontro com Deus.

No Novo Testamento, só temos abordados, explicitamente, dois sacramentos: o do Baptismo dos discípulos de Jesus, e a Eucaristia ou Fracção do Pão (Act 8, 13; 16, 33; 2, 42; 20, 7). Ao longo da história, a Igreja foi consagrando outros cinco sacramentos: a Confirmação, a Reconciliação, o Matrimónio, a Ordem e a Unção dos Enfermos.

um grande abraço!