Naturalmente, se me pedissem para narrar com umas palavras minhas a História de Deus connosco, História de Ternura e Salvação, o ponto de partida lógico seria o próprio Mistério de Deus. De facto, o Cosmos, a Humanidade, a aventura de Israel, o acontecimento de Jesus como pessoa, tudo nasce e brota de um Mistério Familiar que é desde o princípio, eterno, maior… Antes de existirem as estrelas e os planetas, já havia uma Família de Amor…terça-feira, 8 de setembro de 2009
IV. Na Páscoa, um Diálogo Familar, para nós...
Naturalmente, se me pedissem para narrar com umas palavras minhas a História de Deus connosco, História de Ternura e Salvação, o ponto de partida lógico seria o próprio Mistério de Deus. De facto, o Cosmos, a Humanidade, a aventura de Israel, o acontecimento de Jesus como pessoa, tudo nasce e brota de um Mistério Familiar que é desde o princípio, eterno, maior… Antes de existirem as estrelas e os planetas, já havia uma Família de Amor…segunda-feira, 31 de agosto de 2009
III. A Páscoa, mistério de Abertura...
A presença do Espírito Santo significa imediatamente que a Ressurreição de Jesus não é um acontecimento fechado; aliás, é todo o contrário, é o Acontecimento, a Hora da plena abertura, entrega e comunhão de Vida!Já na sua história a vida de Jesus, o Ungido, consagrado, conduzido pelo Espírito de Deus é uma vida de entrega, doacção e serviço: «Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos» (Mc 10,45).
À luz da história, dos factos, a morte de Jesus resulta do processo desencadeado pelas autoridades judaica e romana; mas ao nível mais profundo e pessoal, é Jesus quem confere o Sentido à sua própria morte, como a Hora da entrega plena e filial nas mãos do Pai (Lc 23, 46), que coincide exactamente como uma vida entregue pelos irmãos, imediatamente.
É de facto esse o sentido máximo que encontremos na derradeira Ceia de Jesus com os discípulos íntimos, a Ceia na qual Jesus aponta o sentido da sua vida e missão, o sentido da sua morte: como vida entregue e partilhada, Vida que se torna alimento, comunhão pessoal, e Vida na qual se inaugura a Nova Aliança da Presença e Salvação de Deus para a Humanidade: «O Senhor Jesus na noite em que era entregue, tomou pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim». Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim» (1Cor 11,23-25).
Já estamos longe de ver a Ressurreição de Jesus como uma espécie de "reposição" da sua condição divina, um destino quase que "automático" da vida e missão de Jesus. A Ressurreição não é meramente uma "prova" de fé na divindade de Cristo, não é de facto a aventura solitária de um homem especial. Não o pode ser, o mistério da Páscoa de Jesus não o deixa ser! Ele é o Ressuscitado "pelo poder do Espírito Santo" (Rom 1,4), o Espírito Santo que, na linguagem bíblica, é o Poder, a Vida e a Glória de Deus que actuam na Criação e na História. Ressuscitado no Espírito Santo, a Páscoa deste Homem, Jesus, torna-se o Acontecimento, o Drama, o Processo, a Dinâmica, a Aventura maior de Salvação para toda a Humanidade!
Porque, neste mistério do Espírito Santo no qual o drama da Páscoa se desenrola, o mistério pessoal de Jesus, o seu mistério como pessoa, desenrola-se na sua plenitude, encontra a sua máxima e plena realização (Heb 5,9): este Homem, que escreveu a sua história pessoal nesta fidelidade ao Espírito do Pai, na total entrega e doacção de vida, este Homem encontra agora a sua plena realização. A morte é o acontecimento de máxima entrega e doacção, na Ressurreição esta Vida encontra a sua Universalidade máxima: na própria vida de Deus, que gera, ama, acolhe, chama, pronuncia o nome do seu Filho:
«E nós estamos aqui para vos anunciar a Boa-Nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no Salmo segundo:
Tu és meu filho, Eu hoje te gerei!» (Act 13,33)
Como é um Mistério do Espírito Santo, a Páscoa é um Mistério de Comunhão Pessoal, de relação, reciprocidade, Dom e Entrega, do Filho para o Pai, do Pai para o Filho... e como é um Mistério do Espírito Santo, a Páscoa torna-se um Acontecimento Universal: a Vida do Filho já não mais lhe pertence, ou pertence-lhe absolutamente, pois pertence ao Pai que a torna pertença de toda a Humanidade. É um Mistério de Abertura, total; e nós estamos lá, lá somos abraçados, nesse Mistério, nessa Hora, lá nascemos. Como Filhos...
«Recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai! Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus» (Rom 8,16)...
terça-feira, 25 de agosto de 2009
II. Jesus, o Ungido

Os milagres e curas tornam-se actos de magia que ele pratica para mostrar a sua divindade, e chega-se ao extremo de duvidar se Jesus, por ser um ser divino, terá sofrido de verdade, ao longo da sua história e sobretudo na sua morte. É claro que estou a exagerar nesta linguagem, mas é fácil reconhecer a dificuldade com que vemos o mistério de Jesus.
O Novo Testamento, na sua linguagem bíblica, é dinâmico e claro no modo como apresenta a pessoa de Jesus. Apesar de o proclamarem já à luz da experiencia pascal, não colocam em causa nem por um momento a sua humanidade: Jesus como homem, pessoa humana, “nascido de mulher, nascido sob o domínio da lei” (Gal 4,4), “nascido da linhagem de David segundo a carne” (Rom 1,3).
Quando os habitantes de Nazaré se questionam sobre Jesus, estão a dizer uma verdade essencial sobre ele: «De onde lhe vem esta sabedoria e o poder de fazer milagres? Não é Ele o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não estão todas entre nós? De onde lhe vem, pois, tudo isto?» E estavam escandalizados por causa dele» (Mt 13,54-56). O problema é que, para eles, a origem histórica e concreta de Jesus torna-se um “escândalo” para reconhecerem nele a presença e acção de Deus; e por vezes esse escândalo também é nosso, hoje, no sentido inverso: para reconhecermos, por causa da “doutrina”, a divindade de Jesus, esquecemo-nos da sua origem de Nazaré, filho de Maria e do carpinteiro José; ou, o que é pior, falamos dessas origens históricas como de “um faz de conta”, uma espécie de “traje de teatro” que o Filho de Deus utilizaria para “andar” connosco!
Por vezes nos Evangelhos encontramos expressões que secundarizam as origens familiares e culturais de Jesus: «Estão lá fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram.» Ele respondeu: «Quem são minha mãe e meus irmãos?» E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados à volta dele, disse: «Aí estão minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mc 3,32-35). A sua preocupação é afirmar que os laços do Reino ultrapassam os laços de clãs, tribos, famílias, grupos ou classes sociais ou religiosas, para reunir numa Família, uma Humanidade de amor universal e fraterno: «Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus» (Gal 3,28).
Assim, são bem históricos e humanos os laços que Jesus foi construindo, os homens e mulheres com quem caminhou nas estradas da Galileia e Judeia: foram tão fortes e reais esses laços e relações, testemunhados nos Evangelhos, que estarão nas origens da Experiencia Pascal dos discípulos: Simão, João, Maria Madalena, Tiago, etc … (Jo 20-21; 1Cor 15, 5-7).
A linha de pensamento que guia o Novo Testamento é o da Unção e Consagração pelo Espírito Santo. Como vimos no Antigo Testamento, a acção do Espírito de Deus, a Ruah YHWH, exprime a presença e acção do Deus Vivo na história do seu Povo e de toda a Criação. Se o Antigo Testamento proclama a certas personagens como Ungidos de Deus, por outro lado nunca deixa de realçar a humanidade dessas personagens: lembremo-nos que Samuel “repara nas aparências e na grande estatura” ao querer ungir como reis aos irmãos de David (1Sam 16,7); ou de David que, pelo amor de Betsabeia, envia o seu legitimo marido Urias para morrer na frente de batalha (2Sam 11), ou até do próprio Moisés que, quando escolhido por Deus, era um foragido pelo homicídio de um egípcio e que, mesmo no deserto, também arcará com a culpa de todo o povo pela idolatria (Num 27,12-14)…
Deste modo torna-se belo ver como Deus, através do seu Espírito Santo, vai consagrando a homens e mulheres nas suas acções e opções, relações e contextos. É no seu Espírito de Santidade que o homem Jesus de Nazaré foi crescendo no seu mistério de tornar-se pessoa: «E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2,52). E é mais belo ainda como o tornar-se, o emergir como pessoa humana, em Jesus, é exactamente o tornar-se, o emergir como Filho de Deus: como amado, gerado e consagrado no Amor do Pai, no seu Espírito pelo qual Ele, e nós, clamamos Abbá! (Rom 8,15). Desde o seu nascimento que é o Santo e Filho de Deus (Lc 1,35), será proclamado no Baptismo no Jordão (Lc 3,22), reconhecido no centro do seu ministério, no caminho para Jerusalém (Lc 9,35), um mistério pessoal que só se revela plenamente na Ressurreição (Rom 1,4) …
E nas suas acções e opções, nas suas relações, nos homens e mulheres que marcou, nos gestos libertadores que teve e possibilitou, ele tornou-se a revelação plena na “carne”, na linguagem, história e densidade humanos, do Filho de Deus-Pai (Jo 1,14). É este esquema de Jesus como o Filho, o Ungido e Amado que emerge na sua humanidade pela íntima acção do Espírito de Deus, que nos oferece a Carta aos Hebreus:
«Nos dias da sua vida terrena, apresentou orações e súplicas àquele que o podia salvar da morte, com grande clamor e lágrimas, e foi atendido por causa da sua piedade. Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obediência por aquilo que sofreu e, tornado perfeito (Ressuscitado), tornou-se para todos os que lhe obedecem fonte de salvação eterna» (Heb 5,7-9).
