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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Afonso de Ligório III: a Oração, caminho no Amor


“O meio mais necessário para a vida espiritual e para ganhar o amor de Jesus Cristo, é a oração (...) Por este meio Deus nos faz conhecer o grande amor que nos tem” (Prática de Amar a Jesus Cristo). O Seguimento de Jesus é viver uma Aliança com ele. É comprometer a nossa vida com ele e com o Reino do Pai. É um caminho de transformação pessoal, no Espírito, rumo ao Homem Novo. Como vimos, para Afonso, este caminho espiritual assenta num processo de conversão e no procurar viver a vontade de Deus-Pai a meu respeito.

Este processo é exigente. É claro que não bastam as nossas forças, a nossa boa-vontade. Só acontece como resposta de amor ao Deus que nos amou primeiro, o próprio Pai nos assiste neste caminho, que acontece no Espírito: «Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu pedirei ao Pai que vos envie um outro Paráclito, que esteja convosco sempre» (Jo 14, 15-16). No pensamento de Afonso, é a Graça de Deus que nos permite conhecer e viver a sua vontade: “A oração é o meio mais necessário e certo de alcançarmos todas as graças necessárias para a salvação” (O grande meio da Oração, n°1).

Para Afonso, a atitude de oração é todo o contrário da atitude de auto-suficiencia, egoísmo e isolamento: é a atitude da abertura, do acolhimento do grande dom de Deus em Cristo, o Espírito Santo, acolhimento da sua Graça, da sua Salvação para nós. É o motor de uma vida de Aliança, de comunhão pessoal, de caminhar na vontade do Pai que é a nossa salvação e de ter a força do Espírito para as difíceis opções de conversão.
A oração (que, mais do que actos ou momentos, é uma atitude fundamental de acolhimento e abertura ao Amor de Deus-Pai) torna-se, por isso, condição de salvação, porque condição de viver no Amor, a Deus e aos irmãos: por isso a célebre máxima de Afonso “quem reza se salva, quem não reza certamente se condena” (Ibid). «Permanecei em mim e eu em vós. Como o sarmento não pode dar fruto por si só, se não permanecer na videira, tampouco vós, se não permaneceis em mim. Eu sou a videira, vós os sarmentos: quem permanece em mim e eu nele, dará muito fruto; pois sem mim não podeis fazer nada» (Jo 15, 4-5).

É no rosto amoroso de Deus que é Pai, revelado na história da Salvação em Jesus Cristo, que Afonso deposita a possibilidade da vida de Fé e Oração. “Jesus Cristo, na oração do Pai-Nosso que Ele ensinou para obter todas as graças necessárias para a nossa salvação, como nos ensina a chamar a Deus? Não “Senhor”, não “Juiz”, mas Pai; Pai-Nosso, porque quer que nós busquemos de Deus as graças com aquela confiança com a qual um filho, pobre ou enfermo, busca o alimento ou o remédio ao seu próprio pai” (Necessità della Preghiera). Por isso convida ao diálogo familiar e confiante com o Abbà: “Tende o costume de lhe falar a sós, familiarmente, com confidencia e amor, como a um vosso amigo” (Modo de falar continua e familiarmente com Deus, n°6).

Diante da eficácia ou não da oração (que está sempre em função da caridade), Afonso apresenta determinadas condições. Uma delas é precisamente a confiança: esta assenta na fidelidade que o Pai demonstra aos seus filhos. Significa comprometer-me com o que peço, colaborar para que aconteça, arriscar as consequências. Sem esta confiança e abertura, saímos derrotados à partida: é permanente que, depois de um milagre, Jesus diga «A tua Fé te salvou» (Lc 7, 50; 8, 48; 17, 19; 18, 42). É abrirmo-nos à força de Deus em nós: “Toda a nossa força consiste em colocarmos toda a nossa confiança em Deus e em nos calarmos, quer dizer, em repousarmos nos braços de sua misericórdia, sem confiar em nossos esforços e nos meios humanos” (O grande meio da Oração, p.72).

Outra condição é a humildade: como atitude de abertura, a oração “baixa” todas as nossas defesas à acção de Deus, como podem ser o orgulho e a soberbia. É importante ler o exemplo apresentado por Jesus do «fariseu e do colector de impostos no templo, para alguns que confiavam em sua própria honradez e desprezavam os demais» (Lc 18, 9-14).

