sábado, 31 de outubro de 2009

Santidade...


. Sabemos como o tema da Esperança pode cair, muitas vezes, numa falsa consolação que nos retira ou desmotiva a assumir, diante de experiencias de sofrimento e opressão, uma atitude criativa e libertadora. O tema do Céu e da Bem-Aventurança tornava-se numa coisa de "outro mundo", um mundo que existe num outro lugar, e que leva a pensar que as nossas experiencias na história, na "carne" não são verdadeiras. Muitas vezes também o tema da santidade e os exemplos dos santos eram utilizados neste sentido, incutindo a resignação e a submissão.
. Um bom retrato desta situação é o que nos apresenta Sophia de Mello B. Andresen, num conto chamado "O Jantar do Bispo":
«O Dono da Casa tinha um pedido a fazer ao Bispo. Fora mesmo por isso que o convidara para jantar. E era por isso que, enquanto o esperava, ele meditava e preparava os argumentos da sua razão.
De facto, ali, naquelas terras de sossego, naqueles dominios submissos onde ele e seu pai e seus avós tinham exercido uma autoridade indiscutida, ali onde antes sempre reinara a ordem, tinha surgido agora uma semente de guerra.
Esta semente de guerra era o padre novo, um jovem padre de sotaina rota e cabelo ao vento, pároco de Varzim, pequena aldeia miserável onde moravam os cavadores da vinha. Havia muito tempo que Varzim era pobre e sempre cada vez mais pobre, e havia muito tempo que os párocos de Varzim aceitavam com paciencia, sempre com mais paciencia, a pobreza dos seus paroquianos.
Mas este novo padre falava duma justiça que não era a justiça do Dono da Casa. E parecia ao Dono da Casa que, dia após dia, semana após semana, mês após mês, a sua presença ia crescendo como uma acusação que o acusava, como um dedo que apontava, como uma espada de fogo que o tocava. E ali na sua casa cujos donos tinham sido de geração em geração símbolo de honra, virtude, ordem e justiça, parecia-lhe agora que cada gesto do Padre de Varzim o chamava a julgamento para responder pelos tuberculosos cuspindo sangue, pelos velhos sem sustento, pelas crianças raquíticas, pelos loucos, os cegos e os coxos pedindo esmola nas estradas. (...)
Mas o pior de tudo era a missa de domingo. Sempre o Dono da Casa ouvira distraido em Varzim os sermões de domingo. Eram sermões que falavam de paciência, resignação e esperança num mundo melhor. Sermões que não lhe diziam respeito. De certa forma, para ele nenhum mundo podia ser melhor, e desejava por isso ir para o Céu o mais tarde possível. De maneira que, enquanto os pregadores falavam, tudo o distraía. Distraía-o a pintura do tecto, distraía-o a criança que chorava. Daí passava para a lembrança do sulfato ou da vindima ou da venda do vinho. Pensava nos seus negócios.
Mas agora já não se podia distrair. Agora o padre novo falava da caridade. E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem.»
. É importante vermos como a Santidade, na Bíblia, não é entendida em termos de heroísmo individual, de heróis que se tornam exemplo segundo as histórias e caricaturas que deles se formam. A Santidade pertence a todo o Povo em virtude da Salvação que Deus neles realiza: os santos são os eleitos que experimentam na sua história a Salvação de Deus.É a partir do Êxodo que Israel se reconhece como um Povo de Santos, de homens e mulheres livres e chamados a viver a Aliança com Deus:
«Vós vistes o que Eu fiz ao Egipto, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até mim. E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Ex 19,4-6).
. É a partir desta linguagem que o livro do Apocalipse fala dos "marcados" que, tal como no Egipto, também agora são salvos pelo Sangue do Cordeiro. De novo não temos heróis individuais, mas um Povo que nasce e se reúne a partir da Salvação realizada por Deus, agora já não o êxodo do Egipto mas a Ressurreição de Jesus. Por isso já não é apenas um povo segundo uma raça e lingua, mas "uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e linguas" (Apc 7,9). Na base está a descoberta que a Ressurreição de Jesus gera um Povo, uma Família, uma Nova Humanidade que está a nascer, que é unida e re-unida nessa Páscoa, que se descobrem vencedores, "de pé diante do Trono e na presença do Cordeiro".
. É esta Nova Humanidade, este novo e pleno Êxodo, de quem as Bem-Aventuranças são o Programa. Tal como os chamados Dez Mandamentos pretendiam ser o programa de um Povo que vivia segundo a Aliança de Deus, agora as Bem-Aventuranças são o grito de um Mundo Novo onde no centro estão os pobres, os que choram, os perseguidos. São esses os reunidos por Deus neste novo Êxodo, são esses que estão no centro de um Reino a acontecer à medida que caminhamos com o Homem de Nazaré pelas páginas do Evangelho. São esses os Santos que Deus reúne e salva, enquanto o mundo exclui.
. Estamos longe de heróis individuais de santidade, em virtudes e ascese. Estamos longe de uma esperança num "outro mundo" que torna a História falsa ou, pelo menos, um teatro. Encontramos um Reino no qual é Deus quem nos santifica, e uma Páscoa na qual estamos a nascer. Um Reino e uma Páscoa que nos reúne com um Programa, um Mandamento Novo. É Bom acreditar neste Projecto.
Um grande abraço e boa Festa de Todos os Santos!

3 comentários:

calmeiro matias disse...

Obrigado, Rui Pedro:
O amor nãos são tretas e o Evangelho não aliena.
Gostei!
Um abraço
Calmeiro Matias

David, Rita e Marco JR disse...

Querido amigo!

A nossa partilha no final da celebração do passado sábado viajou por aqui...

É realmente redutor demais falarmos da Festa da Salvação como conquista ou mérito individual, quando proclamamos em Jesus, o Cristo, o Evangelho de que Deus é comunidade, família e claro Santo...

Muito obrigado pela partilha.

Abraços e Beijinhos (um especial do David)

figlo disse...

Rui Pedro, Santos são mesmo aqueles que de muitos modos re reconhecem criados à imagem de um Deus que, esse sim é SANTO! Nele encontram força, colo, capacidade de Amar e de se entregarem sem reservas na procura de Justiça para TODOS , de Pão para TODOS, de vida feliz para todos!Santos são aqueles que não se vendem para TER...mas os que se gastam para SER em função do Amor que faz acontecer Reino de Deus aqui e agora, incipiente, mas, real...E, já agora, os "nossos" Santos têm lugar no "altar do nosso coração" onde cabem todos aqueles que amamos,mesmo que muitos. E...não se atropelam uns aos outros!
Não imaginas o sabor que teve para nós, este ano, "a Festa de Todos os Santos"!
Um abraço de nós dois