sábado, 15 de agosto de 2009
I. Uma História que se torna Projecto e Aliança
Quando proclamamos todas as semanas na Eucaristia o Credo, anunciamos: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a Vida… Ele que falou pelos Profetas”. O texto do Credo, do século IV d. C., é um texto breve, sintético, que procura formular o núcleo da fé, e normalmente cada frase tem por detrás uma longa história de reflexões, discussões, correntes… Algumas frases foram claramente enunciadas pelos Padres como resposta a determinadas correntes de pensamento no seio da Igreja consideradas contrárias e divisoras (heréticas) na fé vivida pelas comunidades.Uma corrente comum no cristianismo nesse tempo era a de considerar o Antigo Testamento anulado, mais que ultrapassado, pelo acontecimento de Jesus. Defendiam que o Deus revelado no Antigo Testamento era contrário ao Deus de Jesus, até um deus diferente. Quando os Padres proclamam que “o Espírito Santo falou pelos Profetas” estão a ir ao encontro dessas correntes que ainda hoje podemos encontrar: não, o Antigo Testamento é Profético, não só porque é do seu seio em Israel que nasce Jesus, mas sobretudo porque a Vida de Jesus tem um significado universal, torna-se o centro e oferece o Sentido a toda a História da Humanidade, particularmente a história que Deus escreve com Israel e que este testemunha. «Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho». (Heb 1,1-2)
A conclusão é clara: à luz da Fé no Deus revelado em Jesus de Nazaré, a História da Humanidade é dinâmica, é um Caminho, tem no seu seio um Sentido: a História é um Projecto que Deus está a escrever com a Humanidade. Um Projecto de Aliança.
É esta experiencia da História que Israel faz e testemunha nas suas Escrituras. Estas não são literatura religiosa no sentido que entendemos hoje, como uma estante ou prateleira que encontramos na Fnac juntos das outras temáticas. Israel lê toda a realidade, toda a sua história à luz da sua relação com Deus, em todos os aspectos da sua vida como Povo: a sua constituição como Povo a partir das tribos da Palestina e dos grupos emigrados do Egipto, a sua vida social regulada pelos códigos legislativos com os mandamentos, a instituição da monarquia e o seu rei, as grandes políticas e práticas sociais criticadas pelos Profetas, tudo é lido à luz da relação com Deus. A História ganha sentido, a História de um Povo torna-se o contexto de revelação da Presença de Deus.
Porque, para a experiencia bíblica, tanto a vida em todas as suas dimensões é absolutamente dependente do Espírito, da Vida e Acção de Deus, como os acontecimentos e personagens da sua história, os Profetas, Reis, Juizes são guiados pelo Espírito de Deus, sem deixarem de ser homens com as suas limitações.
O Espírito de Deus, a Ruah YHWH, é certamente a linguagem mais forte para exprimir que o Deus de Israel é um Deus Vivo e Activo, em relação estreita, vinculada, íntima com a sua Criação e o seu Povo. O grande adversário da fé em Israel não é o ateísmo mas a idolatria: apontar o louvor e guiar a vida por divindades mortas, sem a Vida/Espírito, feitas e reduzidas à imagem do Homem, fechadas no seu mundo fechado, sem qualquer papel, presença ou contributo na vida daqueles que as seguem. Isaías é muito duro na sua linguagem, vale a pena ler:
«Vós sois testemunhas: acaso há outro Deus além de mim?
Não há outro rochedo, que Eu saiba.»
Os fabricantes de ídolos nada são,
as suas imagens preciosas nada valem.
Os seus devotos nada vêem
e nada compreendem;
por isso ficam confundidos.
Porquê modelar um deus ou fazer uma imagem,
se não serve para nada?
Olhai! Todos os seus fiéis serão confundidos,
pois os artistas que os fabricam são apenas homens.
Que se congreguem e compareçam todos!
Ficarão assustados e confundidos.
O ferreiro trabalha-o na bigorna,
vai-o modelando com o martelo
e trabalha-o com braços robustos.
Passa fome, cansa-se, não bebe e fica esgotado.
Quanto ao que trabalha com a madeira,
toma as medidas, faz o esboço a lápis,
desbasta a madeira com o formão,
modela-a com a lima
dá-lhe figura de homem e beleza humana,
para a pôr a habitar num templo.
Queima no fogo metade desta madeira,
assa a carne sobre as brasas
e come-a até se saciar.
Depois, aquece-se e diz:
«Bom! Estou quente e tenho luz!»
Do resto faz a imagem de um ídolo,
adora-o e dirige-lhe esta oração:
«Salva-me, porque tu és o meu deus!» (Is 44,9-17).
Pelo contrário, a linguagem do Espírito, o Respirar ou Sopro Vital de Deus, traduz na Bíblia a íntima relação de Deus com o Ser Humano, a partir da experiencia de relação de Deus com a História de Israel:assim Deus consagra os 70 anciãos com o seu Espírito para auxiliarem a Moisés na condução do Povo (Num 11,16-17), ou unge a David para o consagrar como rei (1Sam 16,13), ou é prometido como Dom universal no tempo novo do Messias (Joel 3,1-2; confrontar a sua realização, segundo Act 2,16),
Uma experiencia forte, nova, diferente que Israel testemunha do seu Deus – um Deus que actua e é Senhor do seu Povo e da sua Criação através do seu Espírito, Vida, Respirar… Deste modo, as Escrituras deixam de ser simples literatura religiosa ou moral e tornam-se testemunho da História lida à luz da presença de Deus – e por isso tornam-se testemunho para ler a nossa História, hoje, ler essa Presença Viva: «porque a letra mata, enquanto o Espírito dá a vida» (2Cor 3, 6).
À luz do Deus no seu Espírito, a História passa de uma sucessão de dias, anos, acontecimentos, fruto da sorte ou do “um dia de cada vez”, e torna-se Projecto, Sentido, Dinâmica: uma História de Aliança, na qual uma das partes é Deus. E porquê?
Porque pelo Espírito a Criação, no seu sentido mais profundo, depende, vive, recebe, acolhe a sua Vida e Vitalidade de Deus; e pelo Espírito Deus está presente no mais íntimo e profundo da História do seu Povo, das suas Personagens, das suas vidas, revelando a sua Acção, a sua Vontade, o seu Amor. O Espírito que actua nesta História, o Espírito de Deus, é quem nos vai oferecer na Plenitude dos Tempos, depois da dinâmica e vitalidade da Criação, depois do milagre da Vida Pessoal e Humana que gera à sua imagem no Amor, é quem nos vai oferecer o Centro e Inaugurador de uma Nova Humanidade: o Filho.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Afonso de Ligório: I. A Boa-Notícia do Amor

No próximo sábado 1 de Agosto celebramos a festa de Afonso de Ligório, já aqui conhecido como o fundador da Congregação do Santíssimo Redentor (CSsR). Para quem quiser conhecer um pouco a sua história pode ver no blog Redentoristas. Por aqui vamos dedicar os próximos dias a conhecer um pouco o anúncio de Afonso, o jeito com que proclama o Evangelho de Jesus e a Espiritualidade que propõe no seu Seguimento. São textos um pouco longos, com algumas citações de Afonso a quem devemos ler com a linguagem própria do seu tempo. Boa caminhada!«Quem considera o amor imenso que nos demonstrou Jesus Cristo na sua vida e especialmente na sua morte, em sofrer tantas penas para a nossa salvação, não é possível que não reste ferido e inspirado a amar um Deus assim enamorado pelas nossas almas» (Saette di Fuoco, n°1). Não há dúvida de que a alimentar uma vida assim intensa e uma vontade tão radical de ser fiel como a de Afonso, estava uma experiencia enorme do Amor de Deus revelado em Cristo. Afonso torna seu o Evangelho, a Boa-Nova, preocupa-se em anunciá-la e dedica a sua vida em levar os seus irmãos a corresponder a este Amor. «Porque o Amor de Cristo nos constringe, ao pensarmos que, se um morreu por todos, todos morreram. E morreu por todos, para que os que vivem não vivam para si, mas para quem por eles morreu e ressuscitou» (2Cor 5, 14).
Precisamente na mais conhecida obra de Afonso, a Prática de Amar a Jesus Cristo, antes de desenvolver as pistas para viver o amor segundo o hino de Paulo de 1Cor 13, Afonso apresenta os “dons”, os “laços de Amor” com que Deus “prende” os homens, e descobre-os na História da Salvação de Deus com a Humanidade: a Criação, a Encarnação, a Paixão e Redenção, e a Eucaristia.
Criação: «Depois de ter dotado o Homem de alma com as potencias feitas à sua imagem: memória, entendimento e vontade; e de corpo com os seus sentidos, criou para ele o céu e a terra, e tantas outras coisas, todas por amor do Homem: os céus, as fontes, as montanhas, as planícies, os metais, os frutos e tantas espécies de animais, a fim de servirem o Homem, e o Homem o amar a Ele em agradecimento de tantos dons» (Prática de Amar a Jesus Cristo). Para Afonso, a contemplação dos dons da Natureza torna-se oração de agradecimento a Deus-Pai, que ama o Homem de modo tão sublime!