Por fim, a perseverança: “a graça da salvação não é uma única graça, mas uma cadeia de graças que depois todas se unem com a graça da perseverança final. Ora, a esta cadeia de graças deve corresponder uma outra cadeia, a das nossas orações” (Necessità della Preghiera). As transformações fundamentais da nossa vida não acontecem de um dia para o outro: são um caminho, um processo que precisa de renovar-se dia após dia na oração.

É na oração mental que o crente torna seu, assume, explicita numa linguagem sua a Palavra escutada, lê a sua vida à luz desta e responde com “afectos”, com o diálogo tu-a-tu com Deus-Pai, e com decisões de conversão pessoal. “Devemos pedir a Deus a graça de não pensar, de não procurar, e de não querer senão o que Deus quer, pois que toda a santidade e perfeição do amar consiste em uniformizar-se a nossa vontade com a vontade de Deus” (O grande meio da Oração, p.63).


E com estes terminam os três textos dedicados às pistas que Afonso propõe no Seguimento de Jesus. Para todos os que costumam acompanhar por aqui, um bom fim-de-semana e uma boa festa de S. Afonso de Ligório!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Afonso de Ligório II. A Resposta ao Amor

“Toda a santidade e perfeição da alma consiste em amar a Jesus Cristo”: já vimos que a proposta espiritual de Afonso, a sua proposta de vida crista, é uma resposta de amor e gratidão ao Amor revelado em Jesus Cristo.

Naturalmente que é impossível corresponder ao Amor de Deus: este será sempre Graça, plenitude, perfeição. Mas a resposta tem de acontecer. Para Afonso, diante de um Cristo que se entrega até à Cruz, só faz sentido entregar-se totalmente a Ele. “Ó meu Jesus, meu Senhor, meu Redentor, quanto não fizestes para me obrigar a amar-vos?! Quanto vos não custou o Amor que me tendes? Muito ingrato seria eu se me contentasse com amar-vos apenas friamente, depois de terdes dado por mim o sangue, a vida, tudo, e a vós mesmo. Se vós morrestes por mim, vosso pobre escravo, é bem de razão que morra por vós, meu Deus, e meu tudo” (Considerações sobre o Estado Religioso, n° 10).

O Homem está talhado para viver no Amor. É na comunhão que se torna imagem e semelhança de Deus que é Amor, e é no Amor que responde ao Amor Criador e Salvador de Deus. Afonso intuiu esta chamada universal à santidade: «É um grande erro o que afirmam alguns: Deus não quer todos santos. Não, diz S. Paulo: Esta é a vontade de Deus a vosso respeito, a vossa santificação (1Ts 4, 3). Deus quer-nos todos santos, cada um no seu estado: o religioso como religioso, o leigo como leigo, o sacerdote como sacerdote, o casado como casado, o negociante como negociante, o soldado como soldado, e assim a respeito de qualquer estado» (Prática de Amar a Jesus Cristo). É interessante confrontar com o que diz o Concilio Vaticano II: «Se todos, na Igreja, não caminham na mesma via, todavia são todos chamados à santidade e têm igualmente a bela sorte da Fé pela justiça de Deus» (Lumen Gentium n°32).

Todos, cada um no seu estado de vida e nas suas possibilidades (nos seus talentos, segundo a linguagem evangélica – cf. Mt 25, 14-30), devem corresponder a este Amor de Deus percorrendo um caminho de santidade. A proposta de Afonso é para todos, mesmo para os mais simples. No seu apostolado, seja com os comerciantes das Capelas do Entardecer, seja com os camponeses das missões populares, a todos chamará à conversão, a uma opção por Cristo e a um desejo de se fazer santo.

