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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cuidado Desinteressado



O seguinte texto merece uma pequena explicação:
Logo após o Concílio Vaticano II, realizaram-se na América Latina uma série de encontros de bispos, presbíteros e lideres de comunidades daquele Continente para em primeiro lugar analisarem qual a realidade vivida pelos cristãos e pelas populações em geral em todos os seus aspectos positivos e negativos, para em seguida discernirem quais os caminhos de aplicação das novidades lançadas pelo Concílios. Estes encontros realizaram-se em Medellin, Colómbia, em 1968, e em Puebla, México, em 1979, e foram fundamentais para o então grande profetismo que o cristianismo viveu naquele continente nas décadas de 60, 70 e 80, no meio de revoluções sociais, ditaduras militares e pressões politicas e económicas por parte dos dois blocos da Guerra Fria.

Bom. É que, num momento comunitário de oração em que tive a sorte de estar presente, foi lido um excerto do documento final do encontro de Puebla, numa parte dedicada aos jovens e à relação da Igreja com estes. Achei muito interessante esta passagem:

« A Igreja vê na juventude uma enorme força renovadora, símbolo da mesma Igreja. E isto por vocação e não por táctica, já que ela própria está chamada a uma constante renovação de si mesma, ou seja, a um incessante rejuvenescimento. O cuidado desinteressado que a Igreja deve ter pela juventude mudará a vida da própria Igreja e ajudá-la-á a pôr de lado qualquer atitude de desconfiança ou de menosprezo para com os jovens».

Chamou-me pessoalmente à atenção por dois aspectos: primeiro pela expressão «cuidado desinteressado»: sem interesse, portanto, ou pelo menos sem interesse próprio, ou pelo menos em que o interesse esteja centrado nos jovens. Exclui, portanto, uma «utilização» deste cuidado. E aqui encontro-me eu inserido, no que me dediquei estes (poucos) anos com pessoas mais novas do que eu: foi nesta linha? E a nivel eclesial, não terão tido mais visibilidade os números, actividades, multidões e publicidades a este nivel de pastoral juvenil?

Neste cuidado desinteressado não estaria antes uma apresentação, crente claro, um testemunho da figura de Jesus, da sua vida e mensagem, e das possibilidades de esperança, de força e de humanização que delas brotam, sobretudo num contexto tão dificil que todos estamos a viver, e de modo particular os jovens, desde os adolescentes a quem um dos pais, ou os dois, sofrem o desemprego, passando os universitários que vivem os cursos e a integração no "mercado" de trabalho em lógicas brutais de concorrência, até ao pessoal para quem é mais dificil viver algum projecto estável a nivel pessoal e familiar?

(E porque será, vim a saber, que dos 9 módulos que compõem o programa de EMRC do secundário, nenhum seja dedicado, pura e simplesmente, à tal apresentação e descoberta da figura histórica da pessoa de Jesus de Nazaré?)

E o outro aspecto: os bispos latino-americanos realçam que desde encontro entre os jovens e a Igreja, quem muda é... a Igreja. Muda a sua atitude, dá-se a sua renovação, porque essa juventude é até um simbolo da Igreja. Humildade, uma grande humildade é o que eu encontro aqui. Uma humildade que não exclui a missão e o testemunho, mas que até o tornam fecundos. Mas toda a pastoral juvenil não irá, quase toda, no sentido da mudança dos jovens? E os jovens, são parte dessa Pastoral, símbolo dessa Igreja, ou «clientes» ou «publico-alvo» a quem se realiza actividades... para os mudar, ou, em linguagem religiosa, «converter»?

Certamente haveria coisas mais importantes e até evangélicas em que poderia partilhar, mas que se há-de fazer? Surgem-me parágrafos assim de vez em quando... :)

Um grande abraço! 

segunda-feira, 18 de julho de 2011





Graças a Deus que, no Evangelho de Mateus como nos restantes Evangelhos, Jesus nos é apresentado como uma pessoa bastante sensata.

Desde as primeiras páginas do livro do Génesis a realidade humana é constatada com as dinâmicas, ou antes, com os bloqueios e rupturas do mal, do sofrimento, das limitações. Em linguagem bíblica, do pecado, vivido precisamente como ruptura de Aliança, como negação do sentido da humanização. Desde Adão e Eva que, de desejados um pelo outro (sobretudo a segunda pelo primeiro, o texto bíblico é inteligente:) passam a indesejados («a mulher que trouxeste para junto de mim»), a ruptura assassina entre irmãos, Caím e Abel, até às absolutas necessidades de renovação com Noé e depois com a torre de Babel, vemos a história humana marcada por este joio...
E, ao mesmo tempo, vemos a persistência, a paciência, a fidelidade, quase a constante teimosia, perdoe-se a repetição, aliada à sussurante presença de uma Palavra que renova a Aliança com a Humanidade, e a renova em figuras concretas, em pessoas concretas como Abraão e Sara, os Patriarcas, etc...
E mesmo essa Aliança, renovada em pessoas que não são, de modo nenhum, exemplos perfeitos e puros de humanização, desde o homicida Moisés ao adultero David...

E é nesta História que passa, pelo meio de nós, este Filho, que passa para permanecer, que passa para se misturar, seja entre as filas de todos os que vão ter com João Baptista ao Jordão, seja nas multidões onde é tocado por uma mulher em hemorragia ou onde é visto e onde vê Zaqueu no cimo de um sicómoro...

E graças a Deus, é nesta condição de uma História, de uma Humanidade marcada por dinâmicas e por rupturas, por projectos e por bloqueios, por relações e por confrontos, por encontros e por isolamentos, que somos inseridos numa Salvação que nos ultrapassa; é nesta condição de pessoas em construção, de histórias em construção, de relações e projectos em construção, que somos inseridos numa Família Filial e Fraternal cujo Anfitrião é o Filho. É este, talvez, o segredo do Perdão...

Este Filho, Jesus de Nazaré, a quem admiro muito pela sua sensatez, talvez até pela sua humanidade: só uma pessoa verdadeiramente humana é capaz desta sabedoria de não querer arrancar o trigo do joio para não levar os dois, porque ainda não é o tempo próprio. Espero descobrir, ao longo da minha vida, esta sabedoria, esta aprendizagem...


Um grande abraço!

domingo, 12 de junho de 2011

É Urgente Mudar de Modelo


O texto seguinte foi publicado a 29 de Outubro de 2009 pelo Ministério das Relações Externas da Bolívia, como proposta de leitura e revisão para as comunidades daquele país. Partilho-o na linha da reflexão sobre esta Crise que tanto sentimos e ouvimos falar. Um grande abraço!



«Como consequência da cultura de dominação sobre a natureza, a nossa Mãe Terra, a nossa Pachama (da língua quícha, Pacha significa Universo, Mundo, e Ma de mãe; é a divindade máxima nas culturas dos Andes), está doente, ferida de morte. O planeta está a aquecer e o clima a mudar. O aumento exponencial do aquecimento global está a provocar mudanças extraordinárias no clima. Os transtornos do fenómeno do El Niño e da Niña, secas, inundações, ondas de calor, furacões e tornados são cada vez mais fortes e mais frequentes. Apresentam-se condições climáticas extremas que nunca vimos antes, aumentando as chuvas em algumas regiões e ocasionando secas severas em outras, tendo efeitos negativos na agricultura, silvicultura e pesca em todas as regiões. As inundações no oriente da Bolívia nos últimos anos são um resultado directo deste fenómeno.

Estamos a viver uma mudança climatérica sem precedentes provocada directa e unicamente pelo ser humano. Há provas irrefutáveis de que a actividade humana é a principal responsável pelo aquecimento observado desde 1950, particularmente pelos padrões de consumo da «civilização» ocidental desde a época industrial. Estima-se que no ano 1751 as emissões de CO2 provenientes da combustão de combustíveis fósseis fossem de 3 milhões de toneladas. No ano 2006, emitiram-se para a atmosfera 8.379 milhões de toneladas.

A concentração na atmosfera de gases que provocam o efeito de estufa aumentou substancialmente desde o começo da revolução industrial (uns 37% em 200 anos). A concentração pré-industrial era de 280ppm (partes por milhão) enquanto em 2008 foi de 390 ppm, e se não deixamos de emitir estes gases, vai a caminho das 600 durante este século XXI, enquanto no último milhão de anos, até 1960, a concentração de CO2 na atmosfera nunca superou as 310ppm. As 600ppm não se alcançaram no planeta desde há 18 milhões de anos, enquanto a variação de CO2 não superou aproximadamente 10% no planeta durante os últimos 10.000 anos.

Se passarmos de um incremento de 2ºC sobre a temperatura média pré-industrial, os danos serão muito severos. Em 2004 já tínhamos aumentado a temperatura 0,8ºC. A temperatura depende da concentração de CO2. Se superamos os 400ppm (em 2016 ao ritmo actual), alcançaremos inevitavelmente os 2ºC antes de 2050.

Mas, a precária situação do planeta na actualidade não é culpa dos 80% da população mundial, que vivemos em condições de pobreza, senão que é causada directa e principalmente pelos modelos de desenvolvimento e consumo irresponsável desde a época industrial da chamada civilização ocidental. A sede de ganância sem limites, a busca de luxo, ostentação e do supérfluo do 20% mais enriquecido da população, enquanto milhões morrem de fome no mundo, fez-nos a todos depender totalmente do consumo excessivo dos recursos do planeta, convertendo a tudo em mercadoria e expondo-o à sobre-exploração tanto dos bosques, a flora e fauna, a água, a terra, o genoma humano e a própria vida como os minerais e os combustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo), que são os maiores provocadores das emissões globais de Gases de Efeito de Estufa. Desde 1860, a Europa e a América do Norte contribuíram com 70% das emissões de CO2. Os países empobrecidos, uns 25%.