Encarnação: Mas Deus não estava contente, segundo Afonso: «Para conquistar todo o nosso amor, a tudo acrescentou o dar-se a sim mesmo todo a nós. Sim, o eterno Pai chegou ao extremo de nos dar o seu próprio e único Filho» (Ibid). É em Jesus Cristo que Deus revela todo o Seu Amor, o “excessivo Amor” pelos homens, pois «juntamente com o Filho deu-nos todos os bens, a Sua Graça, o Seu Amor e o Paraíso» (Ibid). «Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos vai dar de presente todo o resto com Ele?» (Rom 8, 32).
Redenção: A Encarnação acontece para a Salvação da Humanidade. Afonso, homem do seu tempo, lê a Redenção na morte expiatória na Cruz. O interessante é que, para Afonso, a Cruz tem um significado maior: «Mas porque é que, podendo Ele remir-nos sem sofrer, quis escolher a morte, e morte de Cruz? Para nos mostrar o Amor que nos tinha» (Prática). É aí que Afonso lê e recolhe a sua espiritualidade: a Cruz, mais do que uma morte horrenda exigida por um deus-tirano, torna-se a manifestação voluntária de todo o Amor de Cristo por nós. «Não era tanto o que Jesus sofrera, quanto o Amor que nos mostrara nos seus sofrimentos por nós, o que nos obriga e quase nos força a amá-lo» (Prática). «Isto é o mesmo que acreditar num Deus enlouquecido por amor dos homens» (Consideraçoes sobre o Estado Religioso, n°10). «Sabendo que Jesus, verdadeiro Deus, nos amou até sofrer por nós a morte e morte de Cruz, não é ter os nossos corações sob uma prensa, e senti-la apertar com força, e espremer o amor com uma violência que é tanto mais forte quanto mais é amável?» (Saette di Fuoco, n°27)
Por isso, diante das rígidas correntes morais e ascéticas do seu tempo, Afonso centra o seu anuncio no Amor de Cristo que se entrega até ao fim, até à Cruz, na fidelidade ao Projecto Salvador do Pai. Amor esse que é revelação da plenitude de misericórdia e salvação que encontramos no Pai, escolhendo Afonso para o lema da sua Congregação o Salmo 130: «Nele é abundante a Redenção». E um Pai é quem Afonso apresentará aos seus sobrinhos, quando o seu irmão Hércules morre: «Assentai no coração o temor de Deus como o vosso Senhor; mas, ainda mais, esforçai-vos em amá-lo como Pai: Pai, nome dulcíssimo. Sim, é deveras vosso Pai: amai-o portanto com ternura. É Pai bondoso, doce, amoroso, terno, benéfico, misericordioso, outros tantos títulos pelos quais deveis querê-lo com afecto cordial, terno, agradecido».
Eucaristia: Aqui Afonso exalta a Aliança que Cristo inaugura com a Humanidade, celebrada na Ceia Pascal e continuada na Eucaristia. A Eucaristia representa, para Afonso, a comunhão pessoal que o Ressuscitado procura criar com cada crente, a fim de o conduzir ao amor e à perfeição. É bonito ver que, numa época de grande escrupulosidade e rigidez moral, Afonso defenda a comunhão frequente; isto porque a considera um meio para caminhar no amor a Jesus Cristo, e não um fim a que se deve estar perfeitamente preparado. Citando S. Francisco de Sales, declara: «Duas classes de pessoas devem comungar com frequência: os perfeitos para se conservarem na perfeição, e os imperfeitos para chegarem à perfeição» (Prática).
Por estes 4 marcos Afonso celebra e proclama a Boa-Nova de um Deus que é Amor e que constrói uma história de Amor com os homens. História que é mais forte que todo o pecado e toda a infidelidade do Homem. Deste Amor revelado e demonstrado, nascem três sentimentos, três atitudes que animam todo o caminho de santidade, de resposta de Amor a Cristo:
Confiança: nas provas de Amor, de entrega e fidelidade que Deus demonstrou em Cristo; numa época muito maracada pelo medo quanto à da salvação pessoal, ao juizo e à morte Afonso declara: «Procederei com confiança, esperando com firmeza que nada do que for necessário para a salvação me há-de ser negado por Aquele que tanto fez e sofreu pela minha salvação» (Prática). «No Amor não há lugar para o temor; ao contrário, o amor desaloja o temor. Pois o temor se refere ao castigo, e quem teme não alcançou um amor perfeito. Nós amamos porque Ele nos amou primeiro» (1Jo 4, 18-19).
Esperança: é muito interessante que Afonso, centrando o objecto da esperança na vida eterna, a une à caridade, convertendo-a num compromisso de vida: «O objecto primário da esperança crista é Deus, como d’Ele gozam as almas no Reino da Bem-Aventurança. Mas não julguemos que a esperança de gozar de Deus no Paraíso seja obstáculo à caridade, pois que a esperança está inseparavelmente unida à caridade, que no paraíso se aperfeiçoa e encontra o seu complemento» (Prática). Num tempo de grande incerteza, com a divulgação da ideia de uma salvação restrita e selecta apenas para alguns “perfeitos”, Afonso anuncia a universalidade da salvação: “Ele deseja que todos se salvem e ninguém se perca, como muito claramente ensinaram S. Paulo e S. Pedro: Deus quer que todos os homens sejam salvos (1Tm 2, 4); O Senhor usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam (2Pe 3, 9)”.
Gratidão: “Jesus Cristo, como Deus, merece por si só de nós todo o Amor. Mas Ele, com o Amor que nos manifestou, quis pôr-nos, por assim dizer, na necessidade de O amar, pelo menos por gratidão, por quanto fez e padeceu por nós. Ele amou-nos muito para ser por nós muito amado” (Prática). A gratidão é uma palavra-chave na espiritualidade de Afonso. É ela que confere o rosto alegre da sua benignidade pastoral e moral. É ela que impede que a sua proposta ascética não seja um sistema ético de aperfeiçoamento pessoal pelas virtudes, mas se funde numa relação de Amor com Cristo. Porque todas as opções e atitudes do crente se tornam respostas de amor, consequências do amor demonstrado, procura de agradar a este Deus que nos ama tanto. “Não podemos duvidar que Deus nos ama e nos ama verdadeiramente; e porque nos ama tanto, Ele deseja que nós O amemos de todo o coração” (Dell’Amore Divino, n°3).
Estas três atitudes, confiança, esperança e gratidão, que brotam da escuta da Palavra e da experiencia de um Amor tão grande, são o fundamento da espiritualidade de Afonso. São todo o contrário do temor, do perfeccionismo egoísta que se torna farisaísmo. São as atitudes que Jesus convida os seus discípulos a ter diante do Pai: Não fiqueis perturbados: crede em Deus e crede em mim (Jo 14, 1).
sábado, 31 de janeiro de 2009
Preciosos... por um alto preço
Tive o privilégio de não deixar de escutar, desde ontem, uma frase tremenda de Paulo: «Fostes adquiridos por um alto preço!» (1Cor 6,20). O Apóstolo refere-se à Páscoa de Jesus que se torna a nossa Páscoa (1Cor 5,7), na qual toda a Humanidade é abraçada. Também na 1ª Carta de Pedro surge a expressão: «Fostes resgatados não a preço de bens corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo» (1Pe 1,18). Ambos referem-se ao sangue dos cordeiros que salvou os israelitas da morte dos primogénitos no Egipto, marcando-os como o povo eleito.No acontecimento do Exodo, o Povo experimenta um Amor privilegiado, preferencial de Deus, que elege, escolhe, cuida… salva. Aqui abusa das expressões: fala do amor ciumento de Deus (Dt 4,24). O que está em causa é o Cuidado, a Ternura de Deus que nos ama e, no seu Amor, nos embeleza. Estamos demasiado habituados a pensar na beleza, no cuidado, na estima por nós próprios como inimigos, ou de um Deus que nos rouba a alegria e a qualidade de viver… Então, porque utiliza a escritura textos como este para falar da relação de Deus com o seu Povo, pela boca do profeta Ezequiel:
«Vesti-te com vestes bordadas, calcei-te sandálias de cabedal fino, cingi-te a cabeça com um véu de linho e cobri-te de seda. Ornei-te de jóias, pus-te braceletes nos pulsos e um colar ao pescoço. Coloquei-te um anel no nariz, brincos nas orelhas e uma coroa de ouro na cabeça. Ficaste, assim, ornada de ouro e prata; o teu vestido era de linho fino, de seda e recamado de bordados. Como alimento, tinhas a flor de farinha, o mel e o azeite. Tornaste-te extraordinariamente bela e chegaste à dignidade real» (Ez 16,10-13).
Quase parece que escutamos as finas palavras de Lucas, numa passagem de extrema densidade: «Quando ainda estava longe, o Pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos. O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.’Mas o Pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés.» (Lc 15,20-22).
A experiencia que está por debaixo, desde Ezequiel até Paulo e Lucas, é que somos Preciosos para Deus! Somos Preciosos aos olhos de Deus! E a melhor prova desse Amor, dessa Valor que temos, é a Salvação, o Projecto, a Páscoa que é realizada para nós, por nós e em nós! «Esta é a noite que Deus preparou» cantamos na Vigília Pascal… Se Deus preparou e prepara isto para nós, um Abbá a revestir-nos de dignidade filial, da gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rom 8,21), liberdade que é dom de Cristo (Jo 8,36; Gal 5,1)… então porque tornamos, ou vemos o nosso rosto tão marcado e a nossa história tão impura? Esta linguagem não tem lugar no Anuncio Salvador de Deus.