Para Afonso, esta resposta de Amor, este caminho de santidade, acontece pela uniformidade com a vontade de Deus. «Toda a nossa perfeição consiste em amar o nosso amabilíssimo Deus: A caridade é o vínculo da perfeição (Col 3, 14). Mas depois, toda a perfeição do amor a Deus consiste em unir a nossa vontade à sua santíssima vontade. Este é já o principal efeito do amor» (Uniformità alla Volontà di Dio).
Mais do que fazer coisas, obras, é esta a opção fundamental que o crente deve assumir, e que deve ser a base de todas as suas acções: «É certo que agradam a Deus as mortificações, as comunhões, as obras de caridade para com o próximo, mas quando? Quando são segundo a sua vontade. Mas quando não são a vontade de Deus, não somente Ele não as aprecia, mas abomina-as e as castiga» (Ibid). «Não quisestes sacrifícios nem oferendas, mas me formaste um corpo. Não te agradaram holocaustos nem sacrifícios expiatórios. Então eu disse: Aqui estou, eis que venho para cumprir, ò Deus, a tua vontade» (Heb 10, 5-7).

Afonso sabe que, ao caminhar neste encontro com o Pai e no discernir a sua vontade a nosso respeito, estamos a caminhar no que é melhor para nós: “E estejamos certos de que, quando queremos o que Deus quer, só queremos o nosso maior bem, porque seguramente Deus não quer senão o que é melhor para nós” (Prática). Sabemos que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, dos chamados segundo o seu desígnio (Rm 8, 28). Viver esta comunhão com Deus, que abraça toda a minha vida, significa aceitar que a responsabilidade pela minha própria vida e felicidade deixa de estar só nas minhas mãos, e passa a estar também nas mãos de Deus. Não estou sozinho! E isto é uma grande fonte de confiança...

Numa carta aos noviços da Congregação, Afonso apresenta aponta algumas pistas de discernimento. Uma é quanto à vontade de querer servir o Senhor e o seu Reino. O fim é bom, a questão é o como: “Quem for tentado com este pretexto de maior utilidade para o próximo, tenha presente que o maior bem que podemos fazer é o que Deus quer que façamos” (Conselhos aos Noviços, n°7). É o mistério de consagração, mistério de Fé, tal como o próprio Jesus: só o próprio Pai sabe o que é melhor para o seu Reino, e o Espírito Santo nos guia e potencializa os nossos talentos, tornando-os carismas ao serviço desse Reino. Muito bem, servo bom e fiel; foste confiável no pouco, eu te ponho à frente do importante (Mt 25, 21). Nem todo aquele que me disser: Senhor, Senhor! entrará no Reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do Céu (Mt 7, 21).

Este caminho que Afonso propõe de resposta de Amor e comunhão pessoal com Deus, torna-se caminho de . Partilho a minha vida no que mais profundo e decisivo possui – as minhas opções, projectos, decisões – com a vontade de Deus-Pai, sintonizando-me pela Palavra, construindo o seu Reino. Em linguagem bíblica, é construir uma casa sobre a Rocha: Assim, pois, quem escuta estas minhas palavras e as põe em prática parece-se com um homem prudente que construiu a casa sobre a rocha (Mt 7, 24).

Unido a esta comunhão de vontades no caminho espiritual está o processo de conversão. Esse processo reúne as consequências da minha opção fundamental por Cristo que, passo a passo, deve preencher toda a minha vida. Afonso é radical: “No caminho de Deus não avançar é retroceder” (Prática). A conversão é o processo de libertação pessoal de tudo o que me impede ou condiciona na minha entrega a Jesus Cristo. Não que o amor a Deus seja exclusivista: Quem ama a Deus ame também o próprio irmão (1Jo 4, 21). Trata-se de libertar-me de tudo o que me impede de amar mais e melhor, seja a Deus como os irmãos: critérios, atitudes, opções, hábitos, etc. “Feliz aquela alma que chega a tal estado em que se lhe torna insuportável qualquer coisa que não seja Deus” (Dell’Amore Divino, n° 11), ou, podemos incluir, que não seja de Deus ou para o seu Reino.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Afonso de Ligório: I. A Boa-Notícia do Amor


No próximo sábado 1 de Agosto celebramos a festa de Afonso de Ligório, já aqui conhecido como o fundador da Congregação do Santíssimo Redentor (CSsR). Para quem quiser conhecer um pouco a sua história pode ver no blog Redentoristas. Por aqui vamos dedicar os próximos dias a conhecer um pouco o anúncio de Afonso, o jeito com que proclama o Evangelho de Jesus e a Espiritualidade que propõe no seu Seguimento. São textos um pouco longos, com algumas citações de Afonso a quem devemos ler com a linguagem própria do seu tempo. Boa caminhada!


