quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Gen 1,1 – 2,4a: a Criação pertence a uma história de Aliança

O texto de Gen 1,1-2,4a é propriamente a única Cosmogonia em toda a Biblia, o único texto que se dedica explicitamente à Criação do Cosmos, dos elementos naturais. O outro texto sobre a Criação (2,4b-3,24a), mais antigo, centra-se já na criação do Homem e na origem do mal. Ambos os textos foram elaborados em épocas diferentes, a partir de fontes diversas e, como já adiantamos, não está na sua intenção nem no seu género literário darem uma resposta científica à origem do Cosmos, senão unir a Criação, o Universo e toda a Humanidade à história de Aliança que Deus constroi com Israel.

O nosso primeiro texto terá sido elaborado nos circulos sacerdotais em Jerusalém por volta do exílio na Babilónia – séc. VI a. C. – ao mesmo tempo que os textos proféticos de Jeremias, Ezequiel e, sobretudo, o segundo Isaias (cap. 40 a 55). Este dado é muito importante para compreendermos o que está por debaixo do nosso texto. No exílio na Babilónia, Israel encontra-se dominado pela cultura e crenças babilónicas, contrárias à sua fé. Aqui, havia já alguns textos (como o Enuma Elis) sobre a criação do Cosmos e, segundo estes, a origem do mundo resultava essencialmente de confrontos entre as diversas divindades que, por azar, resultava nos diversos elementos entre os quais o Homem (formados a partir da morte dos deuses derrotados). Ou então, na origem estava o Caos, uma realidade absurda e sem sentido que os deuses procuravam ordenar. Dois princípios, portanto, que a fé bíblica rejeita: a criação que resulta de um azar do mundo divino, e a criação que resulta de um caos anterior, também ele negativo. Concepções pessimistas, idolátricas, sem-sentido. Tudo acontece por acaso, sem-querer e sem-finalidade.

Já vimos que, para a fé bíblica, a história tem um sentido, resulta de um dom gratuito e libertador de Deus, vai-se escrevendo em Aliança, e tem como horizonte uma Salvação que Deus promete. É assim que Israel vê a sua história, desde a Promessa a Abraão, a libertação do Egipto, a Aliança do Sinai, a Terra Prometida na qual Israel será o Povo da Aliança e da Justiça de Deus. Para defender a fé dos seus irmaos, o autor vai responder às crenças babilónicas: vai unir a própria criação do Universo e do Homem à história da Aliança. Se na experiencia original de Israel está a Bondade e a Graça de Deus, como a base de uma casa, então do nosso texto só pode sair uma Boa-Noticia libertadora!

Possivelmente o autor assume elementos das crenças populares sobre a Criação, o começo de trevas e caos (v.2), Deus a separar entre o dia e a noite (v.4), a separar as águas (v.7) a presença dos astros (v.16) com poder sobre os dias – popularmente os astros eram divinizados, com uma grande influencia da astrologia, tal como o poder das águas como depósito de monstros marinhos. No entanto, o autor vai inserir estes elementos num esquema que destrua as idolatrias, subordinando-os ao poder do Deus da Aliança. Já houve quem chamasse ao nosso texto de "propaganda ateia” e “caça aos mitos”!

A primeira frase do texto (que normalmente, nos textos biblicos, serve também de título), dá logo o mote para a posição do autor: “No princípio Deus criou o céu e a terra” (v.1). O “princípio”, o mesmo pelo qual João iniciará o seu Evangelho, proclama que, na origem da aventura cósmica e humana, não está o caos sem sentido, não estão as lutas das divindades, mas está Deus, o Deus da Promessa, o Deus da Aliança. “No princípio” significa que a Criação é inserida, é “convidada” a pertencer a uma História de Salvação que Deus está a construir com Israel. Esta história de Eleição começa “no princípio”, ou seja, abraça toda a realidade cósmica e humana, dando-lhe o sentido de um Projecto. O Cosmos, o mundo no qual o Homem se insere e emerge unido, não tem uma origem caótica ou causal nem serve para o oprimir, senão que está ao serviço da sua aventura de humanização porque nasce também da Ternura amorosa de Deus!

O verbo criar, bara, é um verbo técnico na Bíblia, como já vimos. Só tem a Deus por sujeito, nunca o Homem, e na origem da sua utilização está a eleição de Israel, a sua libertação, que é vista como uma geração, o nascimento de um Povo que, sem a iniciativa da Graça de Deus nunca existiria. O verbo bara aproxima-se da noção de criar, de ser a origem da vida, e distingue-se dos verbos fazer, moldar, preparar ou fabricar. Assim, mais que modelador ou fabricante do Universo, Deus é o seu Criador: o Universo, esta aventura, tem como origem uma Vontade livre, amorosa, Vontade que continua a construir uma História. Vemos que não é uma noção física ou metafísica, mas teologal.

Outra originalidade do texto é a expressão “Deus disse” que está no princípio de cada obra, seja ela de separar, modelar ou fazer. “No princípio era a Palavra”… a Palavra que Deus pronuncia, que para Israel está na origem da sua história como Povo, a Palavra pela qual Deus se revela, elege, escreve uma história. No princípio, na origem da Criação está o diálogo, a “doçura” da Palavra pela qual Deus se dirige à sua Criação, sem luta, sem esforço, sem constrangimentos. Deus não fabrica a Criação nem a “expele”: dialoga com ela. E a Criação é o princípio de um diálogo, de uma Aliança de Deus com a Humanidade, de uma história salvífica.

Por fim, tudo é Bom. Sempre. Aqui no texto não há o “mas” do pecado e do mal, ou então ele já está assumido – será questão para o segundo texto de Gen 2,4b-3,24. Não, aqui cantamos a Criação, que é obra de Deus, a Graça de Deus, à qual a Criação pertence. Tudo é bom. No princípio da experiencia religiosa de Israel não está a luta contra as divindades, a concorrencia pelo poder – está a Graça, a Bondade que elege, a Palavra que salva. Israel partilha com toda a Criação a experiencia maravilhosa do seu encontro com Deus. Só pode ser bom, só pode ser fruto da esperança e da gratidão, porque Deus, é bom, livre, soberano. E a Criação, a História, pertence à sua Vontade, à sua Palavra: só pode ser um Projecto com sentido. Não há separação entre o material e o espiritual, o histórico e o transcendente: este é o mundo no qual Deus se revela, o Outro, o Livre, mas o Próximo.

Portanto, vemos que o autor configura a Criação segundo o princípal símbolo da Aliança, para o Israel do séc. VI no exílio: a Semana, o Sábado. A Criação tem como plenitude a Aliança de Deus, pertence à História da Salvação que Deus escreve com Israel e a Humanidade. Vemos que é um Projecto cheio de sentido, um Projecto que se une ao jeito de ser que Deus revela: jeito de Aliança, jeito de Salvação. No Princípio, era a Aliança, era o Amor.
Esta lógica da subordinação do Cosmos ao Projecto de Aliança de Deus percorre toda a Biblia, desde a abertura das águas para a passagem no Mar Vermelho de Moisés e do Pvo (Ex 14, 21) até às manifestações do poder de Jesus sobre os elementos, proclamado pelos Evangelhos como emergencia do Reino de Deus, do seu Poder Salvífico sobre todos os elementos (Mc 1, 13; Mt 8, 24; 14, 25).
um grande abraço!

1 comentário:

anawîm disse...

Olá Rui Pedro!...

Eh lá, que isto também está bonito por aqui... ehehe...
Gostei do novo visual!

Também me vou pôr a caminho por aqui.

um abraço