Não deixa de ser interessante regressar a Paulo: por duas vezes afirma, na Primeira Carta aos Corintios, o alto preço que temos para Deus, alto preço que Deus não deixa de pagar e que é a vida de Jesus, e das duas tira conclusões: «Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo», corpo que «é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, porque o recebestes de Deus» (1Cor 6,19-20). E na outra afirma: «não vos torneis escravos dos homens» (1Cor 7,23). Mesmo permanecendo na condição social de escravo (é um texto escrito há 2000 anos), a nossa vida tem um Senhor maior, que é um senhorio de Liberdade, que nos devolve a nós próprios.
Linguagem de relação, de Aliança, de pertença, de Valor, de algo Precioso. Como o Reino, que é «uma pérola de grande valor» que leva a vender todos os bens para a adquirir (Mt 13, 46). E assim a Comunidade, a Igreja, a Humanidade torna-se como Paulo a sonha, tal como Ezequiel sonhara Israel: «Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para a santificar, purificando-a, no banho da água, pela palavra. Ele quis apresentá-la esplêndida, como Igreja sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santa e imaculada» (Ef 5,25-26). E Paulo comete a ousadia de afirmar os seus ciúmes: «Sinto por vós um ciúme semelhante ao ciúme de Deus, pois vos desposei com um único esposo, Cristo, a quem devo apresentar-vos como virgem pura» (1Cor 11,2). E tudo porque «foi Ele mesmo que nos amou» (1Jo 4,10)
Gostava que todos os meus irmãos experimentassem,
Com os olhos na Páscoa, naquela Páscoa preparada, gerada
Na vida entregue e filial do Filho,
No Dom do Espírito de Amor,
Gostava que todos os meus irmãos experimentassem
Esse Alto Preço…
Esse Valor… somos Preciosos…
Porque um Amor, um Senhor deu-se por inteiro
Para nos resgatar… para nos Salvar
No parto de uma Vida Nova, Filial
De uma Liberdade. Gloriosa.
E aconteceria essa linguagem, a que Paulo chama de
«insensatez da minha parte» (1Cor 11,1)
De falar em termos de Amor e Aliança…
E então descobríamos, eu descobria,
Que nada há de mais precioso, belo, valioso
Que o nosso rosto, a nossa história, a nossa maravilha
De sermos pessoas… «templos do Espírito Santo»,
A curar, a beijar, a cuidar… a salvar
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Um Favor, uma Opção de Graça, uma Promessa... um Reino
Enquanto Lucas nos apresenta Jesus a dizer «Hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc 4,21), Mateus apresenta o que significa isto: «Depois, começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades» (Mt 4,23).De novo Lucas dá-nos uma referencia quanto à vida de Jesus: «Ao iniciar o seu ministério, Jesus tinha cerca de trinta anos» (Lc 3,23). Os 4 evangelistas apresentam o Baptismo de Jesus por João Baptista: de João, Jesus terá acolhido e escutado o anúncio da Proximidade da Presença de Deus e da sua actuação decisiva na história. Estava próxima uma intervenção de Deus: segundo João, seria de Juizo universal. Para Jesus, será de Salvação.
Vale a pena escutar de novo o profeta Isaias: «Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz,que apregoa a boa-nova,e que proclama a salvação! Que diz a Sião: «O rei é o teu Deus!» Ouve: as tuas sentinelas gritam, cantam em coro,porque vêem olhos nos olhoso regresso do Senhor a Sião. Ruínas de Jerusalém, irrompei em cânticos de alegria,porque o Senhor consola o seu povo,com a libertação de Jerusalém» (Is 52,7-9).
E Jesus descobrirá, escutará esta Boa-Noticia: esta Missão da Boa-Nova de Consolação: sim, é verdade. É verdade. O nosso Deus, o Deus de Israel, o Deus dos nossos pais, o Deus da Promessa de Abraão e da Aliança de Moisés, está connosco. Está no meio de nós. Está próximo. E está próximo como Deus, como Rei, na sua Vontade e Soberania, na sua Misericórdia, no seu Amor.
Porque na vida e no anuncio de Jesus podemos descobri-lo bem: a presença e a proximidade de Deus só pode ser de Salvação e de Misericórdia para nós. De Deus só pode vir, só pode vir, uma Opção de Graça, uma Decisão de Salvação, uma Vontade de Amor. É este o nosso Deus. E está aí. Para nós. Próximo. «Cumpriu-se o Tempo e o Reino de Deus é próximo. Convertei-vos e acreditai na Boa Noticia» (Mc 1,15).
E essa Opção, esse Amor de Deus que se faz próximo e presente, leva-o a proclamar: «Bem-Aventurados vós, os pobres, porque o Reino de Deus é vosso» (Lc 6,20). Felizes vós, felizes nós, porque Deus está connosco e está por nós. Para construir connosco um caminho de Libertação. Porque o Futuro pertence-lhe, e Ele pertence-vos.
Mas como? Como está o nosso Deus a intervir na nossa história? Como está presente o seu Amor? Onde está essa Opção de Salvação que ele tomou a nosso favor? «Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus respondeu-lhes:O Reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Ninguém poderá afirmar: ‘Ei-lo aqui’ ou ‘Ei-lo ali’, pois o Reino de Deus está entre vós.» (Lc 17,20-21).
Deus já está a actuar entre vós, a criar convosco uma Nova Humanidade, uma frente comunitária de libertação e fraternidade, de perdão e acolhimento, onde todos são acolhidos, como num Banquete: «Sai imediatamente às praças e às ruas da cidade e traz para aqui os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos.’ O servo voltou e disse-lhe: ‘Senhor, está feito o que determinaste, e ainda há lugar.’ E o senhor disse ao servo: ‘Sai pelos caminhos e azinhagas e obriga-os a entrar, para que a minha casa fique cheia» (Lc 14,21-23).
«O Semeador saiu a semear» (Mc 4,3); o Semeador já saiu a Semear... E podem haver pedras, pássaros, terras pouco profundas: o Semeador já saiu a semear... E os que acolhem a semente, ela dá fruto, um fruto sobreabundante, exagerado à boa maneira judaica, à bela maneira de Jesus: a 30, a 60 e a 100 por um (Mc 4,8). O Semeador já saiu a semear, a semente já está a dar fruto: «Pois Eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à vida eterna» (Jo 4,35-36).
Como será este Presente de Salvação, esta Presença de Deus na nossa História, Hoje? Podia falar de amor fraterno, perdão, mudança de vida... Mas não é aí que encontro o nucleo, o nucleo mesmo do anuncio de Jesus, do tal Evangelho ou Boa-Noticia. Isso já nós sabemos, e é aí que está de facto a dinamica desta Nova Humanidade a nascer nos homens e mulheres que se juntam para escutar a Palavra e partilhar o Pão... Mas no nucleo, no nucleo mesmo do anuncio de Jesus, está uma Promessa. Uma Graça. Um Favor. Inesperados. De Deus. Para nós. Porquê?
Deus é Bom, Deus é Livre, Deus é Fiel. Não sei se foi assim. Terá sido assim com Jesus? Sei que ele acreditava. E eu começo a ver sinais, sinais a mais, de que, se calhar, até é possível. Deus é Bom, Deus é Livre, Deus é Fiel.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Bom Ano!
Com Lucas somos convidados a entrar na sinagoga de Nazaré onde um homem de nome Jesus, de Nazaré, se levanta. Vai ler uma passagem do profeta Isaias (Is 61,1-2), na qual se apresenta a sua vocação (Lc 4,16-21). Neste texto encontramos uma frase significativa: o profeta é chamado «a proclamar um Ano de Graça da parte do Senhor» (Lc 4, 19).Este «ano de Graça» ou «ano favorável» corresponde a uma tradição muito presente no povo bíblico e no Antigo Testamento: seria um ano jubilar, de sete em sete anos e, mais tarde, de 50 em 50 anos (7x7=49), no qual se procuraria viver o mais possível essa Terra Prometida como Dom de Deus; os escravos seriam libertos, as dividas perdoadas, as terras redistribuídas… (Lv 25,8). Como foi um sonho nunca plenamente realizado, os profetas atiram-no para a chegada do Messias que instauraria a Paz, o Shalom de justiça e prosperidade…
Mas o que é significativo no texto de Lucas é que encontramos Jesus a dizer, e Lucas e nós com ele, numa frase inédita: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» Hoje… Cumpriu-se Hoje… Este Ano prometido, esperado, ansiado… Jesus tem a ousadia de o proclamar como inaugurado. É significativo que este episódio marque o começo, no Evangelho de Lucas, da actuação de Jesus: com a sua vida, a sua missão que vai agora começar, está a inaugurar-se este Ano de Graça e Plenitude…
Por isso a vida de Jesus é marcada pelo carácter de Boa-Noticia: terminaram os tempos da espera e da dúvida, chegou a Salvação prometida por Deus. Deus está do nosso lado, Deus está a nosso favor, Deus faz-se presente e próximo. De novo encontramos em Isaias uma bela passagem sobre o Evangelizador, o que narra e proclama uma Boa-Noticia: «Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que apregoa a boa-nova, e que proclama a salvação! Que diz a Sião: «O teu Deus é Rei!» (Is 52,7). E encontramos na primeira frase que sai da boca de Jesus no Evangelho de Marcos: «Cumpriu-se o Tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.» (Mc 1,15)
Parece que temos uma Boa-Noticia em mãos, de um Hoje da Salvação, de um Ano de Graça que parece que já está inaugurado. Aos coríntios, Paulo lança este apelo à Reconciliação com uma frase também inédita: «Como seus colaboradores, exortamo-vos a não receber em vão a graça de Deus. Pois Ele diz: No tempo favorável, ouvi-te e, no dia da salvação, vim em teu auxílio. É este o Tempo favorável, é este o dia da Salvação.» (2Cor 6,1). É este o Tempo Favorável…
Paulo tem no olhar, no horizonte, esse Acontecimento que é a Ressurreição de Jesus, Jesus, o Filho, a Graça do Pai. Por isso proclamará com extrema densidade um texto marcante: «Mas, quando chegou a Plenitude do Tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: "Abbá! - Pai!" Deste modo, já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus» (Gal 4,4-6). Então, a Salvação que nos é preparada, inaugurada em Jesus e pelo Dom do seu Espírito é esta Filiação que nos torna Herdeiros: «Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo» (Rom 8,17). Herdeiros do que Deus tem para nos dar: a sua Vida, o seu Amor, a sua Salvação que se torna Ressurreição.