«Quem considera o amor imenso que nos demonstrou Jesus Cristo na sua vida e especialmente na sua morte, em sofrer tantas penas para a nossa salvação, não é possível que não reste ferido e inspirado a amar um Deus assim enamorado pelas nossas almas» (Saette di Fuoco, n°1). Não há dúvida de que a alimentar uma vida assim intensa e uma vontade tão radical de ser fiel como a de Afonso, estava uma experiencia enorme do Amor de Deus revelado em Cristo. Afonso torna seu o Evangelho, a Boa-Nova, preocupa-se em anunciá-la e dedica a sua vida em levar os seus irmãos a corresponder a este Amor. «Porque o Amor de Cristo nos constringe, ao pensarmos que, se um morreu por todos, todos morreram. E morreu por todos, para que os que vivem não vivam para si, mas para quem por eles morreu e ressuscitou» (2Cor 5, 14).

Precisamente na mais conhecida obra de Afonso, a Prática de Amar a Jesus Cristo, antes de desenvolver as pistas para viver o amor segundo o hino de Paulo de 1Cor 13, Afonso apresenta os “dons”, os “laços de Amor” com que Deus “prende” os homens, e descobre-os na História da Salvação de Deus com a Humanidade: a Criação, a Encarnação, a Paixão e Redenção, e a Eucaristia.

Criação: «Depois de ter dotado o Homem de alma com as potencias feitas à sua imagem: memória, entendimento e vontade; e de corpo com os seus sentidos, criou para ele o céu e a terra, e tantas outras coisas, todas por amor do Homem: os céus, as fontes, as montanhas, as planícies, os metais, os frutos e tantas espécies de animais, a fim de servirem o Homem, e o Homem o amar a Ele em agradecimento de tantos dons» (Prática de Amar a Jesus Cristo). Para Afonso, a contemplação dos dons da Natureza torna-se oração de agradecimento a Deus-Pai, que ama o Homem de modo tão sublime!

Encarnação: Mas Deus não estava contente, segundo Afonso: «Para conquistar todo o nosso amor, a tudo acrescentou o dar-se a sim mesmo todo a nós. Sim, o eterno Pai chegou ao extremo de nos dar o seu próprio e único Filho» (Ibid). É em Jesus Cristo que Deus revela todo o Seu Amor, o “excessivo Amor” pelos homens, pois «juntamente com o Filho deu-nos todos os bens, a Sua Graça, o Seu Amor e o Paraíso» (Ibid). «Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos vai dar de presente todo o resto com Ele?» (Rom 8, 32).

Redenção: A Encarnação acontece para a Salvação da Humanidade. Afonso, homem do seu tempo, lê a Redenção na morte expiatória na Cruz. O interessante é que, para Afonso, a Cruz tem um significado maior: «Mas porque é que, podendo Ele remir-nos sem sofrer, quis escolher a morte, e morte de Cruz? Para nos mostrar o Amor que nos tinha» (Prática). É aí que Afonso lê e recolhe a sua espiritualidade: a Cruz, mais do que uma morte horrenda exigida por um deus-tirano, torna-se a manifestação voluntária de todo o Amor de Cristo por nós. «Não era tanto o que Jesus sofrera, quanto o Amor que nos mostrara nos seus sofrimentos por nós, o que nos obriga e quase nos força a amá-lo» (Prática). «Isto é o mesmo que acreditar num Deus enlouquecido por amor dos homens» (Consideraçoes sobre o Estado Religioso, n°10). «Sabendo que Jesus, verdadeiro Deus, nos amou até sofrer por nós a morte e morte de Cruz, não é ter os nossos corações sob uma prensa, e senti-la apertar com força, e espremer o amor com uma violência que é tanto mais forte quanto mais é amável?» (Saette di Fuoco, n°27)

Por isso, diante das rígidas correntes morais e ascéticas do seu tempo, Afonso centra o seu anuncio no Amor de Cristo que se entrega até ao fim, até à Cruz, na fidelidade ao Projecto Salvador do Pai. Amor esse que é revelação da plenitude de misericórdia e salvação que encontramos no Pai, escolhendo Afonso para o lema da sua Congregação o Salmo 130: «Nele é abundante a Redenção». E um Pai é quem Afonso apresentará aos seus sobrinhos, quando o seu irmão Hércules morre: «Assentai no coração o temor de Deus como o vosso Senhor; mas, ainda mais, esforçai-vos em amá-lo como Pai: Pai, nome dulcíssimo. Sim, é deveras vosso Pai: amai-o portanto com ternura. É Pai bondoso, doce, amoroso, terno, benéfico, misericordioso, outros tantos títulos pelos quais deveis querê-lo com afecto cordial, terno, agradecido».

