domingo, 15 de novembro de 2009

Sacramentos

. O Livro dos Actos dos Apóstolos, de Lucas, narra a história dos primeiros discípulos após a Experiência Pascal, em como a Notícia da Ressurreição chega através deles desde o centro do judaísmo, Jerusalém, até ao centro do império, Roma. Concentra-se sobretudo em duas personagens, Pedro e Paulo, e apresenta esse anúncio como um Projecto de Deus que se está a realizar pela força do Espírito Santo. É Deus quem projecta que o anúncio do Ressuscitado chegue a todas as populações: «Recebereis a Força, o Espírito Santo que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até aos confins do mundo» (Act 1,8).

. O Livro dá-nos a entender que a actividade fundamental da Igreja é o anúncio da Boa-Notícia da Ressurreição: «Quanto a nós, anunciamos-vos a Boa-Notícia: a Promessa feita a nossos pais foi cumprida por Deus aos seus filhos, ressuscitando Jesus como está escrito no salmo 2: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei» (Act 13,3-33). No entanto, vamos descobrindo por debaixo ou por dentro do texto que este Anúncio não é apenas um discurso, um conjunto de palavras. A Igreja anuncia a Ressurreição celebrando-a! O Anúncio ultrapassa as palavras, significa todo um Programa de Vida que se torna ele mesmo o Anúncio:

«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos,
à união fraterna, à fracção do pão e às orações.
Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos,
o temor dominava todos os espíritos.
Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum.
Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos,
de acordo com as necessidades de cada um.
Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo,
partiam o pão em suas casas
e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração.
Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo.
E o Senhor aumentava, todos os dias,
o número dos que tinham entrado no caminho da salvação» (Act 2,42-47).

. Aquele que se torna o verdadeiro Anúncio ou Testemunho dos discípulos é o facto destes se reunirem para celebrar a Verdade desta Ressurreição, a certeza da Presença do mesmo Jesus ressuscitado como Filho por Deus-Pai. Celebram utilizando gestos, palavras, movimentos com uma linguagem mais simbólica que verbal, uma linguagem que encontra neles todo o sentido e por isso não exige explicações. O Novo Testamento deixa-nos sobretudo dois: a Fracção do Pão e o Baptismo.

. É sobretudo Paulo quem nos apresenta estas celebrações que eram frequentes na Igreja dos discípulos, mais que o próprio Livro dos Actos. E não deixa de ser curioso que não encontramos no Novo Testamento esquemas ou programas pormenorizados para celebrar, o que significa que estas celebrações não eram execuções rituais às quais era preciso continuar porque vinham de trás, mesmo que não as entendessem. A celebração da Fé na Boa-Notícia surgirá entre as comunidades como algo bem reflectido e aprofundado que se torna natural. É natural celebrar a Fracção do Pão ou Eucaristia porque o Senhor o deixou como memorial, um memorial que adquire novo sentido na nova Páscoa de Salvação inaugurada na Ressurreição:

«Com efeito, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti:
o Senhor Jesus na noite em que era entregue,
tomou pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse:
«Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim».
Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse:
«Este cálice é a nova Aliança no meu sangue;
fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim.»
Porque, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice,
anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha» (1Cor 11,23-26)

Do mesmo modo, o Baptismo, rito um pouco comum no mundo judaico (João Baptista é o melhor exemplo) é assumido e utilizado pelos discípulos para celebrar e proclamar a Vida Nova que o Ressuscitado inaugura para toda a Humanidade.
«Se alguém está em Cristo, é uma nova criação.
O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas.
Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo
e nos confiou o ministério da reconciliação» (2Cor 5,17-18)

Toda a linguagem simbólica e celebrativa torna-se o centro do interior das comunidades, e é isso que se torna verdadeiramente um Testemunho. É a partir do Sentido encontrado em gestos e palavras que a comunidade entra na Boa-Notícia do Ressuscitado e é levada a construir a fraternidade e o anúncio. É aqui que nascem o que hoje chamamos de Sacramentos. Não são rituais religiosos que repetimos porque assim somos obrigados, mesmo sem os entender, ou para ganhar o tal estatuto de “praticante”. São a linguagem simbólica, de celebração, pela qual entramos neste Mistério, nesta Boa-Notícia que nos ultrapassa, e, a uma dada altura, as palavras, depois de proclamadas, já não são suficientes.
um grande abraço!

2 comentários:

calmeiro matias disse...

Olá Rui Pedro!
Obrigado por teres voltado. É bom ver esse teu jeito de tomar as coisas da fé a sério.
Os sacramentos são celebrações comunitárias da Fé e, como tal, são espaços priveligiados para o Espírito Santo actuas nas pessoas da comunidade que celebra.
Um abraço
Calmeiro Matias

anareis disse...
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