É aqui que prossegue o sonho de Isaías: com a chegada do Eleito, do Emanuel, «Connosco Deus», seria a Paz Universal, Paz que é sempre sinónimo de felicidade, justiça, prosperidade, libertação, cura… O seu Sonho é já um Dom de Deus: «Porque a bota que pisa o solo com arrogância e a capa empapada em sangue serão queimadas e serão pasto das chamas. Porquanto um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz. Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites, sobre o trono de David e sobre o seu reino. Ele o estabelecerá e o consolidará com o direito e com a justiça, desde agora e para sempre. Assim fará o amor ardente do Senhor do universo» (Is 9,4-6).
Esta Paz, sonhada por Isaias, é já um dom celebrado e proclamado por Paulo, um Dom que toca acolher e construir; é uma Nova Humanidade, um Homem Novo: «Ele é a nossa Paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade: na sua carne, anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só Homem Novo, fazendo a paz, e para os reconciliar com Deus, num só Corpo, por meio da cruz, matando assim a inimizade. E, na sua vinda, anunciou a paz a vós que estáveis longe e paz àqueles que estavam perto. Porque, é por Ele que uns e outros, num só Espírito, temos acesso ao Pai» (Ef 2,14-18).
E para Paulo, a marca que distingue os discípulos, o grande Dom que o Espírito faz acontecer no crente, é a Liberdade: «Irmãos, de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados» (Gal 5,13). Liberdade de tudo o que conseguimos inventar para nos separar e bloquear no Amor. É essa Liberdade que toda a Criação é chamada, a Liberdade de Filhos: «Toda a Criação anseia alcançar a gloriosa liberdade dos Filhos de Deus» (Rom 8,21). É essa Liberdade que é Dom do Ressuscitado, Dom do Filho no qual somos filhos, Ele que é a nossa Páscoa (1Cor 5,7): «Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres» (Jo 8,36). Por isso, como discípulos guiados pelo Espírito da Liberdade, tornamo-nos mediação de libertação nos sinais da presença e da dinâmica do Reino: «a libertar os oprimidos» (Lc 4,18).
Desejo-te um bom ano, amigo! Que ele seja, na tua vida e neste mundo ainda a viver as «dores de parto» de um Homem Novo a nascer no meio de rupturas, egoísmos e morte, um ano de Graça, de Esperança e de Consolação. Da Liberdade e da Paz dos Filhos que o Pai, desde o Ressuscitado e o seu Espírito, não deixa de nos fazer nascer.
Deixa O Mundo Girar - Pólo Norte
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
No Princípio...
No Princípio, era a Palavrae a Palavra estava com Deus
e a Palavra era Deus.
Ela, no Princípio, estava com Deus.
Tudo foi feito por meio d'Ela
e sem Ela nada foi feito de tudo o que veio à existencia.
N'Ela estava a Vida
e a Vida era a Luz dos homens
e a Luz brilhou nas trevas
e as trevas não A apreenderam.
Houve um homem, enviado por Deus.
O seu nome era João.
Ele veio como testemunha
para dar testemunho da Luz
afim de que todos cressem por meio dele.
Ele não era a Luz
mas veio para dar testemunho da Luz.
N'Ela estava a Luz que ao vir ao mundo
ilumina a todos os homens.
Estava no mundo,
o mundo que foi feito por meio d'Ela,
mas o mundo não A recebeu.
Veio para o que era seu
e os seus não A receberam.
Mas a quantos A receberam,
aos que acreditaram no seu nome,
deu-lhe o poder de se tornarem
Filhos de Deus.
Eles, que não nascem do sangue,
nem de uma vontade da carne,
nem de uma vontade do homem,
mas de Deus.
E a Palavra fez-se carne,
e montou a sua tenda entre nós,
e nós vimos a sua Glória
Glória que tem junto do Pai como Filho Unigénito
pleno de Graça e de Verdade.
João deu o seguinte testemunho, ao dizer:
«Este é aquele de quem eu disse:
o que vem depois
passou à minha frente
porque já existia antes de mim».
Da sua Plenitude todos recebemos
Graça sobre Graça.
É que a Lei foi-nos dada por Moisés;
mas a Graça e a Verdade vieram-nos
por Jesus Cristo.
A Deus nunca ninguém O viu:
o Filho Unigénito, que é Deus
e que está no Seio do Pai,
Ele o deu a conhecer.
(João 1,1-18, recitação livre
com a sua autorização)
domingo, 21 de dezembro de 2008
Gostava de contar-te uma História...
Gostava de contar-te uma História… Gostava de partilhar contigo, neste momento, a História do Natal, a História que celebramos cada ano. É uma História de Amor: eu chamo-lhe a História de Deus com a Humanidade. A História de uma Palavra. A História de uma Pessoa, uma só Pessoa a quem todos pertencemos, e que nos pertence também. Já ouviste falar de certeza de alguma coisa que seja Património Universal da Humanidade? Como uma região, uma paisagem… Pois olha, a História que eu te quero contar hoje é a História de uma Pessoa, um Homem, que se tornou Património Universal da Humanidade. Um Homem que nasceu para nós, um dia. E que se tornou nosso. A História do Filho, a Palavra do Pai, do Abbá. Queres caminhar comigo? Dás-me a tua mão e vamos caminhar juntos ao longo desta História?
«No princípio existia a Palavra;
A Palavra estava em Deus;
E a Palavra era Deus.
No princípio Ela estava em Deus.
Deixa-me fazer-te uma pergunta: o que está no Princípio da tua vida? Qual é, ou quem é o Princípio da tua vida, o Principio que te guia, que te inspira, o Sentido com quem constróis a tua História, a História da tua Vida? Quem é o teu Princípio, a tua Palavra, o teu Sentido?...
Deixa-me dizer-te um segredo, que vivo como das maiores alegrias da minha vida: esta História, este Projecto que somos nós, a quem chamamos de Humanidade, este Projecto tem Sentido. Tem um Sentido, um Principio, uma Palavra. Deus, ao sonhar esta História que somos nós, está a sonhá-la com uma Palavra, uma Palavra de Amor, um Sonho de Amor… Ainda antes de haverem estrelas e planetas, ainda antes de a Terra existir com todos os seus elementos, ainda antes do primeiro Homem começar a sua aventura da humanização… já Deus sonhava com este Projecto, com este Sonho, com esta Palavra para a Humanidade.
Sabes qual é a melhor Palavra que podes escutar daqueles que te trouxeram à vida, os teus pais e todas as pessoas que te amaram e amam? Tu foste sonhado desde há muito tempo, há muito tempo que te queríamos e esperávamos… Tu foste, e és, um Desejado. Pois é esta a Palavra que Deus te diz há muito tempo, e te pode dizer hoje também…
«Por Ele é que tudo começou a existir;
e sem Ele nada veio à existência.
Nele é que estava a Vida
de tudo o que veio a existir.
E a Vida era a Luz dos homens.
A Luz brilhou nas trevas,
mas as trevas não a receberam.
Sim, eu sei o que estás a pensar. Podes não o estar a pensar agora, mas de certeza que o pensas muitas vezes. Se a Vida, a História, a minha vida fazem assim tão Sentido, então porquê todas estas experiencias de sofrimento, de fracasso, de desilusão, de medo? Porquê todos os saltos e quedas, todas as rupturas e desilusões? Porquê todo este pecado e toda esta morte? Porquê…
E eu não tenho resposta a dar-te… Esta é a História de uma Palavra, de um Amor que percorre toda a Humanidade e se encontra com recusas, com bloqueios, com estruturas de, deixa-me falar assim, anti-Amor… De uma História da Humanidade, de uma História da nossa Vida construída também à força de erros, bloqueios, pecado… É a tua experiencia, é a minha, é a experiencia que podemos ver e ouvir…
Mas deixa-me dizer-te um segredo. Deixa-me dizer-te um segredo com todas as forças que eu puder: apesar de tudo, apesar de tudo isso, com tudo isso também… mesmo assim, Deus não desiste. Deus não desiste, Deus não pode desistir, Deus não consegue desistir, a sua Palavra, o seu Amor são maiores, muito maiores, tremendamente maiores! Deus não desiste do seu Projecto, da sua Menina dos Olhos que é a Humanidade, a nossa Humanidade, que és tu, que sou eu, que somos nós, os nosso projectos de Amor e Aliança… Sim, porque o nosso Deus é o Deus da Aliança… Aliança de Amor…
E quero que olhes à tua volta. Quero que olhes à tua volta, para a tua vida, para o que estás a viver neste momento, nas tuas alegrias e tristezas, esperanças e sofrimentos. E gostava que descobrisses, sim que descobrisses esta frágil, silenciosa, humilde História de Amor que está a acontecer… Que está a acontecer através de tantas pessoas, experiencias, projectos, de relação, de comunhão, de perdão, de amizade, de partilha… Sim, descobre isso, no meio das tantas multidões que te apertam todos os dias com noticias que não são boas noticias. E descobrirás aquilo que diz João na sua Primeira Carta:
«Queridos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é Amor»
«Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.