As causas desta Crise Global, que sentimos cada dia com maior força, encontram-se nos modelos dominantes de desenvolvimento capitalistas e socialistas que deram a prioridade a um rápido crescimento económico e procuraram uma acumulação colectiva e individual de riqueza, tudo para responder a um consumismo desenfreado e insaciável, que requer uma exploração cada vez mais irresponsável dos recursos naturais.

Impulsionados pela civilização ocidental e agora empregues tanto a nível mundial como local, estes modelos de exagerada e ilimitada industrialização não são solução para a Humanidade e são impossíveis de ser generalizados ao conjunto da população mundial, porque aumentam a crise ecológica e ameaçam a sobrevivência dos seres vivos e a subsistência do planeta ao não permitir aos recursos naturais renovarem-se ao ritmo a que são consumidos.

Ainda sendo eles os principais responsáveis desta Crise Global, os modelos de desenvolvimento seguem como antes com o crescimento ilimitado, aplicando as receitas de mercado para gerar cada vez mais rendimentos e consumo irracional. As empresas transnacionais e os interesses do capital financeiro internacional não param a sua expansão contra ventos e marés até ao último canto do planeta. Seguem com a exploração cada vez mais irracional e irresponsável dos cada vez mais escassos recursos naturais do planeta e até procuram fazer negócios com as próprias enfermidades que estes modelos produzem.

Ao continuar a avançar, esta crise pode converter-se numa ameaça à paz mundial quando as nações-estado entrarem em caminhos sangrentos por todo o planeta pela sobrevivência e controlo sobre o cada vez menor acesso ao petróleo e ao gás natural, água doce, minerais chave, bosques e terras para alimentos, entre outros recursos, desencadeando guerras como as do petróleo e gás no Iraque, Afeganistão, Sudão e Geórgia.

Neste panorama, já não é suficiente lutar por libertar as nações empobrecidas da opressão e exploração dos países enriquecidos, por libertar ao Sul do Norte, lutar pela independência e a soberania nacional frente ao imperialismo. O problema principal já não é a «pobreza» do Sul, o problema é a mal entendida «riqueza» do Norte, um consumo crescente e excessivo para o qual já não basta apenas um planeta; o empobrecimento do Sul e o enriquecimento do Norte avançam paralelamente à destruição do planeta.

Já não vale sugerir o socialismo frente ao capitalismo ou neoliberalismo, sugerir o desenvolvimento sustentável frente ao decrescimento, sugerir a harmonia Homem-Natureza frente à cultura da dominação da natureza, sugerir a Cultura da Vida frente aos modelos de desenvolvimento capitalistas e socialistas.

Já não podemos escolher de maneira voluntária entre duas opções, duas forças equivalentes que lutam num contexto estático, escolhendo a alternativa que melhor nos sirva. Já não podemos ficar a resolver as contradições estáticas entre capital e trabalho, entre Norte e Sul, entre transnacionais e nações originárias, entre domínio militar e a força da energia comunal.

Não vivemos tempos «normais», senão tempos excepcionais. Temos de abrir os olhos, tomar consciência da crise, ir mais além do normal, entender a importância das tendências dinâmicas no mundo, reconhecer os efeitos graves sobre o equilíbrio da natureza e o provável desmoronamento da sociedade ocidental quando terminar a energia barata e se agravar as mudanças climatéricas. A convergência destas tendências provocará uma mudança que nos cairá em cima com toda a sua força. Está a morrer a velha sociedade e não acaba de nascer uma nova vida. Está madurando a situação revolucionária, em palavras de esquerda.

Mas, para além disso, é Pachamama que nos convoca, ultrajada e paciente. O grande Pachakuti espera-nos, avizinha-se uma mudança cósmica e telúrica, uma mudança de era, um inexorável amanhecer carregado de nova vida, de recuperação de identidade e de força.

Nessa situação, o próprio desmoronamento da sociedade ocidental e as ameaças ao planeta desabilitam a opção de fazer valer uma continuação dos modelos de desenvolvimento capitalista e socialista ou de encontrar caminhos que prometam mais do mesmo.

Isso apresenta-nos a oportunidade que o mundo nos escute e o grande desafio de pôr em cima da mesa de debate os nossos princípios, os nossos códigos, de impulsionar a Cultura da Vida como a única solução que possa salvar a Humanidade e o planeta diante dos efeitos da Crise Global. No meio desta disjuntiva, precisamos de ter a habilidade e a preparação de encontrar os caminhos concretos que nos levem à construção de uma nova vida ou, pelo menos, apenas a um novo equilíbrio de sobrevivência. Necessitamos de ver como cuidar e fortalecer o ressurgimento dos povos originários indígenas para que sejam um guia para a salvação da Humanidade e do planeta.

Por isso, necessitamos de ter em conta estas tendências dinâmicas para assentar as bases, os cimentos da reconstrução da sociedade humana. Sem estes cimentos, sem esta base, todo o demais, tudo o que se fala de combater a exploração, a descriminação e o empobrecimento da maioria da população, luta contra a pobreza e o analfabetismo, a recuperação, nacionalização, industrialização e uso sustentável do gás e outros recursos naturais, produção e consumo de produtos ecológicos, diversificação industrial, promoção das exportações e abertura de novos mercados… baseia-se numa análise fora da realidade e, portanto, não servirá para nada.»


«Vivir Bien como respuesta a la crisis global»
Ministerio de Rels. Exteriores, Bolivia. Disponible en: alainet.org/active/34032&lang=es



segunda-feira, 25 de abril de 2011

The Sunset Limited



Quando encontro um filme em que participam os actores Tommy Lee Jones e Samuel Jackson, é sinal de que o filme é de qualidade. Mas quando o filme conta apenas com estes actores, é totalmente desenrolado no apartamento de um deles, e tem como argumento uma longa conversa entre um pastor evangélico ex-presidiário (Samuel Jackson) e um professor ateu que tenta suicidar-se (Tommy Lee Jones), então é um filme que tem o direito de ser visto pela sua originalidade.

Não convém é ser visto à noite, pois se o filme ganha em originalidade e conteúdo, perde em acção!

Junto o trailer do filme que, infelizmente, não consegui encontrar com legendas em português. Um grande abraço!





terça-feira, 19 de abril de 2011

Uma Leitura Pessoal da Crise (III)


Os dados do recente Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2010 apontam para o seguinte: calcula com que a recente crise económica 34 milhões de pessoas a nível global perderam os seus empregos, e outros 64 milhões caíram para o limiar de pobreza de 1,25 dólares diários de rendimento (menos de 1 euro por dia, exactamente 87 cêntimos). Isto eleva para uma estimativa de 1,44 mil milhões de pessoas que vivem diáriamente com menos de 1 euro (num total de 6,92 mil milhões, ou seja, quase 1 em cada 5 pessoas no mundo vivem com menos de 1 euro por dia).

O Programa vai mais longe: num indicador multidimensional de pobreza, o programa aponta que 1,75 mil milhões dos 104 países cobertos pelo estudo, quase um terço da sua população, vive uma privação grave na área da saúde, na educação ou no padrão de vida. Metade destas 1,75 mil milhões de pessoas vive no Sul da Ásia e um quarto em África. Declara também o Programa que para cada país onde a desigualdade de rendimentos entre a população diminiu nos últimos 20 a 30 anos, houve dois países em que essa desigualdade aumentou.

« Os últimos 20 anos viram progressos substanciais em muitos aspectos do desenvolvimento humano. Hoje em dia, a maior parte das pessoas tem mais saúde, vidas mais longas, mais instrução e maior acesso a bens e serviços. Mesmo nos países que enfrentam situações económicas adversas, a saúde e a educação das pessoas têm melhorado significativamente. E tem havido progressos, não só no melhoramento da saúde e da educação e do aumento do rendimento, mas também na ampliação da capacidade das pessoas para seleccionarem os líderes, influenciarem as decisões públicas e partilharem o conhecimento. Contudo, nem todos os lados da história são positivos. Estes anos também assistiram ao aumento de desigualdades – tanto dentro dos países como entre eles – bem como a padrões de produção e consumo que se têm crescentemente revelado como insustentáveis.»

« O progresso no rendimento varia muito mais. Apesar do progresso agregado, não há convergência no rendimento – em contraste com a saúde e a educação – porque, em média, os países ricos cresceram mais depressa do que os pobres ao longo dos últimos 40 anos. O fosso entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento persiste: um pequeno subconjunto de países permaneceu no topo da distribuição de rendimento mundial e somente uma mão-cheia de países inicialmente pobres se juntou a esse grupo de alto rendimento.»

Procurar compreender bem os factores e motivos que estão por debaixo desta "Crise" será o primeiro passo para a superar. Reduzir esta crise a um ambito apenas económico e financeiro é insuficiente, é necessário alargar a perspectiva e demonstrar como uma sociedade global injustamente desiquilibrada em termos de desenvolvimento humano, bem-estar social e económico, horários de trabalho e possibilidades de consumo só pode entrar em crise. Um sociedade cujos niveis de consumo e produção são insustentáveis, não só para o meio ambiente, como para as vidas de milhões de pessoas que sustentam, com os baixos niveis de vida e as sobrecargas de trabalho, estes níveis.