Eucaristia: Aqui Afonso exalta a Aliança que Cristo inaugura com a Humanidade, celebrada na Ceia Pascal e continuada na Eucaristia. A Eucaristia representa, para Afonso, a comunhão pessoal que o Ressuscitado procura criar com cada crente, a fim de o conduzir ao amor e à perfeição. É bonito ver que, numa época de grande escrupulosidade e rigidez moral, Afonso defenda a comunhão frequente; isto porque a considera um meio para caminhar no amor a Jesus Cristo, e não um fim a que se deve estar perfeitamente preparado. Citando S. Francisco de Sales, declara: «Duas classes de pessoas devem comungar com frequência: os perfeitos para se conservarem na perfeição, e os imperfeitos para chegarem à perfeição» (Prática).

Por estes 4 marcos Afonso celebra e proclama a Boa-Nova de um Deus que é Amor e que constrói uma história de Amor com os homens. História que é mais forte que todo o pecado e toda a infidelidade do Homem. Deste Amor revelado e demonstrado, nascem três sentimentos, três atitudes que animam todo o caminho de santidade, de resposta de Amor a Cristo:

Confiança: nas provas de Amor, de entrega e fidelidade que Deus demonstrou em Cristo; numa época muito maracada pelo medo quanto à da salvação pessoal, ao juizo e à morte Afonso declara: «Procederei com confiança, esperando com firmeza que nada do que for necessário para a salvação me há-de ser negado por Aquele que tanto fez e sofreu pela minha salvação» (Prática). «No Amor não há lugar para o temor; ao contrário, o amor desaloja o temor. Pois o temor se refere ao castigo, e quem teme não alcançou um amor perfeito. Nós amamos porque Ele nos amou primeiro» (1Jo 4, 18-19).

Esperança: é muito interessante que Afonso, centrando o objecto da esperança na vida eterna, a une à caridade, convertendo-a num compromisso de vida: «O objecto primário da esperança crista é Deus, como d’Ele gozam as almas no Reino da Bem-Aventurança. Mas não julguemos que a esperança de gozar de Deus no Paraíso seja obstáculo à caridade, pois que a esperança está inseparavelmente unida à caridade, que no paraíso se aperfeiçoa e encontra o seu complemento» (Prática). Num tempo de grande incerteza, com a divulgação da ideia de uma salvação restrita e selecta apenas para alguns “perfeitos”, Afonso anuncia a universalidade da salvação: “Ele deseja que todos se salvem e ninguém se perca, como muito claramente ensinaram S. Paulo e S. Pedro: Deus quer que todos os homens sejam salvos (1Tm 2, 4); O Senhor usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam (2Pe 3, 9)”.

Gratidão: “Jesus Cristo, como Deus, merece por si só de nós todo o Amor. Mas Ele, com o Amor que nos manifestou, quis pôr-nos, por assim dizer, na necessidade de O amar, pelo menos por gratidão, por quanto fez e padeceu por nós. Ele amou-nos muito para ser por nós muito amado” (Prática). A gratidão é uma palavra-chave na espiritualidade de Afonso. É ela que confere o rosto alegre da sua benignidade pastoral e moral. É ela que impede que a sua proposta ascética não seja um sistema ético de aperfeiçoamento pessoal pelas virtudes, mas se funde numa relação de Amor com Cristo. Porque todas as opções e atitudes do crente se tornam respostas de amor, consequências do amor demonstrado, procura de agradar a este Deus que nos ama tanto. “Não podemos duvidar que Deus nos ama e nos ama verdadeiramente; e porque nos ama tanto, Ele deseja que nós O amemos de todo o coração” (Dell’Amore Divino, n°3).