A Palavra era a Luz verdadeira,
que, ao vir ao mundo,
a todo o homem ilumina.
Ele estava no mundo
e por Ele o mundo veio à existência,
mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu,
e os seus não o receberam.
Certamente já ouviste falar de João Baptista, e de Israel, e de tudo o que nós chamamos de Antigo Testamento… É a história de um Povo, um pequeno Povo, perdido nas areias do Médio Oriente, que foi descobrindo, através de muitas experiencias, aventuras e desventuras, o Rosto de um Deus que queria fazer História com ele. Uma História de Aliança, de Promessa, de Esperança num futuro de Paz, de Justiça, de Felicidade. Um Deus Bom, um Deus Justo e Libertador, um Deus Fiel e Verdadeiro, um Deus Paciente… Um Deus que, por incrível que parece, nos deseja e nos ama como a Menina dos seus Olhos.
Deste Povo saiu um homem, que já ouviste falar, chamado João Baptista. Ele era um Profeta, um homem apaixonado por Deus e pela Verdade que dava a sua vida em nome dessa Verdade. Os Profetas, em Israel, estavam junto do Povo para que este nunca perdesse a esperança na Presença e no Amor de Deus. Além disso, os Profetas também denunciavam tudo o que era contrário à Aliança, tudo o que era contrário ao Amor, a opressão, a mentira, a violência. Por isso os Profetas normalmente acabavam mal, perseguidos, isolados, ou mortos… Faz-te lembrar alguém, não faz?... Alguém que, em nome da verdade de Deus a quem chamava de Abbá, recusava todas as opressões e sonhava com uma Nova Humanidade… E que também foi rejeitado, morto, crucificado… Já sabes de quem estamos a falar, não já?... E hoje podes ver também tantos Profetas, homens e mulheres que, em nome da verdade de um mundo melhor, mais humano, são perseguidos, isolados, mortos…
Mas deixa-me dizer-te de novo um segredo: a História não acaba aqui… Podemos perseguir e matar a Verdade do Amor, podemos passar indiferentes na nossa Vida a esta História… Mas o Amor, a Palavra, o Sentido desta Humanidade, sai vencedor. Saiu vencedor. Venceu. A Vida venceu. Sabes porquê?
«Mas, a quantos o receberam,
aos que nele crêem,
deu-lhes o poder de se tornarem Filhos de Deus.
Estes não nasceram de laços de sangue,
nem de um impulso da carne,
nem da vontade de um homem,
mas sim de Deus.
Sim. A Palavra venceu, e vence. O Amor vence, Deus é Fiel. Deus é fiel à sua História, à História da sua Humanidade. E o seu Sonho venceu. Está inaugurado. É este o Sonho, é este o Projecto, é este o Sentido para o qual Deus sonha a Humanidade desde toda a Eternidade do seu Amor, que é um Amor Eterno e Pleno. É para isto, é assim que somos sonhados, sabes, tu, eu, nós. Como Filhos. Filhos. Amados. Queridos. Sonhados. Da sua Vida, da sua própria Vida, sim, da Vida do Pai, da Vida do Abbá…
É este o segredo que te quero contar, é esta a Festa que podemos celebrar, desde já, desde o Natal, até à Páscoa, que significa Passagem, nascimento, Vida Nova… Apesar de todas as resistências, quedas, rupturas, a História da Humanidade, sim desta Humanidade que somos, esta Familia a que pertencemos, é já uma História com Sucesso… Somos Filhos de Deus. Não apenas segundo os nossos pequenos horizontes da nossa família, do nosso grupo de amigos, da nossa raça ou país… Filhos segundo o Amor, Irmãos segundo o Amor, a Palavra de Amor que percorre e constrói a tua História.
Este é o segredo: na medida em que permites e escolhes o Amor, a Palavra do Amor como o centro da tua Vida, estás a nascer no seio de uma Familia Universal, de irmãos, homens e mulheres, todos Filhos do mesmo Abbá. Somos da Familia de Deus! Da sua Vida, do seu Amor, da sua Eternidade que vence todas as rupturas da morte.
E escuta, agora, no teu coração: «És meu Filho muito amado, em que tenho todo o meu agrado», todo o meu Amor… Sonho-te desde sempre, desde o Princípio… E a tua Vida, a tua História como Pessoa em construção nesta aventura de viver, tem uma Palavra, uma Palavra que está sempre contigo: Amo-te…
«E a Palavra fez-se Homem
e veio habitar connosco.
E nós contemplámos a sua glória,
a glória que possui como Filho Unigénito do Pai,
cheio de graça e de verdade.
Sim, todos nós participamos da sua Plenitude,
recebendo graças sobre graças.
É que a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo.
A Deus jamais alguém o viu.
O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai,
foi Ele quem o deu a conhecer.
Sim. Queres saber como é que tudo isto é possível. Queres saber como tudo acontece. Queres saber que Palavra é esta, a Palavra que Deus tem a dizer-te na tua vida. A Palavra do seu Amor… E se eu te dissesse que esta Palavra, que é o Sentido de toda a História, esta Palavra é uma Pessoa? Um Filho?
Olha, é como eu dizer-te: sabes quem é o melhor rosto do Amor dos teus pais, do teu pai e da tua mãe? Quem é a melhor prova, a melhor evidencia do seu Amor, do seu Projecto de Amor? És tu. O Filho. O melhor Rosto, a Palavra que te diz, que te explica, que te revela, que te mostra, que te dá este Amor de Deus, é o Filho.
Já viste? Já reparaste? Já pensaste bem nisto? A Palavra que te fala de Deus, do seu Amor, é um Filho. Um Filho que nós conhecemos, chamado Jesus de Nazaré. Sim, estás bem a ver este Homem, esta Pessoa, que já vais conhecendo um bocadinho, este Homem chamado Jesus, que reconhecemos como o Filho do nosso Deus? Já imaginaste como há-de ser este Amor, este Amor ser medida, que se revela num Filho, e num Filho cujo Rosto, cujo Coração é Jesus? Sim, aquele Jesus!

Deixa-me contar-te a sua história: Jesus de Nazaré foi um Homem preparado pela história do seu Povo, Israel, um Homem preparado que na sua vida, construída e vivida como Homem, como Pessoa, como um de nós, se deixou amar e seduzir pelo Amor de Deus, a quem chamava na sua língua materna de Abbá, Papá. Nele habitava o Espírito de Deus, o Espírito Santo, Ternura Maternal de Deus, que o gerou, o amou como Filho… E Ele descobriu-o e saboreou-o, e proclamou-o como a maior Boa-Noticia de toda a História: Deus ama-nos como Filhos, somos Filhos, e a nossa Vida é assumida, abraçada, gerada por este Amor. Vai nascer uma Nova Humanidade, uma Humanidade de Irmãos, filhos deste Abbá, que construam a sua vida, a sua história, nesta Palavra de Amor, segundo o Amor…
E na plenitude da sua Vida, rasgada pela morte e morte violenta, de Cruz, na Plenitude da sua Vida Deus, o Abbá, Ressuscitou-o. Tornou-o Património de toda a Humanidade, Universal, Presente, e a sua Vida, a Vida daquele Homem, a sua Graça já nos pertence, porque Ele nos pertence, é nosso irmão, dos nossos! A sua Vida pertence-nos, pertence-te, a ti, a mim, a nós, a esta Humanidade que somos e formamos… Somos Filhos, Filhos amados, unidos a Ele, o nosso Irmão, o Filho que é o Primogénito de muitos irmãos.
Vês este sonho, este Projecto? Imagina toda a história da Humanidade, desde as origens até hoje, e até o futuro; imagina a tua vida, toda a tua história, pequena ou grande, bela ou dura; e escuta agora isto: tudo isso já pertence à própria Vida de Deus, ao seu Amor… Já lhe pertencemos como Filhos, numa só Familia, numa só Humanidade que nasceu, e continua a nascer hoje, na Páscoa de Jesus, a Palavra, o Filho…
E gostava que tudo isto te fizesse sentido. Gostava que a tua História, a tua Vida, te fizesse sentido, como uma História de Amor. Gostava que acreditasses, mesmo, em ti próprio: estás a nascer como Filho do Abbá, como membro desta Familia, desta Humanidade. Que começou a nascer num Homem, numa Pessoa que muito amamos. Jesus.
Um grande Abraço e um Bom Natal.
Que continues a escrever a História desta Palavra que é um Filho, na tua vida...
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
a Lei do Espírito que dá a Vida libertou-te...
«Toda a Criação está na Esperança de alcançar
a Gloriosa Liberdade dos Filhos de Deus»
Se por acaso perguntassem a Paulo o que distinguia os cristãos, os discípulos de Jesus, estou convencido de que ele responderia: a Liberdade. É a Liberdade o grande sinal de alguém que faz encontro na sua vida com o Ressuscitado Jesus. A Liberdade de Filhos. Liberdade Gloriosa.