É uma sociedade global, um sistema "com pés de metade de barro", apesar de parecer ter "cabeça de ouro fino o peito e os braços de prata, o ventre e as ancas de bronze, as pernas de ferro", na linguagem do profeta Daniel. Basta que caia uma "pequena pedra de montanha", até sem intervenção de mão alguma, para que derrube os pés de barro e argila e, com eles, todo o corpo. Esta Crise, não será sinal deste derrube, senão da tempestade, pelo menos das nuvens?

(Continua). Um Grande Abraço!

P.S: Se alguém estiver interessado, pode consultar o Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Aqui.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Uma Leitura Pessoal da Crise (II)


Um indicador para mim das causas mais abrangentes para a situação de "crise" encontrei-o quando me dirigi um dia a um Centro de Emprego. Para me atender à entrada do centro encontrei um funcionário, jovem, que estava a desempenhar o que seriam as funções de administrativo: atendia os telefonemas, distribuía o correio pelos vários departamentos, recebia as pessoas e encaminhava-as para os serviços respectivos, etc.

O que acontece é que esta função de administrativo, função indispensável para um centro de emprego que recebe tanta gente, não era desempenhada por um funcionário do centro, mas por um segurança de uma companhia privada, contratada no chamado fenómeno de Outsourcing (de "out" fora, e "sourcing" fonte). Um fenómeno também conhecido por sub-contratação.

Portanto, eu entro na instituição pública que se declara a si mesma como "o serviço público de emprego nacional com a missão promover a criação e a qualidade do emprego e combater o desemprego, através da execução das políticas activas de emprego e formação profissional." E encontro, logo à entrada, a situação de um serviço que, em vez de ser desempenhado por uma pessoa qualificada e pertencente à instituição, é desempenhado... por uma pessoa de uma empresa privada de segurança.

Declara Alain Euzéby no número de Março do Courrier Internacional:

«Nos países mais desenvolvidos, enunciaram-se mesmo verdadeiros absurdos económicos. Quando o simples bom-senso deveria levar a considerar que é necessário criar empregos para produzir, muitos economistas e responsáveis politicos invertem esta evidência afirmando sabiamente que é necessário produzir, e por conseguinte favorecer o crescimento económico, para criar empregos - não porque faltem automóveis, hambúrgueres ou prospectos publicitários nas caixas do correio.

Nos países onde os niveis de produção são já muito elevados e mais que suficientes, as margens de progressão são relativamente fracas. A exportação e a conquista de mercados estrangeiros tornaram-se, por conseguinte, imperativos essenciais e se há pobreza não é devido a uma insuficiência de produção, mas devido ao desemprego. O qual, apesar das medidas tomadas há mais de 40 anos para o reduzir, se mantém um problema endémico (...)

Graças ao progresso técnico, grandes faixas da produção excede largamente as necessidades da sua população. Ora, graças ao progresso técnico, grandes faixas da produção são cada vez mais mecanizadas, automatizadas, informatizadas ou robotizadas, podendo, por conseguinte, produzir-se cada vez mais com cada vez menos investimento em trabalho. Em nome do emprego, os poderes públicos desses países procuram compensar o aumento da produtividade com aumentos de produção, independentemente dos custos ambientais e ecológicos, em vez de reduzirem a duração de trabalho.

É verdade que, com o comércio livre e a concorrência internacional, é particularmente dificíl reduzir a duração do trabalho sem a acompanhar de uma diminuição equivalente dos seus custos (salários e despesas sociais)... excepto se se conseguir um acordo internacional sobre soluções colectivas, evitando assim que os países que caminhem neste sentido isoladamente ponham em perigo a competitividade da sua economia (...)

Os países que têm progredido nos planos técnico e económico ainda não chegaram a avaliar realmente as consequências do ponto de vista da organização e da duração do trabalho. Teimam nas fugas para a frente considerando o crescimento económico como um meio privilegiado de luta contra o desemprego. Ora esta orientação é não só pouco eficaz, mas sobretudo extremamente perigosa. Quantos desastres climáticos serão necessários, quantos kms quadrados de superfície terrestre deverão ser absorvidos pela subida do nível dos mares, para que os dirigentes do planeta se debrucem finalmente sobre este assunto primordial, de forma séria e em conjunto?»

Se as sociedades ocidentais estão em crise, ou doentes, o desemprego é o seu cancro. Quando grandes empresas e bem-estabelecidas, sem riscos de falencia, ocupam para funções que são necessárias permanentemente (desde carteiros dos CTT, atendedores de informações da PT, revisores do Metro), pessoas por 6 meses ou 2 anos, substituindo-as depois, e o Estado não só permite como apoia, concedendo apoios nos impostos a estas empresas para contratarem pessoas novas e substituindo-as na sua função social através do subsidio de desemprego, algo não estará mal?

E quando as palavras competitividade, produtividade, concorrência, flexibilidade ocupam o lugar de palavras-chave a palavras como colaboração, cooperação, estabilidade, segurança... algo não estará mal?

E estando os indíces de desemprego em aumento constante, pede-se cada vez mais às pessoas empregadas que trabalhem mais horas, mais anos, com ritmos mais instáveis, e sem perspectivas de futuro... algo não estará mal?


Um grande abraço!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Uma leitura pessoal da crise (I)



Em 1987 era publicada no ocidente a 1ª edição do livro de M. Gorbatchov, Perestroika, um termo russo que significa Restruturação. Gorbatchov seria então o mais importante lider e crente do chamado sistema socialista. O contexto em que escreveu este livro é assim descrito pelo autor:

«A certa altura - isto tornou-se particularmente claro na segunda metade dos anos 70 - aconteceu qualquer coisa à primeira vista inexplicável. O país começou a perder impulso. Os falhanços económicos tornaram-se mais frequentes. As dificuldades começaram a acumular-se e a deteriorar-se, enquanto se multiplicaram os problemas não solucionados. Factores do que denominamos por estagnação e outros fenómenos estranhos ao socialismo começaram a surgir na vida da sociedade. Formou-se uma espécie de mecanismo de travagem, afectando o desenvolvimento social e económico. E tudo isto aconteceu numa época em que a revolução científica e tecnológica abria novas perspectivas para o progresso social e económico.»

Gorbatchov reconhece uma situação de Crise prolongada e estrutural na sociedade da então URSS, e acrescenta que esta situação é também incompreensível dadas as possibilidades oferecidas pelos avanços científicos. Alguma coisa de errado se estava a passar.

O que me chama a atenção é a proposta que Gorbatchov propõe para a saída desta situação: recusa-se a reconhecer que as raizes do problema se encontravam no próprio socialismo - «fenómenos estranhos ao socialismo» - e afirmará, em seguida, que as soluções passam por um avanço para a frente no próprio socialismo - ultrapassa-se a crise se atingirmos a sociedade socialista.

Gorbatchov não percebeu o que mais tarde seria provado de forma dramática: era no próprio sistema socialista, com os seus vícios - ausências de liberdades pessoais e comunitárias, bloqueios na iniciativa pessoal, excessiva corrupção nas estruturas do Estado - que se encontravam as origens da crise.

Nesta situação, a solução teria de passar por uma mudança de sistema, não por um avanço no sistema.

Lembro-me sempre desta lição da história quando leio esta situação de Crise que vivem actualmente as sociedades ditas ocidentais, democráticas e capitalistas. É reconhecido que vivemos também uma situação de Crise prolongada, estrutural e de certo modo incompreensível dados os avanços que continuamos a ver em termos cientificos. Desde o 11 de Setembro de 2001 que ouço falar de crise, aumento dos preços dos combustíveis, necessidades de cortes, etc.

Mas as respostas que tenho ouvido são respostas oferecidas pelo próprio sistema que gerou a crise: o sistema económico capitalista. Fala-se da necessidade de maior produção e crescimento, mais eficiencia e produtividade, mais competitividade, menor influencia e menores despesas por parte do Estado, mais flexibilidade no trabalho... As pessoas mais escutadas para solucionar a crise são os principais agentes do sistema capitalista: instituições financeiras, corretores e bolsas, agencias de empréstimos e cotações, técnicos financeiros e, claro, os líderes de grandes empresas.

Não estaremos a cair no erro de Gorbatchov, acreditar que a saída da Crise passa por um avanço para a frente no próprio sistema que gerou a Crise, o sistema capitalista? Não estaremos a acreditar que os motivos da crise são «estranhos» ao capitalismo? Não estaremos dispostos a prescindir de tudo, menos de tudo o que o sistema capitalista nos oferece em termos de consumo, bem-estar material e conforto, mesmo que isso esteja acima das nossas possibilidades e das possibilidades do planeta?

Crise, no seu original grego de Krysis, tem a ver com ruptura, mudança, juízo. Como refere o bispo de Poitiers em França, Albert Rouer, reduzimos a visão da sociedade ao económico e, dentro do económico, ao financeiro. Mas esta situação de Crise não será muito maior? E não implicará uma ruptura, mudança e juizo em relação ao sistema de vida económico e social que construímos? Não será necessário estarmos atentos aos muitos sinais de in-justiça, des-equilibrio e a-normalidade da vida que levamos?...