Estas três atitudes, confiança, esperança e gratidão, que brotam da escuta da Palavra e da experiencia de um Amor tão grande, são o fundamento da espiritualidade de Afonso. São todo o contrário do temor, do perfeccionismo egoísta que se torna farisaísmo. São as atitudes que Jesus convida os seus discípulos a ter diante do Pai: Não fiqueis perturbados: crede em Deus e crede em mim (Jo 14, 1).
Um grande abraço!

sábado, 18 de julho de 2009

Santíssimo Redentor


«Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele»
(João 3,16-17).

No 3º domingo do mês de Julho, celebramos como redentoristas a festa do Santíssimo Redentor, a quem é dedicada a Congregação (CSsR: Congregação do Santíssimo Redentor). É uma oportunidade para celebrar de modo especial o mistério da Redençãoa Acção de Deus, a força do seu Amor no seio da nossa história muito marcada pelo sofrimento e pelo pecado.

A vida de Jesus é o retrato perfeito desta dinâmica da Redenção; os evangelistas testemunham, logo no princípio do seu ministério, esta proclamação de Jesus dirigida a um homem paralítico (Mt 9,1-8; Mc 2,1-12; Lc 5,17-26): «Filho, os teus pecados estão perdoados». E de acordo com a verdadeira lógica bíblica, o Perdão corresponde à verdadeira cura e libertação da pessoa, cujo mal do qual é vítima e culpada se pode representar na incapacidade de caminhar: «Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, Eu te ordeno - disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa». E descobrimos que no centro do Evangelho, da Vida de Jesus, está o Perdão – o Reino de Deus é o Reino do Perdão e da Libertação: «De modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»

É de olhar fixo na Ressurreição de Jesus, «o Santo e Inocente» crucificado (Act 3,13) que os discípulos descobrem a Vida Nova que irrompe no seio da nossa história: «Onde abundou o pecado, super-abundou a Graça» (Rom 5,20), onde a mentira e a morte dominaram, a fidelidade e a justiça de Deus venceram. Ressuscitou. Para nós, «a nossa Páscoa» (1Cor 5,7).

A Palavra do Filho foi a da fidelidade e entrega «até à plenitude» (Jo 13,1): «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos» (Jo 15,13). A Palavra do Pai foi a da plena geração de Vida Nova no seu Amor: «Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei» (Act 13,33).

E este diálogo familiar, diálogo eterno de Amor pois «Deus é Amor» (1Jo 4,8), diálogo no Espírito Santo, este diálogo, esta Palavra é pronunciada no seio do nosso mundo, da nossa história: um Amor que super-abunda por entre o pecado e a morte: «Anulou o documento que, com os seus decretos, era contra nós; aboliu-o inteiramente, e cravou-o na cruz» (Col 2,14).

Celebramos este Mistério da Redenção como o Diálogo, a Palavra Familiar que é pronunciada para nós, e na qual somos abraçados como Humanidade. Uma Palavra, um Projecto Eterno de Amor que Deus escreve com a Humanidade envolvendo-a no Amor entre o Pai e o Filho, Amor que é chamado de Espírito Santo (Rom 5,5) que se revela com toda a força na Ressurreição de Jesus.

Um Amor que se revela, não numa Humanidade perfeita, mas numa Humanidade marcada pelo pecado, pelo sofrimento e pela morte. Um Amor que, diante desta Humanidade, deste Adam que somos nós, não nos condena, não nos julga, mas irrompe como Perdão, como Cura, como Libertação. «Porque em Deus está a Abundante Redenção» (Sal 130,7). E este Projecto chamado Humanidade já pertence a uma Páscoa na qual é assumida: «O primeiro homem, Adão, foi feito um ser vivente e o último Adão (Cristo), um Espírito que dá a Vida» (1Cor 15,45).

A Humanidade continua marcada pelo sofrimento e pela morte. Não será por acaso que o livro dos Actos dos Apóstolos inicia o ministério de Pedro e João tal como iniciou o de Jesus: com a cura de um homem paralítico. «Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isto te dou: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!» E, segurando-o pela mão direita, ergueu-o» (Act 3,6-7).

A missão dos discípulos continua como mediações da Presença fiel, libertadora e fraterna do Ressuscitado, testemunhando a Boa-Nova do Reino: de Deus encontramos uma Vontade de Salvação e Perdão, a Vontade de um Pai que nos abraça, na Páscoa de Jesus, como filhos. Uma Páscoa para a qual toda a Humanidade está a caminhar:

«Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.» O que estava sentado no trono afirmou: «Eu renovo todas as coisas» (Apc 21,3-5).