Um grande privilégio é poder celebrar o Natal como um Acontecimento, o nascimento de Jesus, à luz da Páscoa e de toda a História que Deus faz com a Humanidade. E Paulo tem este privilégio, o que me parece que faz dele um apaixonado pelo Evangelho de Jesus, que ele anuncia como uma missão: «Ai de mim se eu não evangelizar» (1Cor 9,16).
E para Paulo, a História sofre, com o Acontecimento de Jesus, o Ressuscitado, um salto de qualidade tremendo. Novo. Em que as antigas lógicas passam, para dar lugar a novas. Em que a Promessa de Abraão se realiza em favor de todos os povos (Gal 3,8); a lei servia como pedagoga até que se inaugurasse o tempo da Nova Aliança, em Cristo: «Deste modo, a Lei tornou-se nosso pedagogo até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Uma vez, porém, chegado o tempo da fé, já não estamos sob o domínio do pedagogo. É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé» (Gal 3,24)
Assim, o muro da separação entre judeus e gregos é rompido, formando um só Homem Novo (Ef 2,14), onde «já não há judeu nem grego, homem ou mulher, escravo ou homem livre, pois todos são um só em Cristo Jesus» (Gal 3,28). É uma Nova Humanidade, onde todas as leis e lógicas do homem velho, do egoísmo, do medo, da divisão e separação, são renovadas e transformadas pela força do Espírito de Cristo.
E porquê? Porque no centro, no centro desta experiencia de Paulo, e das comunidades, está a descoberta da Salvação em Cristo: somos Filhos de Deus. Somos Filhos gerados, abraçados, adoptados, no Filho. No Cristo de Deus. «Mas, quando chegou a Plenitude dos Tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: "Abbá! - Pai!"» (Gal 4,4-6)
E que tal se neste Natal, o começo da Hora Pascal em Jesus, celebrássemos a Liberdade que nos é dada, oferecida, proposta como Amor de Graça, Liberdade de Vida Nova, Vida de Filhos, no Filho? Em Jesus? «É que a lei do Espírito que dá a vida libertou-te, em Cristo Jesus» (Rom 8,2)
um grande abraço!
sábado, 6 de dezembro de 2008
o Seu Filho Unico...
(Is 9,6)
Deus é Amor. E o Amor de Deus manifestou-se desta forma
no meio de nós:
Deus enviou ao mundo o seu Filho Unico,
para que, por Ele, tenhamos a Vida.
O seu Filho Único… Estás a ver o que significa dizer: Único. Filho Único. Para um Pai, um Abbá, o seu Filho, o Filho Único, é tudo o que tem. É tudo para Ele. Tudo. Não fica mais nada. Para um Pai, o seu Filho é tudo.
E é esse Filho Único do Pai, «que está no Seio do Pai» (Jo 1,18) que nos é dado. Enviado ao mundo, Enviado. Para que por ele tenhamos a Vida. Pela vontade do Pai: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16). De facto, diz João: «Tanto amou Deus o mundo…» e continua: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,17). Não um Deus que condena, que se separa e desiste deste mundo, desta História, desta Humanidade. Um Deus que «tanto ama o mundo»…
Todo o Novo Testamento parte do encontro com Jesus e da Experiencia Pascal da sua Ressurreição. É um Acontecimento que está por detrás de tudo, um Acontecimento que marca a vida dos discípulos, um ponto na sua vida de mudança, de viragem. Como um novo nascimento: «Vós tendes de nascer do Alto» (Jo 3,7). Jesus. Aquele Homem, a sua Missão, o que Deus faz acontecer n’Ele, por nós.
A partir da Experiencia Pascal, em contexto comunitário e celebrativo, os discípulos vão aprofundando a sua compreensão do mistério de Jesus. Da sua vida e missão. O que acontece n’Ele, em Jesus, por nós, revelado e inaugurado de modo pleno na sua Ressurreição, não vem de nós. Não acontece pelas nossas conquistas, capacidades, esforços. Vem de Deus. É escolha, Eleição de Deus. Só Deus pode gerar na história um Homem assim, e gerar n’Ele uma salvação assim para nós. Como só Deus podia libertar o Povo do Egipto, ou dar uma descendência, um Povo a Abraão.
Dizer que é Deus que suscita um Homem assim, Jesus, para nós, significa dizer que n’Ele acontece um mistério de Eleição, de Missão, de Encontro. Com Deus. Por isso o Novo Testamento lhe chama o Enviado, o Ungido ou o Cristo. Ungido pelo Espírito Santo, na tradição dos profetas e das grandes personagens bíblicas. Mas é mais que um Profeta. Os discípulos têm isso claro: é mais que um profeta. É o Ressuscitado. O Senhor. O Salvador, ou o Mediador da Salvação para nós. N’Ele acontece um Dom pleno, um Dom total de Deus para a Humanidade. A Ressurreição.
Bom. O que tento exprimir é isto, deixemo-nos de rodeios: para o Novo Testamento, estou convencido disto, o mistério que acontece em Jesus na sua Ressurreição é tão grande, tão grande, que nos atira para o melhor. O melhor de Deus. Um mistério tão grande! Um mistério de total, plena doação de vida, entrega de Vida, de Amor, de Fidelidade. Como um Pai para o seu Filho. Filho Único. Total, plena entrega de Vida e Amor. De um Pai para um Filho.
E depois o Novo Testamento dá a queda, o derramar-se, o descair-se totalmente: deu-nos. Enviou-nos. Por nós. Para nós. Para Salvar o mundo, a História, a Humanidade, para lhe inaugurar num gesto de Aliança total a sua Plenitude, a sua Vocação máxima, total. A Ressurreição, a plena comunhão Eterna e Filial com Deus. O Seu Filho Único. Unigenito. Tudo para Ele, Tudo para o Pai. Um Todo, um Amor total e pleno no qual somos abraçados e gerados na fecundidade… do Espírito Santo, «Amor de Deus derramado nos nossos Corações» (Rom 5,5), pelo qual podemos clamar, como o Filho, Abbá, Pai (Gal 4,6).
O Novo Testamento proclama um mistério de Salvação tão pleno e total que se revela como a Relação plena e total de um Pai para com um Filho. Um Amor total, eterno, chamado Espírito Santo. Um Mistério de Amor e Comunhão que acontece para nós, que se abre a nós, a esta Humanidade que somos, entrando, encarnando na nossa História, neste Rosto que amo, chamado Jesus de Nazaré. Um Amor de Pai e de Filho no qual somos abraçados, gerados, assumidos. E todos, e cada um de nós, pertence a este Mistério de Amor. Total, Pleno. De um Abbá que nos ama, a cada um de nós em comunhão, como ao seu Único Filho. Ao seu Tudo. Que é para nós, que somos nós.
Palavras…
Um grande abraço!
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
um Filho. do Seio do Pai...
«O Filho Unigénito, que é Deus e está no Seio do Pai,
Um Filho nos foi dado… Um Filho nasceu para nós, um Filho começa a ser gerado, para nós, na História, nesta História da Humanidade…
Agora pouso no chão, ao meu lado, todas as preocupações, as perguntas, as dificuldades que me aparecem. Elas estão aí, vão comigo, e não quero fugir delas. Mas agora, dou-me ao direito de as pousar no chão. Como um cessar-fogo, como um princípio de Perdão…
Agora deixa-me contemplar este Mistério, este Projecto que Paulo canta no hino de Efésios 1,3-14 como um Projecto do Pai, sonhado desde toda a Eternidade porque um Projecto destes só pode ter horizontes de Eternidade, este Projecto revelado Agora, no Agora de Paulo e no nosso, em Jesus, sim, em Jesus. Para nós: «Foi assim que Ele nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo» (Ef 1,4). Sim, as preocupações, os desafios vêm a seguir, com Paulo a responder na sua Carta. Mas agora, é para cantar isto. Tenho de o fazer. Só assim faz sentido, só assim pode ser.
Um Filho nos foi dado… Que melhor frase para repetir na noite de Natal, deste Nascimento de 25 de Dezembro que ninguém sabe se foi mesmo a data do nascimento deste Homem chamado Jesus, nem interessa. Temos de o celebrar, tenho de o celebrar. Tenho de o repetir: um Filho nos é dado. Por Deus. É Dom de Deus, sempre Dom de Deus. Acção de Deus. Para nós. Um Filho. Para sermos Filhos nele. Isto é o mais importante. Vale a pena cantá-lo com as palavras de Paulo:
«Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo - é pela graça que vós estais salvos - com Ele nos ressuscitou e nos sentou no alto do Céu, em Cristo.
Pela bondade que tem para connosco, em Cristo Jesus, quis assim mostrar, nos tempos futuros, a extraordinária riqueza da sua graça. Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie.»
A partir desta Explosão que é a Experiencia Pascal de reconhecer e abrir-se à Ressurreição de Jesus, o de Nazaré, toda a sua Vida é iluminada. Toda a vida de Jesus. Desde o seu nascimento. Através da lógica bíblica da Eleição, Deus vai actuando na história da Humanidade, apresentada de maneira particular na história de Israel, como salvando e beneficiando todo o Povo através de figuras concretas. Assim, em Abraão Deus está a beneficiar uma Multidão de povos com a Promessa, em Moisés Deus está a beneficiar o Povo com a Libertação… Em Jesus de Nazaré, um dos nossos, Homem, que não se envergonhou de nos chamar Irmãos (Heb 2,11), Deus toma partido por toda a Humanidade, beneficiando-a com o Dom… da Filiação.
