domingo, 8 de março de 2009

um Alimento para o Caminho...


«1Depois disto, Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia, ou de Tiberíades. 2Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais miraculosos que realizava em favor dos doentes. 3Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos. 4Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus. 5Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» 6Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer.

Filipe respondeu-lhe: 7«Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.» 8Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9«Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» 10Jesus disse: «Fazei sentar as pessoas.» Ora, havia muita erva no local. Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil.

11Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. 12Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca». 13Recolheram-nos, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer. 14Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» 15Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte.»

(João 6,1-15)

O Povo, a Multidão que caminha, segue e atravessa guiado por Jesus sofre a falta de Pão. Como não escutar o murmúrio do Povo no deserto contra Moisés: «Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor na terra do Egipto, quando estávamos descansados junto da panela de carne, quando comíamos com fartura! Mas vós fizestes-nos sair para este deserto para fazer morrer de fome toda esta assembleia!» (Exodo 16,3).
O Povo, a Multidão que sai das suas instalações e escravidões para se pôr a caminho começa a sentir a falta das suas seguranças: do seu pão. Apenas confiados numa Promessa de Deus, uma Promessa de Libertação, guiados pelos sinais de Moisés no Egipto (como os de Jesus), começam a ter a tentação de olhar para trás, e não caminhar. Como a mulher de Lot ao fugir de Sodoma: «Escapa-te, se quiseres conservar a tua vida. Não olhes para trás nem te detenhas em parte alguma do vale. A mulher de Lot olhou para trás e ficou transformada numa estátua de sal.» (Génesis 19,17.26).

Aqui não é a multidão que murmura: são os discípulos, os próprios discípulos que estão no monte junto de Jesus. São eles que murmuram: «Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho» «Mas que é isso para tanta gente?». Estão em sintonia de onda com o discurso da multidão. Apressam-se a dar as respostas: não a escutam nem a esperam de Jesus. Querem alimentar o Povo no Caminho com o mesmo alimento que teriam no «Egipto»: à força de denários. Ainda não perceberam que com Jesus inaugura-se o Reino sonhado por Isaias:

«Atenção! Todos vós que tendes sede, vinde beber desta água. Mesmo os que não tendes dinheiro, vinde, comprai trigo para comer sem pagar nada. Levai vinho e leite, que é de graça. Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta? E o vosso salário naquilo que não pode saciar-vos? Se me escutardes, havereis de comer do melhor, e saborear pratos deliciosos. Prestai-me atenção e vinde a mim. Escutai-me e vivereis. Farei convosco uma Aliança Eterna.» (Isaias 55,1-3)

Ainda não perceberam que, se vão a Caminho com Jesus, será de Jesus que virá o alimento. Como o veio de Deus no Êxodo. E o alimento deste Povo a Caminho, deste Povo que atravessa as águas do Mar (Êxodo 14,21; João 6,19: «avistaram Jesus que se aproximava do barco, caminhando sobre o Mar, e tiveram medo. Mas Ele disse-lhes: «Sou Eu, não tenhais medo!») esse Alimento não é de denários, nem é de dinheiro.

Aproxima-se a Páscoa. Estamos na Páscoa. Estamos a vê-la, sentada ali, no Monte, e nós alimentados por Ele, Ele que é a nossa Páscoa como diz Paulo (1Cor 5,7). À ordem de Jesus o Povo, uma multidão sem conta, exagerada como todo o Dom, senta-se num lugar com muita erva: para um Povo a caminhar no deserto, o sentar-se na erva assemelha-se a um quadro de prosperidade, de beleza, de conforto… de Terra Prometida. A tal terra sonhada por Isaías, onde o Alimento, o Pão é distribuído, repartido, e todos se saciam, e sobra. Sobra sempre. Doze cestos; Doze tribos; Doze portas, como a Nova Jerusalém sonhada pelo Apocalipse que não é construída à força dos denários: é Dom de Deus; vem de Deus:

«E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo. E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: «Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram…» (Apocalipse 21,2-4)

Um texto fortemente simbólico, onde somos lá colocados. A chamada tradição da “multiplicação dos pães” aparece em nada menos que 6 versões nos Evangelhos (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,34-44; 8,1-9; Lc 9,10-17), prova que era uma tradição muito forte nas primeiras comunidades dos cristãos onde os textos nasceram. Testemunharão uma experiencia, um acontecimento ou linguagem para expressar uma marca da passagem e acção de Jesus. Terá o anúncio do Reino obtido uma imagem, um quadro visível, claro na partilha, na refeição, na comunhão? Quando Jesus anuncia o Reino, convida os que o escutam a aderirem a uma Acção, uma Presença de Deus que está a acontecer: um Deus que convoca para o Partilha e o Dom, onde o Pão já não é questão de denários. E neste Caminho, onde todos estamos, ricos e pobre, o caminho da Partilha, já não haveria os famintos: seriam bem-aventurados (Lc 6,21).

As Comunidades recebem nas mãos o tesouro desta Tradição e testemunham-na. Ela é para nós. Ela ganha novos sabores e dimensões: a Comunidade agora celebra a Ceia do Senhor: «tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os». Proclama-o como o novo Moisés, o Profeta que Moisés prometera: «O Senhor, teu Deus, suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deves escutar» (Deuteronómio 18,15).
Coloca os seus 5 pães e 2 peixes para que, consagrados pelo Senhor, como um Carisma, se tornem Serviço e Alimento. E reconhece que o seu Caminho, muitas vezes entre o Mar e o Vento encrespados, muitas vezes a olhar para as carnes e os denários do Egipto, esse Caminho de Libertação, de Seguimento, tem o seu próprio Alimento: «Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim. Este é o Pão que desceu do Céu» (João 6,57). É um Alimento de Comunhão.

Ajuda-nos como os teus Discípulos, Senhor,
No nosso Caminho. Tu que és o nosso Caminho (Jo 14,6),
Tu que nos abres os olhos ao Partir o Pão, no Caminho (Lc 24,31)…

Alimenta-nos, ó Ressuscitado, alimenta-nos
No nosso caminho, nos teus passos, na tua Palavra.
Perdoa-nos os muitos alimentos, seguranças, denários
Que procuramos às nossas custas e por nossa iniciativa,
Distraindo-nos enquanto falas da tua Água Viva (Jo 4,8)…

És o Senhor absoluto, Tu que me conheces,
Tu que sabes bem as pobres soluções que tenho para dar,
Como és Tu que consagras, dás graças e distribuis
Todos os nossos pães que, por si, sozinhos
Não alimentam ninguém…

És Tu, Senhor, Senhor do meu Caminho,
Senhor dos teus Discípulos,
És Tu, Jesus de Nazaré, o Anfitrião deste Banquete
De Partilha, de Fraternidade, de Serviço.
Um Banquete inaugurado pelo Pai,
Um Banquete que é do Pai, da sua Vontade,
Para os seus Filhos.

Obrigado, Mestre, por este Alimento.
Põe-me a Caminho. Contigo. Em Ti.
A Caminho da Páscoa. Que és Tu.
A minha Páscoa…
uma Boa Semana!

1 comentário:

calmeiro matias disse...

Parabéns muito obrigado por esta mensagem com sabor a pão pascal.
Obrigado por esta força para o caminho que nos conduz a Cristo ressuscitado!
Calmeiro Matias