quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Rosto do Reino, Centro da Comunidade

«Pai
Seja santificado o teu Nome,
venha o teu Reino.
Dá-nos o nosso pão de cada dia
perdoa-nos as nossas ofensas
como também nós perdoamos aos que nos ofendem;
e não nos deixes cair na tentação»
Lc 11,2-4

5 petições que formam o esqueleto de uma oração. Mateus acrescentará 2. Marcos, Paulo e João não dão pelo menos testemunho de ter recebido este tesouro da boca e mãos do Senhor. Contudo, desde as suas origens que a Tradição da Igreja reconhece esta oração, chamada de Pai-Nosso, como recebida do próprio Jesus, ainda que por tradições diversas e versões diferentes. Porque não é a letra que interessa.

Se Jesus sonha em inaugurar um Reino, o Reino de Deus, e se Jesus reúne de facto discípulos e enviados em nome deste Reino, então o Pai-Nosso está no centro desta Comunidade de irmãos e irmãs, Família dos que fazem a Vontade de Deus (Mc 3,35), dos que escutam o Ensinamento (Mc 4,2), dos que partilham o Pão e o Peixe «até que todos fiquem saciados» (Mc 6,42). Jesus anuncia o Reino, e configura o seu Rosto, o Rosto deste Reino: o Pai-Nosso.

Dois tons de linguagem, que se reconhecem imediatamente à medida que saem da boca: o Teu e o Nosso. No meio, está o Pão. A oração do discípulo começa de modo coerente com a vida de Jesus: está a chegar, está a dar-se um Acontecimento, uma Acção, que não é nossa, que não é conquista ou mérito nosso, que não estava programada; uma Presença Livre, Soberana, Criadora. De Amor. O Reino. Este Reino é sempre como Princípio um Dom de Deus, uma Acção de Deus, uma Presença de Deus: a primeira atitude é a de reconhecer, saborear, descobrir esta Presença, este Amor Pessoal, este Nome, este Reino, esta Vontade. É o tempo de proclamar a Boa-Noticia:

… Bem-Aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus… (Lc 6,20)
… Filho, os teus pecados estão perdoados… (Mc 2,5)
... Se eu expulso os demónios pelo Dedo de Deus, então o Reino de Deus chegou até vós… (Lc 11,20)

A partir daqui, do reconhecimento desta Presença e desta Vontade Salvadora, nasce a entrega por um Projecto. Quem recebe esta Oração são os Discípulos, sonhados por Jesus para serem intrumento e sinal deste Reino a acontecer. Discípulos que formaram comunidades cujo centro:

… é o Pão partilhado e recebido como Dom, como no deserto do Êxodo…
… o Perdão fraterno que nasce destes Tempos Novos em que Deus renovou a sua Aliança…
… a Libertação do Mal como dinâmica de cura, solidariedade, proximidade…

Acolhimento e Sintonia com o Amor presente e salvador do Abbá, e entrega da própria vida neste Amor, que se torna um Reino de Pão, Perdão e Libertação. A Oração do Reino. Que está no centro da Comunidade dos Discípulos. Um tesouro que recebemos das mãos e da boca de Jesus. Que ajude a configurar a vida dos discípulos, a nossa vida, segundo este Reino.
um grande abraço!

2 comentários:

Calmeiro Matias disse...

Parabéns Rui Pedro!
O Pai-Nosso não é uma fórmula para se repetir como se repete a tabuada.
O Pai-Nosso é uma proposta de diálogo com Deus,a fim de aprendermos a comunicar e comungar com ele ao jeito de Cristo.
Obrigado e um abraço
Calmeiro Matias

figlo disse...

Quantas vezes eu já disse "Pai nosso" e pedi "o Pão nosso" estando simplesmente a dizer "Pai meu" e pedindo "o Pão só para mim"...
Rezar "Pai nosso" é coisa de irmãos...e coisa de comunidades em que a Vida e o Pão se partilham...
Rezar "Pai nosso" é coisa de irmãos que aceitam e querem revolucionar as suas vidas e os seus comportamentos e, se dispõem a saborear cada vez melhor a dimensão verdadeira de cada gesto virado para fora de si próprios...
É coisa de gente que, quando se senta à Mesa não deixou para trás, pendentes, palavras por dar, água por repartir, perdão por receber...
Rezar "Pai nosso" é para vidas que na Confiança "ex-istem" (vivem para fora de si) e assim se vão "com-figurando" ao Reino, "pre-figurando" o Reino e desse Reino sendo testemunhas...
Dificilmente alguém acredita em "mestres" que não testemunhem...
Um abraço.