Continua... Um grande abraço!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

dos Homens e dos Deuses...


Olá! Aproveito hoje para partilhar um convite sobre um filme que vi hoje e que gostei muito, Dos Homens e dos Deuses, baseado na história verídica de sete monges trapistas assassinados na Argélia na noite de 26 para 27 de Março de 1996, durante a guerra civil. Naturalmente, trata-se de um filme e não de um documentário, com todos os elementos próprios, e como eu não estou muito "por dentro" da história não posso dar uma opinião a esse nível, mas no essencial achei o filme muito bom, merece toda a publicidade que lhe tem sido feita aqui pela net.

Caso queiram conhecer melhor a história destes monges, podem encontrar um testemunho de alguém que os conheceu de perto em http://users.skynet.be/bs775533/Armand/wri/av-gen-por.htm. Há um site dedicado à história desta comunidade publicada num livro, mas em inglês: http://www.themonksoftibhirine.net/. Para verem o triller do filme, podem ver em http://www.youtube.com/watch?v=Eedd6VA6Vq4 Um abraço!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Leónidas Proano

Viva! Partilho um vídeo que me surgiu de um bispo do Equador, Leónidas Proano (1910-1988), bispo de Riobamba. Não conheço bem a história deste bispo, pelo que não poderei comentar muito. Mas este video editado com discursos seus parece-me de uma mensagem bem forte. «Anunciar a Boa-Nova aos pobres e a libertação aos cativos» declarará Jesus na sinagoga da sua Nazaré em Lc 4... Poderão encontrar um texto do bispo Proano (em castelhano, assim como é o video) no blog de X. Pikaza. Um grande abraço e boa caminhada de Quaresma!

sábado, 31 de outubro de 2009

Santidade...


. Sabemos como o tema da Esperança pode cair, muitas vezes, numa falsa consolação que nos retira ou desmotiva a assumir, diante de experiencias de sofrimento e opressão, uma atitude criativa e libertadora. O tema do Céu e da Bem-Aventurança tornava-se numa coisa de "outro mundo", um mundo que existe num outro lugar, e que leva a pensar que as nossas experiencias na história, na "carne" não são verdadeiras. Muitas vezes também o tema da santidade e os exemplos dos santos eram utilizados neste sentido, incutindo a resignação e a submissão.
. Um bom retrato desta situação é o que nos apresenta Sophia de Mello B. Andresen, num conto chamado "O Jantar do Bispo":
«O Dono da Casa tinha um pedido a fazer ao Bispo. Fora mesmo por isso que o convidara para jantar. E era por isso que, enquanto o esperava, ele meditava e preparava os argumentos da sua razão.
De facto, ali, naquelas terras de sossego, naqueles dominios submissos onde ele e seu pai e seus avós tinham exercido uma autoridade indiscutida, ali onde antes sempre reinara a ordem, tinha surgido agora uma semente de guerra.
Esta semente de guerra era o padre novo, um jovem padre de sotaina rota e cabelo ao vento, pároco de Varzim, pequena aldeia miserável onde moravam os cavadores da vinha. Havia muito tempo que Varzim era pobre e sempre cada vez mais pobre, e havia muito tempo que os párocos de Varzim aceitavam com paciencia, sempre com mais paciencia, a pobreza dos seus paroquianos.
Mas este novo padre falava duma justiça que não era a justiça do Dono da Casa. E parecia ao Dono da Casa que, dia após dia, semana após semana, mês após mês, a sua presença ia crescendo como uma acusação que o acusava, como um dedo que apontava, como uma espada de fogo que o tocava. E ali na sua casa cujos donos tinham sido de geração em geração símbolo de honra, virtude, ordem e justiça, parecia-lhe agora que cada gesto do Padre de Varzim o chamava a julgamento para responder pelos tuberculosos cuspindo sangue, pelos velhos sem sustento, pelas crianças raquíticas, pelos loucos, os cegos e os coxos pedindo esmola nas estradas. (...)
Mas o pior de tudo era a missa de domingo. Sempre o Dono da Casa ouvira distraido em Varzim os sermões de domingo. Eram sermões que falavam de paciência, resignação e esperança num mundo melhor. Sermões que não lhe diziam respeito. De certa forma, para ele nenhum mundo podia ser melhor, e desejava por isso ir para o Céu o mais tarde possível. De maneira que, enquanto os pregadores falavam, tudo o distraía. Distraía-o a pintura do tecto, distraía-o a criança que chorava. Daí passava para a lembrança do sulfato ou da vindima ou da venda do vinho. Pensava nos seus negócios.
Mas agora já não se podia distrair. Agora o padre novo falava da caridade. E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem.»
. É importante vermos como a Santidade, na Bíblia, não é entendida em termos de heroísmo individual, de heróis que se tornam exemplo segundo as histórias e caricaturas que deles se formam. A Santidade pertence a todo o Povo em virtude da Salvação que Deus neles realiza: os santos são os eleitos que experimentam na sua história a Salvação de Deus.É a partir do Êxodo que Israel se reconhece como um Povo de Santos, de homens e mulheres livres e chamados a viver a Aliança com Deus:
«Vós vistes o que Eu fiz ao Egipto, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até mim. E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Ex 19,4-6).
. É a partir desta linguagem que o livro do Apocalipse fala dos "marcados" que, tal como no Egipto, também agora são salvos pelo Sangue do Cordeiro. De novo não temos heróis individuais, mas um Povo que nasce e se reúne a partir da Salvação realizada por Deus, agora já não o êxodo do Egipto mas a Ressurreição de Jesus. Por isso já não é apenas um povo segundo uma raça e lingua, mas "uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e linguas" (Apc 7,9). Na base está a descoberta que a Ressurreição de Jesus gera um Povo, uma Família, uma Nova Humanidade que está a nascer, que é unida e re-unida nessa Páscoa, que se descobrem vencedores, "de pé diante do Trono e na presença do Cordeiro".
. É esta Nova Humanidade, este novo e pleno Êxodo, de quem as Bem-Aventuranças são o Programa. Tal como os chamados Dez Mandamentos pretendiam ser o programa de um Povo que vivia segundo a Aliança de Deus, agora as Bem-Aventuranças são o grito de um Mundo Novo onde no centro estão os pobres, os que choram, os perseguidos. São esses os reunidos por Deus neste novo Êxodo, são esses que estão no centro de um Reino a acontecer à medida que caminhamos com o Homem de Nazaré pelas páginas do Evangelho. São esses os Santos que Deus reúne e salva, enquanto o mundo exclui.
. Estamos longe de heróis individuais de santidade, em virtudes e ascese. Estamos longe de uma esperança num "outro mundo" que torna a História falsa ou, pelo menos, um teatro. Encontramos um Reino no qual é Deus quem nos santifica, e uma Páscoa na qual estamos a nascer. Um Reino e uma Páscoa que nos reúne com um Programa, um Mandamento Novo. É Bom acreditar neste Projecto.
Um grande abraço e boa Festa de Todos os Santos!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Dietrich Bonhoeffer

Olá! Os textos que hoje partilho são de um autor certamente já conhecido de alguns, Dietrich Bonhoeffer. Pastor da Igreja Confessante Alemã, participou na resistência ao regime de Hitler, tendo sido preso em 1943 e executado a 9 de Abril de 1945. São textos retirados das cartas que escreveu da prisão, à sua noiva, pais e amigos próximos, nas oportunidades que tinha. Pessoalmente não conheço muito da sua vida, apenas algumas cartas e um outro livro; mas parece-me que é mais que merecido partilhá-lo aqui. Um grande abraço!



«Quem sou eu? Dizem-me muitas vezes
Que saio da minha cela, sereno, risonho e seguro,
Como um nobre no seu palácio.

Quem sou eu? Dizem-me muitas vezes
Quando falo com os meus carcereiros livre, amistosa e francamente,
Como se mandasse eu.

Quem sou eu? Dizem-me também
Que suporto os dias de infortúnio
Com impassibilidade, sorriso e orgulho,
Como alguém acostumado a vencer.

Sou realmente o que os outros dizem de mim?
Ou só sou o que eu mesmo sei de mim?
Intranquilo, ansioso e doente,
Como um pássaro enjaulado respirando com dificuldade a vida,
Como se me oprimissem a garganta,
Faminto de cores, de flores, de cantos de aves,
Sedento de boas palavras e de proximidade humana,
Tremendo de cólera diante da arbitrariedade,
Agitado pela espera de grandes coisas,
Impotente e temeroso pelos amigos na infinita distancia,
Cansado e vazio para orar, pensar e criar,
Esgotado e disposto a despedir-me de tudo?

Quem sou eu? Este ou aquele? Serei hoje este, amanhã outro?
Serei os dois de cada vez? Diante dos homens um hipócrita
E diante de mim mesmo um desprezível e queixoso débil?
Ou talvez o que ainda resta de mim se assemelha
A um exército derrotado que se retira em desordem
Sem a vitória que considerava segura?
Quem sou eu? As perguntas solitárias se riem de mim.

Seja quem for, Tu me conheces, sou teu oh Deus!»


«Oh Deus Trino e Uno! Meu Criador e Salvador,
A ti pertence este dia, o meu tempo se encontra nas tuas mãos.
Deus Santo e Misericordioso, Criador e Salvador meu, meu Juiz e Redentor!
Tu me conheces e conheces todos os meus caminhos e acções.
Te aborreces e castigas o mal neste mundo e no futuro,
Sem fazer acepção de pessoas.
Tu perdoas os pecados a quem to pede de coração,
E amas o bem e o recompensas nesta vida com o consolo de uma boa consciência
E no mundo futuro com a coroa da justiça.