Como redentoristas procuramos a fidelidade a esta missão através, sobretudo, pelo anúncio explicito desta Boa-Nova de Libertação:
«Obrigam-se todos os Redentoristas, seguindo sempre o magistério da Igreja, a serem, entre os homens, servos humildes e audazes do Evangelho de Cristo, Redentor e Senhor, princípio e modelo da nova humanidade.
Esse anúncio visa especialmente a copiosa redenção, isto é o amor de Deus Pai “que nos amou primeiro, e nos enviou seu Filho, como propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4,10) e que pelo Espírito Santo vivifica a todos os que n’Ele crêem.
Essa redenção atinge o homem todo, aperfeiçoa e transfigura todos os valores humanos, para que todas as coisas sejam recapituladas em Cristo (cf. Ef 1,10; 1Cor 3,23) e conduzidas a seu fim: uma nova terra e um novo céu (cf. Ap 21,1)»
(Constituição cssr 6)

Caso queiram aprofundar este tema da Redenção, convido-vos a clicar aqui:Redentorista

um grande Abraço!



quinta-feira, 14 de agosto de 2008

www.redentorista.blogspot.com

Olá. Desta vez, venho fazer-vos um convite. Acaba de ser inaugurado (é pá, a coisa é séria!) um novo blog chamado www.redentorista.blogspot.com para quem quiser conhecer melhor o que é isto de ser redentorista, a nossa missão e carisma, a história de Afonso de Ligório, e também um pouco o aprofundamento do anúncio da Redenção. Para mais informações é favor fazer uma visita, que o texto inicial apresenta o conteúdo do blog. Um abraço!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

um tratado sobre a Amizade...

Partilho convosco uns estractos de um texto que tenho lido, e me tem ajudado a "sintonizar" nesta altura tão... Exames!
Tá quase...


«Pasmava-se o santo Job em considerar o nosso Deus assim tão aplicado a fazer bem ao Homem, que parecia que o Seu coração não tinha maior atenção que amar e fazer-se amar do Homem; onde falando com o Senhor exclamava: “O que é o Homem, para lhe dares importância, e fixares nele a tua atenção?” (Job 7, 17). Aqui se vê ser um engano que lidar com Deus com grande confidência e familiaridade seja faltar ao respeito à sua majestade infinita.

Se queres deves, alma devota, com toda a humildade respeitá-lo e humilhar-te na sua presença, especialmente no recordar-te das ingratidões e ultrajes que no passado lhe infringiste: mas isto não deve impedir-te de lidar com ele com o amor mais terno e confidente que te seja possível. Ele é majestade infinita, mas também é bondade infinita e amor infinito. Tens em Deus o Senhor mais sublime que te pode existir mas tens ainda o maior amante que podes ter. Ele não desdenha mas alegra-se que tu o trates com aquela confidência, liberdade e ternura com que os garotos tratam as suas mães.

Eis como Ele nos convida a andarmos aos seus pés, e as carícias que nos promete: “Os seus filhinhos serão levados ao colo, e acariciados sobre os seus regaços. Como a mãe consola o seu filho, assim eu vos consolarei” (Is 66, 12-13). Como uma mãe gosta de colocar o seu filho sobre os joelhos, e assim alimenta-lo e acaricia-lo; como igual ternura gosta o nosso bom Deus de lidar com as almas suas dilectas que a Ele se entregaram totalmente, e que colocaram toda a sua esperança na sua bondade.

Não te esqueças nunca da sua doce presença, como faz a maior parte dos homens. Fala-lhe o mais frequentemente possível, que Ele não se cansa nem o despreza, como fazem os senhores da terra. Se tu o amas, não te faltará dize-lo. Diz-lhe o que te acontece, a ti e aos teus assuntos, como o dirias a um amigo querido. Não o consideres como um príncipe altivo, que não quer lidar senão com os grandes, e só de grandes coisas. Ele se agrada, o nosso Deus, de abaixar-se a tratar connosco, e gosta que nós lhe comuniquemos os nossos afazeres mais pequenos e triviais.

