sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Crisma 5. Formar Igreja


Em primeiro lugar, convém-nos esclarecer uma coisa: espero que tenhas ultrapassado aquela noção de Igreja como “um edifício onde se vai de vez em quando”. Se nós os dois estamos unidos no que nos é comum, isto é, se estamos unidos no Espírito Santo, então formamos comum-unidade. A Igreja é a comunhão de todos os baptizados no Espírito. É o conjunto das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo. Formam Igreja aqueles que, todos os dias, confirmam o seu Baptismo.

A Igreja nasce a partir do dom do Espírito e da experiência pascal dos Apóstolos. Estes começam a anunciar as “maravilhas de Deus” (Act 2, 11) realizadas em Cristo. Da pregação de Pedro (Act 2, 14-36), resultam inúmeras conversões e baptismos “em nome de Jesus” (Act 2, 37-38). Estes irão formar a Igreja de Jerusalém que, sob a acção do Espírito Santo, começará a evangelizar a Judeia, apesar de as mesmas autoridades judaicas que mataram Jesus os prenderem e mandarem açoitar; proíbem-nos de “falar no nome de Jesus” (Act 5, 40). Depois será a vez dos pagãos se converterem, sob a acção do Espírito Santo principalmente através de Paulo. E a Igreja, no fim do Livro dos Actos dos Apóstolos, está em Roma, capital do Império.
Lucas, o seu autor, apresenta o modelo ideal de Igreja:

«Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os Apóstolos realizavam. Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam as suas propriedades e os seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E todos os dias o Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação» [Act 2, 42-47].

Não uma situação real, mas um modelo ideal que devemos perseguir e construir. É da escuta da Palavra, da Boa-Nova de Jesus que nasce a Igreja, na medida em que todos os que se abrem ao Espírito se deixam guiar por Ele. A Igreja é aquela parcela da Humanidade em que o Espírito desenvolve a Sua acção revelacional. Não por ser formada por seres predestinados ou sobredotados, mas por terem encontrado mediações na sua vida que lhes apresentaram o Evangelho de Cristo e por se terem aberto à novidade que o Espírito ecoa. Deus, tenho a certeza disso, porque é Amor, anseia ser conhecido por todo o mundo. Mas precisa de mediações, de pessoas que o anunciem!

É esta a missão da Igreja, e é esta a missão que assume quem confirma o seu Baptismo no Espírito. Se, no meio de todas as suas imperfeições (pois é um ser em construção), procurar viver uma Vida Teologal, pela realização pessoal que sem dúvida alcançará já será testemunha. E se a Igreja se construir em comunidades vivas onde se escute e partilhe a Palavra, onde se trate Deus por Tu na oração, e onde se festeje, celebre a alegria de conhecer e experimentar o Projecto de Deus, será Sua mediação para o mundo.

Muito pessoalmente, digo-te; a primeira missão daquele que confirma o seu Baptismo no Espírito é procurar a sua felicidade e realizar-se como pessoa, em relações de amor. Está chamado (vocacionado) a ser no mundo uma pessoa única, original e irrepetível, amada e amante, realizada e possibilitadora de realização para os outros. É esse o primeiro apelo que Deus lhe faz. O melhor de tudo é que conhecemos os segredos para sermos felizes! Em Jesus de Nazaré, o Ungido, revela-se o melhor de Deus e o melhor do Homem, o que este está chamado a ser. E, de modo particular em cada um de nós. Anuncia-o com todas as tuas forças.

E sê Igreja, vive com horizontes de fé, esperança e amor novos e plenos. Deixa que o Espírito Santo te consagre, para colocares o melhor de ti, os teus dons, ao serviço dos outros e da comunidade. A Igreja vive na lógica da partilha, do que somos e do que temos, para nos enriquecermos mutuamente. E o melhor é que Deus plenifica a nossa partilha. O todo é maior do que a soma das partes. Por isso o Crisma é o “sacramento da Igreja”. A Igreja é formada por todos aqueles que, todos os dias, confirmam o seu Baptismo no Espírito. De modo particular, num dia especial em que, em comunidade, recebem as mãos e o óleo que simbolizam o dom de Cristo: o Espírito Santo.

«Eu não Te peço só por estes, mas também por
aqueles que vão acreditar em Mim por causa da sua palavra,
para que todos sejam um,
como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti.
E para que também eles estejam em Nós,
a fim de que o mundo acredite que Tu Me enviaste.
Eu mesmo lhes dei a glória que Tu Me deste,
para que eles sejam um, como Nós somos um.
Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade
e para que o mundo reconheça que Tu Me enviaste
e que os amaste, como Me amaste a Mim.

Pai, aqueles que Tu Me deste, quero que eles estejam comigo,
onde Eu estiver, para que eles contemplem a glória que Me deste,
pois Me amaste antes da criação do mundo.
Pai justo, o mundo não Te reconheceu, mas Eu reconheci-Te.
Estes também reconheceram que Me enviaste.
Tornei-lhes conhecido o teu Nome.
E continuarei a torná-lo conhecido,
para que o amor com que Me amaste esteja neles
e Eu mesmo esteja neles».

[Jo 17, 20-26]
um grande abraço e bom Crisma!

1 comentário:

Mila disse...

Muito obrigada Rui Pedro!!!

Não imaginas, o que eu já aprendi contigo nesta tua partilha.

Sabes, fiz este Sacramento, há 19 anos e não fazia a mínima ideia do que significava.

Desejo do fundo do coração, que o meu filho, de alguma maneira saiba aproveitar o previlégio que tem, em ter a sorte de encontrar mediações tão ricas na vida dele durante a sua caminhada de Fé até aqui.

Um GRANDE abraço de Gratidão e Fraterno para ti!