Na tua presença recordo-me de todos os meus,
Dos meus companheiros de cativeiro
E de todos os que nesta casa realizam um serviço penoso.
Senhor, compadece-te de mim!
Devolve-me a liberdade e faz que eu viva
De maneira responsável diante de ti e diante dos homens!
Senhor, por qualquer coisa que este dia me traga, seja o teu Nome louvado!

Espírito Santo, concede-me a fé
Que me salve do desespero e do vício.
Concede-me o Amor aos Deus e aos homens;
Um Amor que extinga todo o ódio e a amargura.
Concede-me a esperança que me liberte do temor e do desalento.
Ensina-me a amar a Jesus Cristo e a cumprir a sua vontade.»
Na prisão, Bonhoeffer ganhou a confiança e estima dos companheiros de prisão mas também de alguns guardas. Nas cartas refere que o procuravam para desabafar. Distribuiu textos de oração pelos companheiros, como esta. E escolhido como padrinho de baptismo de uma sobrinha, sem poder estar presente, escreveu uma carta; o texto seguinte é retirado de lá.

«Hoje receberás o baptismo que te converterá em cristã. Serão pronunciadas sobre ti as grandes palavras da mensagem cristã e em ti se cumprirá o mandato do baptismo estabelecido por Cristo, sem que tu compreendas. Mas também nós próprios fomos lançados no início da compreensão.

As noções de reconciliação e redenção, de novo nascimento e Espírito Santo, de amor aos nossos inimigos, de crucifixão e ressurreição, da vida em Cristo e do seguimento de Cristo, tornaram-se tão difíceis e tão distantes que mal nos atrevemos a falar delas. Pressentimos um alento novo e revolucionário nas palavras e acções tradicionais, mas ainda não podemos concebe-lo nem expressá-lo.

É por nossa própria culpa. A nossa Igreja, que durante estes anos lutou apenas pela sua subsistência, como se esta fosse uma finalidade absoluta, é incapaz de erigir-se agora em portadora da Palavra que há-de reconciliar e redimir aos homens e ao mundo. Por esta razão, as palavras antigas haverão de murchar e emudecer, e a nossa existência de cristãos só terá, na actualidade, dois aspectos: orar e fazer justiça entre os homens. Todo o pensamento, todas as palavras e toda a organização no campo do cristianismo há-de renascer partindo desta oração e desta actuação cristã.

Quando alcances a idade adulta, o rosto da Igreja terá mudado muito. Não terá terminado ainda a sua refundação, e cada ensaio de dotá-la prematuramente de um poder organizador acrescido não logrará senão atrasar a sua conversão e purificação. Não nos toca a nós predizer o dia – mas este virá – em que de novo haverá pessoas chamadas a pronunciar a Palavra de Deus de tal modo que o mundo será transformado e renovado por ela.

Será uma linguagem nova, quiçá totalmente areligiosa, mas libertadora e redentora como a linguagem de Cristo; os homens se espantarão dela, mas por sua vez serão vencidos pelo seu poder. Será uma linguagem de nova justiça e de uma verdade nova, a linguagem que anunciará a paz do Senhor com o género humano e a proximidade do seu Reino. «E se assombrarão e admirarão de tanto bem e de tanta paz como eu lhes darei» (Jer 33,9). Até então a actividade dos cristãos será oculta e calada, mas haverá pessoas que farão oração, actuarão com justiça e esperarão o tempo de Deus.»
P. S.: poderão conhecê-lo melhor nestes sites: http://www.sociedadebonhoeffer.org.br/

segunda-feira, 23 de março de 2009

Apareceu...

«Lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos anunciei, que vós recebestes, no qual permaneceis firmes e pelo qual sereis salvos, se o guardardes tal como eu vo-lo anunciei; de outro modo, teríeis acreditado em vão. Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto. É que eu sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus» (1Cor 15,1-8)

No centro ou no seio do que chamamos o Novo Testamento, está uma fortíssima e tremenda experiencia de encontro pessoal. O Novo Testamento é um conjunto de escritos e testemunhos de discípulos que reconheceram e experimentaram o encontro com alguém Vivo e Presente para além da experiencia da morte. Apareceu. Uma Pessoa que eles conheceram. Jesus.

Recebo nas mãos estes textos e escuto o testemunho de uma experiencia, um encontro que ultrapassa as palavras. O centro do Novo Testamento não é uma qualquer ideia sobre a ressurreição, a vida além da morte, a salvação moral. É o Ressuscitado. O seu centro é o Ressuscitado. Uma Pessoa. É por Ele, para Ele que o Novo Testamento nasce e existe. Como a Igreja, a Comunidade dos Discípulos.

Os testemunhos que encontramos falam-nos de um Encontro, Pessoal. Por detrás está a Marca, a Autoridade que possui a vida daquele Homem: no seu ensino, nas suas atitudes, na mediação de libertação que é, no movimento de discípulos que convoca, está uma Autoridade que só pode vir de Deus. Uma Autoridade, uma Missão que não termina na morte. «Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte, pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte» (Act 2,24).

Na Experiência Pascal está um movimento de Re-União dos discípulos, de homens e mulheres marcados pelo encontro histórico com Jesus. Aquele Homem tinha autoridade suficiente para colocar a vida nos seus passos, no seu caminho, como seus discípulos: porque reconhecem ser um caminho de Liberdade. «Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: «Que pretendeis?» Eles disseram-lhe: «Rabi - que quer dizer Mestre - onde moras?» (Jo 1,38)

Agora, o movimento repete-se: re-unidos e convocados por uma experiencia de Memória, de uma Vida marcada, os discípulos reconhecem que é o Mestre quem os re-une, une de novo, convoca de novo. É Ele. Está a re-unir-nos para si, unir-nos de novo. Está vivo. Ressuscitou. Deus o Ressuscitou. «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar. Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!» (Jo 21,6-7).

E vão ler toda a História, todo o Projecto de Deus para a Humanidade, todas as Promessas que Deus fez ao seu Povo pelos Profetas, pelas Escrituras. E reconhecem um Sentido. Sim, tem Sentido. Faz Sentido. Todas as Promessas conduzem para este Homem. É Ele o Eleito, o Ungido, o Messias. Deus confirmou-o e consagrou-o o Messias, como um Rei, a Cabeça, o Primogénito da Nova Humanidade. Cumpre-se o Projecto: «E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito» (Lc 24,27).

Uma Experiencia de encontro, ou re-encontro pessoal. Que re-une e acontece na comunidade, onde Tomé tem de estar para Ver (Jo 20,24). Que ganha todo o sentido à luz da História, do Projecto de Deus com a Humanidade. Que permite compreender que, afinal, a Autoridade com que aquele Homem marca a vida de homens e mulheres não termina na morte, mas é uma Presença que continua e renova, agora universal. «Pois, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.» (Mt 2,20).

E fechando o livro destes testemunhos que eu recebi, de homens e mulheres, levanto os olhos e reconheço que continua a acontecer tudo isto. E que Mistério de Vida é este, e que Presença Soberana é esta. E fechando os olhos, procuro agradecer e compreender mais um pouco…

Uma boa semana e bom Encontro.

domingo, 15 de março de 2009

Carta a um Bebé na Barriga da Mãe

Olá! Partilho hoje um texto que utilizamos no Grupo JR-Gaia: trata-se de uma carta a um bebé na barriga da mãe... Partilho-a hoje, e nos próximos dias partilharei também a carta que nasceu do grupo escrita já não ao bebé na barriga, mas ao recém-nascido! Um grande abraço!
Tás aí quentinho na barriga da mamã, não é?
Excuta, vai mas é trabalhar ó! Fazer qualquer coisa de útil prá sociedade!
Ups! Isto era suposto ser uma carta séria! Ok então, vamos lá…

Companheir@:

Estás quase a nascer para uma nova aventura; bem-vindo! Sei que por enquanto não podes escutar nem compreender o que te estou a escrever, mas um dia, quando já tiveres crescido, vais compreender…

Estás a nascer, estás a ser gerado… és fruto do Amor, amig@, é Amor quem te gera, é o Amor quem te vai dar à luz um dia. Tu já vais sabendo muito bem o que é o Amor: para ti, o Amor é a tua mamã de quem recebes tudo o que precisas para nasceres… Estás a nascer, ainda não sabes falar ou comunicar, ainda não percebes nada de coisas que são tão importantes para os adultos como a matemática ou a política. Ainda não tens nada que seja mesmo teu, que tenhas comprado ou conquistado. Só tens o Amor, o calor os nutrientes de que precisas… só tens a Graça da tua mãe.

Sabes o que eu gostava mesmo, companheir@? Não sei porquê, nós esquecemo-nos completamente destes momentos que estás a viver; esquecemo-nos que antes de sabermos ou possuirmos muitas coisas, nascemos do Amor e da Graça… se calhar, esquecemo-nos muito facilmente do que é mais importante e essencial na nossa vida…

Sabes, olho para ti amig@, e vejo o mistério da vida a nascer… não, de longe não és apenas mais um… não és uma peça de fábrica ou um número nas estatísticas… nunca te esqueças, por valor, da tua dignidade! Tens um valor que nem todo o dinheiro do mundo junto podia comprar, acredita! Tenho a certeza absoluta disto! Sabes porquê? Porque és Pessoa…

O que é ser Pessoa, perguntas-me tu. Eu também não te sei responder! Sabes, há coisas que são tão importantes, mas tanto, que levamos toda a nossa vida a aprender… Olha, posso dizer-te alguns segredos deste mistério, alguns truques que eu aprendi e vou descobrindo… Mas tu tens de prometer que guardas segredo, tá?!