E aquele grito da 1ª Carta de João: «Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar Filhos de Deus; e, realmente, o somos» (1Jo 3,1). A Salvação, o Amor de Deus a acontecer na nossa História, não acontece por decreto, por “varinha mágica” ou por uma prenda, embrulhadinha, que cai dos céus. Acontece por pessoas, acontece a partir da nossa história e das suas possibilidades. E o maior Dom, o Dom pleno e total que o Abbá tem a oferecer à sua Criação, à sua Humanidade, o Dom do seu Amor que nos abraça e nos gera como Filhos, acontece, imagine-se, por um Homem. Sim, um dos nossos. Um Homem. Que por um mistério de comunhão pessoal, de preparação, de abertura – de Eleição – o Espírito Santo que nele actua, nele permanece (Jo 1,32) para já não sair, o Espírito Santo gera-o numa relação plena de confiança, entrega e abertura filial ao Abbá, Abertura plenamente revelada na sua morte e Ressurreição.
E então, se o Espírito Santo nele actua gerando-o como Filho, o mesmo Espírito torna-se património de toda a Humanidade. Assumindo-a, abraçando-a numa Comunhão Filial e Fraternal. Todos, toda a Humanidade. Assumida, divinizada na linguagem dos primeiros cristãos, na própria Familia de Deus, no próprio Amor do Abbá. E então, todos somos beneficiados. Nele, naquele Homem. O Filho. Para nós. Dado.
E quando este Homem nasce, podemos verdadeiramente proclamar:
Desculpa se pareço confuso, ou a linguagem muito elaborada. Deixa-me que as coisas me saiam, assim, pelo menos agora. Vou continuar a partilhar esta Descoberta contigo nos próximos dias, assim. Permite-me, sem preparação, sem esquemas. Só a descobrir esta Alegria. E se me dás licença, seguimos a lógica do Novo Testamento, esses testemunhos dos nossos pais e irmãos: tá bem, as questões, as dificuldades, as exigências estão aí; mas deixem-nos cantar este Mistério, este Dom que nos é Doado, este Acontecimento que não é uma conquista ou mérito nosso. É Dom. Um Filho.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
um Filho nos foi dado...
A dada altura, o autor da Carta aos Hebreus vira-se e diz: «Deixando de parte os ensinamentos elementares sobre Cristo, elevemo-nos a coisas mais maduras» (Heb 6,1). Estamos ainda a um mês do Natal, e o Advento como tempo litúrgico possui em si mesmo uma dimensão celebrativa muito própria, a da Espera(nça) que não podemos perder. Em todo o caso, é pena que fiquemos tanto no «rés-do-chão» na celebração deste Natal; deixas-me partilhar contigo uma descoberta que tenho vindo a fazer, mesmo que se possa tornar de leitura difícil? É que não tenho muitas oportunidades para o fazer…
Esta frase do profeta Isaias tem-me acompanhado desde há umas semanas, a ponto de o ter partilhado com amigos próximos. Esta frase, do capitulo 9, surge como um grito de alegria e esperança do profeta diante de uma situação difícil para Israel: em pleno séc. VIII a. C., Israel está em guerra e em risco de perder a independência. Isaias dirige-se ao rei de Israel, Acaz, e aponta-lhe um sinal de grande esperança: vê, não seremos derrotados, Israel continuará livre, e o mesmo sinal disso é que te nasceu um menino, um filho; o reino continuará. Isaias referia-se ao filho de Acaz, acabado de nascer, chamado Ezequias, em quem Isaias deposita grandes esperanças a ponto de lhe chamar o Emanu-el, Deus Connosco (Is 7,14). Vale a pena ler o texto na sua totalidade:
«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles. Multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo; alegram-se diante de ti como os que se alegram no tempo da colheita, como se regozijam os que repartem os despojos.
Pois Tu quebraste o seu jugo pesado, a vara que lhe feria o ombro e o bastão do seu capataz, como na jornada de Madian. Porque a bota que pisa o solo com arrogância e a capa empapada em sangue (sinais de guerra) serão queimadas e serão pasto das chamas.
Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz.
Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites, sobre o trono de David e sobre o seu reino. Ele o estabelecerá e o consolidará com o direito e com a justiça, desde agora e para sempre. Assim fará o amor ardente do Senhor do universo» (Is 9,1-6)
Vemos que os temas que predominam neste sonho de Isaias, sonho digno do Reino de Deus, é a Paz, a Alegria, o Direito e a Justiça. É o grande sonho profético, que seria instaurado por Deus através de um rei, e com o qual o Novo Testamento e certamente Jesus se identificam.
Bom mas eu permito-me cometer um daqueles principais erros na leitura da Biblia: o “tirar” uma frase do seu texto e contexto e lê-la isoladamente (que de facto costuma ser fonte de muitos erros na interpretação bíblica). Para mim, esta frase, «Porque Menino nos nasceu, um Filho nos foi dado» tem-me atirado sempre para o mistério de Jesus, e o seu mistério para mim, para nós. E é o que continuarei a partilhar nos próximos dias...
sábado, 29 de novembro de 2008
não se envergonha de nos chamar de Irmãos...

«De facto, tanto o que santifica, como os que são santificados, provêm todos de um só;
razão pela qual não se envergonha de lhes chamar Irmãos»
Não se envergonha de nos chamar de Irmãos... Há frases e palavras que me batem por completo, que me ficam, marcadas na cabeça, que se repetem, que se lêem à luz de toda a História, que me transportam... E me levam a compreender, a ver melhor, mais fundo, o que de facto acontece em Jesus de Nazaré, e o que nele acontece para mim...
Não se envergonha de chamar-lhes Irmãos... Falamos de Jesus de Nazaré, claro, que a partir da Experiencia Pascal é reconhecido como o Ressuscitado: n'Ele, por Ele a Vida irrompe na nossa História de uma forma nova e plena, a Vida de Deus... E aquele Homem, aquela Pessoa, torna-se Património Universal da Humanidade, de toda a História: a sua vida torna-se Irrupção da Vida de Deus, da Vida do Pai, é plenamente gerado como Filho, no poder do Espírito Santo: «constituído Filho de Deus em poder, segundo o Espírito santificador pela Ressurreição dos mortos» (Rom 1,4).
E quando os primeiros discípulos, os nossos pais na Fé de quem recebemos esta pérola que é o Novo Testamento, proclamam com maior alegria possivel que aquele Homem Ressuscitou, proclamam também logo a seguir: «Sim, Ressuscitou, aquele que viveu connosco, que caminhou connosco, que comeu connosco... que nos chamou irmãos, da nossa carne, da nossa Família, do Povo de David, da nossa Humanidade. Jesus. Filho de José, de Nazaré. Ressuscitou.» É dos nossos; e aconteceu-lhe o que de melhor, de radicalmente melhor e novo podia acontecer: ele, que sempre viveu na fidelidade a Deus, na confiança e obediencia, como um Filho, a sua vida é assumida e plenificada por Deus, tornando-o o Senhor da Hístória. Porque que um homem seja Ressuscitado na Vida de Deus, significa que um Homem entra no Poder de Deus... Isto é Novo.
E Ele nunca se envergonhou de nos chamar irmãos... Construiu a sua vida na total entrega aos irmãos, caminhando pelas estradas da Galileia e Judeia, acolhendo, escutando, anunciando, partilhando... Ele, que disse: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22,27). Ele, de quem foi dito: «Andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo mal, porque Deus estava com Ele» (Act 10,38). Uma vida construida neste jeito, deste modo, na total entrega, só pode conduzir a uma morte que é o culminar desta entrega fiél e incondicional. E daqui nasce logo uma consequencia, imediata, para os discípulos: Ele, que na sua vida se entregou totalmente pelos irmãos, agora, Ressuscitado, gerado na Vida do Abbá, também se entrega totalmente como o Salvador. Para nós.
Se a Ele aconteceu isto, também nós participaremos dessa Boa-Noticia, desse Acontecimento: «Por um homem vem a ressurreição dos mortos» (1Cor 15,21). O que lhe acontece de Bom, de radicalmente Bom, não é só para Ele: é para Nós. Porquê? Porque nunca se envergonhou de nos chamar de irmãos: está totalmente solidário connosco, como o foi na sua história. Jesus, de Nazaré, o Ressuscitado, é assim: vive ao nosso Serviço. Hoje, partilhando connosco a sua Vida, a Vida do Abbá, o Espírito Santo. Está connosco.
E quando entra na Vida de Deus, pela Páscoa da morte, entra abraçado a uma multidão incontável de homens e mulheres, toda a Humanidade: «Apareceu na visão uma multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro» (Apc 7,9). E tu, e nós, que estamos neste momento a construir a nossa história como pessoas, já estamos agarrados, abraçados ao Ressuscitado, que assume a nossa vida já com horizontes de eternidade...
Não se envergonha de nos chamar de Irmãos... é dos nossos. É nosso, está por nós, para nós. E nós n'Ele, por Ele, para Ele. Agarrado, abraçado. Com toda a força de uma relação de irmãos. Mais forte que o sangue, mais forte que tudo. O Filho. E nós, n'Ele, no Filho. «Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1,12). Irmão, nosso Irmão... O Primogénito. «De tal modo que Ele é o primogénito de muitos irmãos» (Rom 8,30).
um grande abraço!