Olha, ser Pessoa é aprender a amar e ser amado. Alguns pensam que o mais importante é a profissão que temos, as coisas que compramos, o sucesso que alcançamos… Eu acredito que o mais importante é o Amor… Vê, tu estás a nascer como fruto do Amor dos teus pais, recebes tudo da tua mamã por pura Graça… E depois, quando cresceres, vais também aprender a amar, viver em Aliança, tomar critérios e opções de Amor, muitas vezes através de fracassos e sofrimentos… Por favor, nunca desistas…

Olha, outro segredo é: ser Pessoa é tornar-se Pessoa! Vê que tu próprio não nasces num dia, o teu parto é preparado por 9 meses nos quais te vais formando e crescendo no ventre e no Amor da tua mãe… Do mesmo modo, toda a tua vida, toda a tua história é lento nascimento de uma Pessoa… Tens o desafio mais importante nas tuas mãos, sê o autor da tua história! Por favor, não te deixes demitir, por medo ou preguiça, desta missão: acredita que é o melhor que te pode acontecer, construíres uma vida a sério pelas causas do Amor…

Olha, tinha muitos outros segredos para te contar, mas só te vou dar mais um porque a carta já está a ficar longa… Depois terás outras pessoas que te contarão outros segredos e experiencias… És unic@, original e irrepetível! Nunca houve nem nunca mais haverá, na história da Humanidade, alguém que tenha sido igual a ti. Porque és Pessoa, tu própri@ vais escrever a tua própria história com as tuas próprias opções e com o teu jeito de dançar o Amor… És insubstituível: se não existisses, se não estivesses já a nascer a Humanidade ficava mais pobre…

Como um painel que perdia um azolejo com as suas cores e traços: deixava de ser painel… Sê tu própri@, o que significa que te feches ou lutes contra os outros! Só serás tu própri@, só terá o teu jeito próprio de viver e amar na medida em que com-viveres, na medida em que te relacionas, amas e és amad@… Não estás sozinh@m pertences a uma grande família chamada Humanidade: não deixes de criar laços de amizade e confiança…

Pronto, já chega: podia dizer-te muitos outros segredos que eu também estou a aprender, mesmo até sobre as relações… Talvez até numa próxima carta. Até lá, fico à tua espera: nasce! Nasce para a vida que te acolhe! Não tenhas medo de nascer, tens uns braços à tua espera! Nasce, tens um privilégio e um desafio tremendamente belos: viver, crescer como pessoa. Nasce, fico à tua espera. E um dia, talvez, possamos conversar de coisas bonitas; gostava um dia de te falar de uma pessoa de quem gosto muito, chamada Jesus, de Nazaré. Mas ainda é cedo…

Vou deixar-te com uns truques que um amigo meu escreveu; quando cresceres podes ir ao blog dele: http://www.vidateologal.blogspot.com/ Ele depois explica-te o que é a vida teologal. Até já companheir@, continua a nascer.

O teu amigo. Rui Pedro

Pára e Escuta
Vive sempre no Presente
Saboreia a beleza da Vida
Conquista os teus medos
Arrisca sempre nas opções
Compromete-te nas decisões
Assume os desafios que a vida te propõe
Abre-te ao outro. Não vivas em espiral
Cria raízes profundas de intimidade no Espírito, para sorveres do leito de Deus
Acredita sempre – sempre! que apesar dos teus desencontros e fracassos, és amado(a)
Sê Transparente e Fiel a ti mesmo(a)
Sê Audaz
Sê Livre
Morre bem para que possas Renascer Bem

A Vida continua...e a Obra também...
A OBRA... TUA...
CRESCE... CONTINUA...
CONTINUAS... HOJE... AGORA...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Evangelho nada diz: nem que sim, nem que não...


É sexta-feira e regressa, de novo, o tema do jejum. Não pertence ao fundamental da Fé nem sequer terá um lugar como proclamação do Projecto Amoroso e Ternurento de Deus. Mas tem-me andado na cabeça uma descoberta e partilho-a hoje, que vem a calhar.

O Evangelho nada diz sobre o Jejum. Nada recomenda ou prescreve. Isto para mim é libertador. Não porque o Evangelho diga para não jejuar, não é isso. Simplesmente nada diz. Nem diz para jejuar, nem diz para não jejuar. Fica à consciência de cada pessoa. De Jesus apenas encontramos “quando jejuardes” ou “se jejuardes”... (Mt 5, 16).

O Jejum é um aspecto quase comum às tradições religiosas: lembro-me do Ramadão dos muçulmanos, por exemplo. Quase pertence àquela atitude que os crentes naturalmente têm diante de Deus: sabem que não O muda nem é isso que O torna favorável, mas sim o seu próprio Amor e Graça, que são por si Favoráveis: «Superabundou a Graça», proclama Paulo (Rom 5,20).
Conhecemos a Liberdade que o Novo Testamento reconhece quer diante do Jejum, quer diante de todas as tradições religiosas. Jesus faz a crítica, não do jejum, mas do farisaísmo e da sua maneira de viver o jejum: «desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam» (Mt 6,16). Como não recordar já a critica do profeta Isaías:

«É porque no dia do vosso jejum só cuidais dos vossos negócios, e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas sem dó nem piedade. Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz seja ouvida no alto (…) O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão» (Is 58, 4-7).

E é interessante como para Isaías esta fraternidade e justiça que o jejum significaria é um movimento de humanização para o próprio crente: talvez esteja aí o essencial. «Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente» (Is 58,8).

E como não recordar a critica mordaz de Paulo: «Se morrestes com Cristo para os elementos do mundo, porque é que vos submeteis a normas, como se estivésseis ainda dependentes do mundo? Não tomes, não proves, não toques em coisas, todas elas destinadas a ser consumidas; coisas de acordo com os preceitos e ensinamentos dos homens! São normas que, embora tenham uma aparência de sabedoria - a respeito do culto voluntário, da humildade, da austeridade corporal - não têm qualquer valor; só servem para satisfazer a carne» (Col 2,20-23).

Fica recusada, portanto, toda a tentação farisaica que só serviria para se tornar superior aos outros e sentir-se merecedor, possuidor, conquistar da Graça – haverá maior absurdo?

Um outro texto, do Evangelho de Marcos, é significativo: aqui vem presente a experiencia histórica de que os discípulos de Jesus não seguem os costumes dos discípulos de João Baptista e dos fariseus de jejuar. «Estando os discípulos de João e os fariseus a jejuar, vieram dizer-lhe: «Porque é que os discípulos de João e os dos fariseus guardam jejum, e os teus discípulos não jejuam?» Jesus respondeu: «Poderão os convidados para a boda jejuar enquanto o esposo está com eles? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar. Dias virão em que o esposo lhes será tirado; e então, nesses dias, hão-de jejuar.» (Mc 2,18-20) Hoje pergunta-se o significado deste Esposo que lhes é tirado. Eu partilho a minha leitura pessoal.

Nas comunidades proclama-se e celebra-se a Presença daquele que é o Ressuscitado, cuja Vida é tornada Universal e Plena para todos os Homens. Os discípulos caminham numa experiencia de se unirem, de pertencerem a este Homem cuja Vida não é já a sua vida mas a Vida de toda a Humanidade: uma Vida Filial, Pascal, um Corpo animado por um Espírito, logo o Espírito de Deus, o Santo (Rom 12,5).

Mas, ao mesmo tempo, o Presente ainda é o Esperado: sim, nós ainda não somos completamente presentes n’Ele, a nossa relação ainda não é evidente, o Homem Novo ainda está a nascer, a Humanização ainda é um processo e uma história a escrever-se, o pecado e o sofrimento continuam a marcar à nossa volta. O Esposo… Como não recordar o grito de Paulo: «Também nós, que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo» (Rom 8,23); ou então o seu desabafo, que só os mártires têm o direito a repetir: «Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós» (Flp 1,23).

O Esperado ainda é um Ausente: de imediato é isso que experimentamos, é aí que está o sensível. E reconhecemos, e proclamamos, e celebramos que Ele é o Presente, o Ressuscitado, e a nossa vida está a nascer, no lado interior e pessoal, por Ele, para o Pai, no Espírito; tá bem....

Entrará aqui o jejum como símbolo? Não sei, o Evangelho não o diz. O jejum não pertence, de longe, ao centro da Boa Noticia de Jesus; a tradição do jejum à sexta, na Igreja, não passa de «tradições humanas» que, quando postas contra a fraternidade, merecem a critica que Isaías e Jesus lhe dirigem (Mt 15,9). São tradições humanas, como tantas outras: precisamos delas, destas ou de outras, sem nos apercebermos.

O que me é significativo é que o Evangelho nada diz. Não faz sentido pregar o jejum. Pertence à opção pessoal de cada um, na sua relação com o Ressuscitado, uma relação a caminhar, à procura ainda...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

«Não acredito que a violência se combata com a violência»...

Hoje, excepcionalmente, decidi comprar o jornal Publico para comemorar a vitória de Barack Obama nas eleições do EUA (e também a vitória do Sporting, hihi!). Mas encontrei-me com esta Descoberta, este testemunho, e partilho-o convosco. O Reino a acontecer...
Na primeira pessoa Omer Goldman (na foto).
Prenderam a filha pacifista do ex-número dois da Mossad (serviços secretos israelitas)
Ela tem 19 anos. Regressa hoje a uma base militar para um terceiro ciclo de 21 dias de detenção. Recusa-se a servir num "exército de ocupação". É mais um desgosto para o seu pai, que desistiu de ser chefe dos espiões de Israel. Por Margarida Santos Lopes


«O meu pai é Natalin Granot, um especialista em Irão que se demitiu de "número dois" da Mossad, em 2007, quando não o promoveram a chefe da principal agência de espionagem de Israel. Eu, Omer Goldman, 19 anos, sou uma pacifista e, hoje, regresso à prisão nº 400, numa base militar próxima de Telavive. Recuso-me a servir num exército que comete, todos os dias, crimes de guerra nos territórios palestinianos ocupados.

Fui recrutada para o serviço militar obrigatório aos 18 anos, mas já no liceu eu decidira que não queria ir para a tropa. Assim que deixei a escola, e antes de me inscrever na faculdade, dei aulas a crianças pobres num bairro de judeus etíopes. Quando me chamaram, entreguei uma declaração aos oficiais onde afirmava: "Recuso alistar-me nas Forças de Defesa de Israel (IDF). Não farei parte deste exército que, desnecessariamente, pratica actos de violência e viola os mais básicos direitos humanos."

No dia 23 de Setembro, sem ter sido julgada, fui cumprir 21 dias de detenção. Fui libertada a 10 de Outubro, mas voltei para um segundo período, desta vez apenas de 14 dias, porque fiquei doente. Saí novamente em liberdade, na sexta-feira, dia 30 de Outubro. Estes ciclos irão repetir-se até que o exército se canse, porque eu não vou desistir.

Conheço pessoas que passam muito tempo reclusas. Um exemplo é Jonathan "Yoni" Ben-Artzi, sobrinho do líder da oposição, Benjamin Netanyahu. Esteve detido um total de 18 meses ao longo de oito anos. Em 2007, conseguiu que o Supremo Tribunal validasse os seus argumentos para não ser soldado (ele era completamente contra qualquer forma de luta - nem quando era miúdo aceitou aulas de judo), mas fracassou no intuito de ver reconhecido o estatuto de objector de consciência em Israel.

Neste país, as IDF são um "exército do povo", quase mitológico. Não podemos recusar-nos a servi-lo por motivos políticos. Há quem cite David Ben Gurion, o primeiro chefe de Governo, para justificar que um exército politizado não permite a sobrevivência da nação, e que quem quer ser um dissidente político deve levar as suas causas para o terreno civil.

Mas foi Ben Gurion que permitiu a isenção do serviço militar aos ultra-ortodoxos que frequentem as yeshivot ou escolas talmúdicas. É um sistema de dois pesos e duas medidas, que favorece os religiosos porque eles têm peso político.

Eu soube que seria para sempre uma refusenik depois de ter participado num protesto contra a construção ilegal do muro de separação que atravessa a Cisjordânia. Eu e outras amigas estávamos na aldeia de Ni'alim e, de repente, reparei que o inimigo não eram os palestinianos sentados ao meu lado, como sempre me disseram, mas um soldado israelita que disparou contra mim uma bala de borracha. Fiquei ferida num braço, felizmente sem gravidade, mas uma palestiniana de 17 anos foi morta. As balas de borracha matam como as munições reais.

As minhas convicções ficaram mais fortes depois da Segunda Guerra do Líbano, no Verão de 2006. Comecei a questionar a sério a ética do exército, o uso de armas não convencionais, o envio de soldados para a frente de batalha onde morriam sem objectivos definidos. Comecei a ir mais aos territórios ocupados, e vi soldados a disparar sobre civis inocentes.

Antes de ser detida, procurei apoio psicológico, todas as semanas, durante um mês. A terapia deixou-me mais calma e mais forte. Sinto que a prisão será uma experiência, para o bem ou para o mal, que me deixará mais adulta.

A última coisa que fiz antes de entrar na minha cela foi deliciar-me com um prato de hummus [pasta de grão com azeite] - a minha comida favorita. Quando me libertaram, fui para uma festa dançar e ver pessoas que me fizeram sentir bem. Perdi muitos amigos, e até familiares, por causa das minhas posições. Aqui, em Israel, todos pensam que todos devemos ser soldados.

Depois do divórcio dos meus pais, eu vivo com a minha mãe em Ramat HaSharon, localidade de gente rica, nos arredores de Telavive. Ela compreende-me, mas tem medo que me façam mal. Tenho uma irmã mais velha, de 27 anos, que já foi militar e não vive connosco. Eu gosto muito do meu pai, mas ele nunca me foi ver à prisão, ao contrário da minha mãe. Ficou escandalizado por eu ser uma refusenik. Afinal, ele era uma espécie de general. É claro que se opõe, veementemente, ao que eu faço, mas a relação afectiva pai-filha nunca foi abalada.

Também não creio que a carreira do meu pai seja prejudicada pelas minhas acções, embora eu tenha a certeza de que o meu caso está a ter mais repercussão pública por eu ser filha de Natalin Granot. Ele já se demitira em Junho de 2007. Segundo o escritor e jornalista israelita Igal Sarna, o meu pai era um operacional da Mossad que os jornais identificavam apenas como N. Subiu até chegar a adjunto do "número um", Meir Dagan, e sucessor designado. Ao contrário do que se esperava, Dagan não se reformou. Permaneceu no cargo e o meu pai preferiu demitir-se. Não havia lugar para dois "patrões" com demasiado poder.

E, para avaliar o poder do rival do meu pai, leia-se o que disse - numa sala em que a audiência explodiu de aplausos - o colunista político Emmanuel Rosen, que fez parte do painel de jurados que, em Outubro, atribuiu a Meir Dagan o prémio Man of the Year (Homem do Ano) de Israel. "Ele ganhou fama por cortar cabeças de palestinianos com uma espada japonesa. Ele nasceu com uma faca entre os dentes".Não chamem à minha atitude uma rebeldia de adolescente ou um acto de revolta por o meu pai ter saído de casa da minha mãe. É muito mais do que isso. Fui uma de 40 estudantes liceais que assinou a "Declaração 2008 dos Alunos do 12º ano" - altura em que somos recrutados pelo exército. Foi em Abril de 1970 que surgiu a primeira iniciativa, com carta enviada à primeira-ministra Golda Meir. Causou imenso furor. Já era um protesto contra a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, conquistadas na guerra de 1967. Depois disso, houve mais três declarações, embora já não haja tanta polémica.

Na prisão - uma prisão para raparigas dentro de uma prisão para rapazes -, tenho sorte porque estou com mais quatro alunas signatárias da "Declaração 2008", e duas delas são grandes amigas minhas, Tamar Katz e Mia Tamarin. É engraçado porque só enviam para aqui os "mais perigosos". Como podem classificar-nos como perigosas se somos pacifistas?

Somos 60 raparigas no total, entre os 19 e os 20 anos, divididas em dois grupos de 30 para duas celas. Dormimos em colchões no chão e, todas as noites, uma de nós tem de ficar acordada para vigiar as outras... envergando um uniforme do exército norte-americano! É engraçado, não é?

Acordamos às 5 da manhã e fazemos limpezas até à hora do pequeno-almoço. Retomamos as limpezas até à hora do almoço, e depois novamente até à hora do jantar. Na realidade, não há nada para limpar. Fingimos que limpamos - e nisto desperdiçamos imensa água, que Israel não tem - ou então pintamos umas pedras e tijolos.

Todos os que nos guardam são mulheres. Para mim, são elas as prisioneiras, e não nós. Questionam a nossa lealdade ao Estado e à religião. Gritam connosco a toda a hora e por razão nenhuma. Espezinham os nossos direitos, negando-nos o acesso a advogados. Só conseguimos, e nem sempre, alguns minutos por dia para falarmos com a família.

Há um telefone fixo, quase sempre ocupado. Não há autorização para usar telemóvel. Podemos ler os livros que trazemos, mas as cartas que nos enviam do exterior são abertas previamente e nem sempre chegam até nós. Eles, os comandantes, não querem ceder porque sabem que, se o fizerem, estão a reconhecer que estão errados.

Não somos sujeitas a tortura física, mas frequentemente conseguem quebrar-nos o espírito. Vamos dormir por volta das 22h00-23h00. Não somos nós que decidimos apagar a luz, nem quando podemos ir à casa de banho. São as guardas. Não é difícil adormecer porque quando caímos na cama estamos exaustas. Eu não tenho pesadelos. Só sonhos bonitos. Sonho que sou livre e estou a viajar pelo mundo. Quando me sinto mais triste, penso em coisas boas.

Na prisão, nenhuma de nós acredita em Deus. Usamos a nossa cabeça e o nosso coração para encontrar forças. Falamos muito umas com as outras, e escrevemos cartas umas às outras durante a noite. Algumas raparigas, ainda que objectoras de consciência, nunca viram a realidade violenta e opressiva nos territórios ocupados que eu testemunhei. Começam agora a aperceber-se da necessidade de exigir mais respeito pelos direitos humanos.

Não quero ficar na prisão muito tempo. Se me propuserem a possibilidade de serviço cívico aceitarei. Quero participar e ser solidária com a sociedade onde vivo. Se quiserem que eu seja voluntária a vida toda, sê-lo-ei.

Gostava de ir para a faculdade, talvez estudar Direito, mas o meu grande amor é a representação. Acho que vai ser muito difícil o meu futuro num país onde as pessoas são mais conhecidas pela unidade do exército a que pertenceram do que pela profissão que exercem.

Talvez dentro de dez ou 20 anos as pessoas me compreendam e deixem de pensar em termos de judeu, negro, branco, cristão... Eu não acredito que a violência se combata com a violência. Esse nunca será o meu caminho, digam o que quiserem. Ficarei muito feliz se me escreverem. A minha morada nos próximos dias é esta:
Omer GranotMilitary ID 5398532 Military Prison nº 400 Military Postal Code 02447, IDF Israel»
A partir de uma entrevista com Omer Goldman por telefone e e-mail, e notícias dos jornais The Times, The Guardian, Jerusalem Post, Ha'aretz e Al-Ahram

In Publico, 05/11/2008



Recorda-me o sonho de Isaias: «Ele julgará as nações,e dará as suas leis a muitos povos,os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados,e as suas lanças, em foices.Uma nação não levantará a espada contra outra,e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob!Caminhemos à luz do Senhor.» (Is 2,4-5). Acho que vou pôr a trabalhar o meu fraco inglês e responder a Omer; mais uma voz de força, pelo menos...
Um grande abraço

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Primeiro Dia...


Imagina-te a entrar na cabeça de um bebé acabado de nascer no seu Primeiro Dia...
Imagina que um bebé teria a capacidade de reflectir, deixar-se impressionar pelo espectáculo que lhe aparece à frente.

Não sabemos o que poderia acontecer por acaso na história daquela pessoa: seja antes, seja depois do parto, não sabemos o que poderia haver de rupturas, bloqueios, recusas de Amor. Mas, naquele dia, naquele Primeiro Dia, nada era por acaso...
E o bebé encontra uma vida nova a começar, encontra tudo já pronto para quando ele chega, encontra uma história que está antes dele e que o recebe, encontra pessoas que lhe dizem: "Bem-vindo! Bem-vindo a esta nova aventura que te está a começar. Vive! Tens uma missão à tua frente! Tudo te é dado para que possas ser feliz." Mesmo sabendo que a Humanidade ainda não consegue possibilitar a todos os seus filhos a oportunidade de desempenharem a sua missão...

Hoje, tu já tens outra capacidade para reflectires, observares e te surpreenderes com o que te rodeia que não tinhas no teu primeiro dia, esse dia tão importante que até o festejas todos os anos. Se calhar hoje, ou num destes dias, podes parar num lugar importante para ti, e observares o que rodeia: poderás observar esta natureza em que te inseres, este mundo em construção e progresso no qual caminhas, esses irmãos com quem vives... E, se calhar, podes ter hoje a mesma reacção que terias naquele primeiro dia em que contactavas com este mundo:
" Isto existe tudo para mim. Tudo isto que vejo, tudo isto que me envolve, é-me dado como possibilidade. Entro aqui, neste Cosmos e neste Tempo, o que estou aqui a fazer? Para que me são dadas tantos elementos e possibilidades? Tudo para que possa construir o meu Projecto, escrever a minha História, dar à luz a minha Vida a renascer. Tenho uma missão: hoje é, de novo, o Primeiro Dia para a realizar".

Sabemos mais ou menos, pela investigação, em que contexto foi escrito o relato de Génesis 1,1-2,4, sobre a Criação: sabemos que o povo de Israel está na Babilónia, a precisar de uma mensagem de esperança. E um autor ou comunidade escreve a proclamar que o Poder de Deus, revelado como poder libertador e criador, de Graça e Bondade, no Êxodo, é um Poder que abraça toda a Humanidade e toda a História como Projecto de Aliança.

Mas ponho-me a imaginar onde o autor terá encontrado a inspiração para um poema que canta uma beleza tão grande. E imagino-o em algum lugar ou lugares, observando o Cosmos que o rodeia, até a Natureza com todos os seus dons, a História onde se revela o melhor e o pior do ser humano, e a dizer: tudo tem sentido. Encotramo-nos aqui, eu encontro-me aqui, com a minha vida, por uma vontade livre e generosa, com sentido. E tudo, tudo me é dado e possibilitado, para que eu possa fazer acontecer esta missão de viver, de ser pessoa, imagem do Deus da Aliança. E todo o Cosmos tem este sentido, de possibilitar à Humanidade, a mim, um útero no qual possa nascer esta aventura pessoal. "No Principio, Deus criou o Céu e a Terra"... para mim, para ti, para nós.

E basta olharmos com atenção, por entre os obstáculos e cegueiras, para podermos ver, num horizonte bem próximo, o nascer do sol de um novo dia, o Sétimo que parece que é o Primeiro de uma Nova Semana, de uma Nova Humanidade, que são todos os que formam esta história, que somos nós, que sou eu. Unidos, abraçados pelo Primogénito, o Eleito, o Servo no qual todos somos cumulados de Graça. "A Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo"... (Jo 1,17).
Tudo para mim. Como quem me recebe nos braços no meu parto. Para que possa acontecer o meu nascimento, a minha história pessoal, hoje, neste dia, o Primeiro Dia.

Boa Semana!

domingo, 28 de setembro de 2008

Acreditar...

Acreditar…
Não deverá ser por acaso que encontramos tantas vezes nos Evangelhos na boca de Jesus a expressão: “A tua fé te salvou” (Mc 4, 34; 10, 52). Parece que não pede nem exige mais nada. Parece que, no sonho de Jesus de uma Nova Humanidade, a única condição para que esta aconteça é a Fé. Acreditar…

Do mesmo modo, Paulo, citando o profeta Habacuc, dirá, logo no inicio da sua carta aos Romanos: “O justo viverá da Fé” (Rom 1, 17), como que a lançar o mote do seu pensamento. O que distingue verdadeiramente o “justo” (que não é um termo de moral, como alguém que é superior aos outros, mas um termo próprio para falar dos discípulos que colocam a sua vida no sentido de Deus) é a Fé, o Acreditar… Isto mais que a pertença a um grupo ou comunidade de discípulos, ou mais que praticar as “boas obras” que nos tornam “pessoas melhores”, se calhar sempre prontas a julgar como os fariseus do Evangelho… “Sabemos que o Homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus, o Cristo” (Gal 2, 16)…

Se calhar, é por isso que podemos encontrar o género de pessoas que encontramos a seguir a Jesus: “Em verdade vos digo que as prostitutas e os colectores de impostos vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21, 31), “precedem”, no presente, não no futuro, transparecendo uma experiencia concreta e real de Jesus de Nazaré… É esta lógica que Paulo percebeu tão bem, ao falar da Graça, porque não a merecemos, mas apenas a acolhemos como Dom…

Talvez uma das dimensões mais importantes que nos constitui como Pessoas, com a dignidade e originalidade únicas que esta palavra significa, é a dimensão da Fé - Fé em alguém, fé nalguma coisa, fé em algum ideal ou projecto, não interessa - desde que seja uma força de viver bem, para o bem! Acreditar significa colocar a vida a caminho de um horizonte melhor, significa acolher essa Força de transformação (Força pessoal, amorosa, sedutora, persuasiva) que é o Espírito Santo, “Amor de Deus derramado nos nossos corações” (cf. Rom 5, 5)...

E talvez, quando Jesus fala desse tal “Reino de Deus”, “entre nós” (Lc 17, 21), Reino ao qual Paulo chama a “Nova Humanidade” (Ef 2, 15), formada pelo derrube de todos os muros de divisão, talvez estejam a pedir essa experiencia: Acreditar… Não há um mundo ideal, não há uma “terra dos sonhos” nem um outro mundo, nem um destino onde tudo está já escrito, nem um “oxalá” ou “queira Deus”… Há este mundo, esta história que, na linguagem bíblica, é a história onde acontece a Aliança, onde Deus faz uma Promessa e a cumpre, onde emerge pela força da Fé essa Humanidade, esse Homem Novo que é cada um de nós, Adam salvo e reconciliado em Cristo (Rom 5,10).

E se aquilo que de mais importante temos, aquilo que nos torna verdadeiramente Pessoas, é o Acreditar? Então percebemos porque o Homem surge, na linguagem bíblica, com uma dignidade única, impossível de reduzir a todas as leis, animais, condições sociais, obras, capacidades, etc, etc… Se calhar, porque o Homem surge, no “dizer de Deus” – tão ao gosto dos profetas – com uma capacidade tremenda de transformar, de caminhar, de construir esta Nova Humanidade com tantos nomes… E talvez essa força, na qual o Povo reconhece a presença do Deus da Graça, seja capaz de fazer acontecer essa Páscoa, da escravidão para a liberdade, na história, na comunidade, em nós…
Boa Semana!


Terra dos Sonhos - Mafalda Veiga Canta Jorge Palma


E para a Blogosfera Civil cabe-me informar que o grupo de jovens daqui do seminário já recomeçou a caminhada! Se nos quiserem acompanhar, podem visitar o nosso espaço, que já não é no blogger mas no Hi5: gjovens.hi5.com Penso que sairão novidades lá nos próximos tempos!