Ele ama-te tanto e tem tanto cuidado por ti, como se não tivesse de pensar em mais ninguém senão em ti. Ele é assim aplicado nos teus interesses, que parece que não conserva a sua providência senão para socorrer-te, a sua omnipotência senão para ajudar-te, a sua misericórdia e bondade senão para compadecer-se e fazer-te bem, e para ganhar com as suas cortesias a tua confidência e o teu amor. Revela-lhe pois com liberdade todo o teu interior, e pede-lhe que te guie a seguir perfeitamente a sua santa vontade; e todos os teus desejos e projectos sejam somente para encontrar o seu beneplácito e contentar o seu Coração Divino: Revela Senhor as tuas vias (Sal 37, 5); E pede-lhe para que os teus caminhos sejam rectos, e para que todos os teus projectos e conselhos sejam bem encaminhados (Tob 5, 19).»

É um verdadeiro texto de espiritualidade prática, se deixarmos a sua linguagem própria do século XVIII. Como missionário, Afonso deixou breves textos para serem lidos nos lugares onde passava, numa linguagem muito simples, e sempre com esta preocupação de introduzir as pessoas numa relação de amor e proximidade com Deus (numa altura em que dominava o temor...)
Este estracto é de um texto chamado MODO DE CONVERSAR CONTINUA E FAMILIARMENTE COM DEUS, escrito em 1753. Um grande abraço

domingo, 11 de maio de 2008

...sobreabundou a Graça!


Bem... depois de um fim-de-semana redentorista internacional, mais um fim-de-semana redentorista... cá em casa!
Um fim-de-semana de retiro, aqui entre nós, fica sempre bem no meio de todos os ritmos em que andamos mais empurrados que a caminhar! E melhor ainda pela presença de amigos que já se vão tornando também companheiros...
Um fim-de-semana acompanhados por Marcos e pelos seu Evangelho de Jesus, Filho de Deus (Mc 1, 1) no seu encontro com todos os marcados e feridos pelos "espíritos impuros", todas as dinamicas do forças do Homem Velho que nos vão marcando, a nós hoje também, como pessoas na história, como pessoas em construção, como pessoas em relações feitas também de ambiguidades...
E se calhar, todas estas experiencias de pecado têm outro "aguilhão" quando acontecem em vidas entregues pelo anúncio do Evangelho!
Mas sempre, no princípio, meio e fim, a presença do Ressuscitado, o Ungido e Enviado pelo Pai com a Força, o Poder e a Vitória do Espírito Santo... Sim, também hoje o Ressuscitado é o Encarnado, o Deus total e plenamente comprometido connosco, na luta contra todas essas forças... A Força do Amor vence, é bem mais forte! E hoje fazemos a experiencia, como o fez Paulo, o Apóstolo, da vitória da Graça de Deus sobre o nosso pecado, vitória possível na Fé e na Gratidão...
E obrigado, Espírito Santo, Paráclito dos discípulos,
pela tua presença nas nossas vidas,
presença renovada, presença reforçada...
Sim, no encontro com o Evangelho do Amor,
o nosso pecado, o nosso homem velho surge
como experiencia de sofrimento;
tem de surgir, não pode ser indiferente!
Aqui só nos agarramos a ti, Espírito de Jesus Ressuscitado,
e dizemos: somos teus, só podemos ser teus.
P.S.: sabádo à noite, o momento de oração no qual participei foi, para mim pessoalmente, muito forte. Obrigado aos meus amigos jovens que participaram: e a todos, acompanhem o Zaqueu, certamente aparecerão novidades!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Teologia Moral

Viva! Logo de início, muito obrigado a todos os amigos que viveram em comunhão comigo o último post, de desabafo. As respostas foram surgindo, um pouco através daquela frase: Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça (Jo 15, 16). Partilharei mais entretanto, tal como alguma partilha da minha preparação para a festa do Pentecostes.

Entretanto, deixo-vos alguma coisa do encontro no qual participei desde quinta-feira até ontem, em Madrid. Foi o encontro anual de redentoristas que, como eu, vivem a fase da formação e preparação, de Itália, Espanha, França e Portugal. Daqui fomos os companheiros de caminhada de sempre, e reencontrei outros com quem vivi o último ano, muito especial, que foi o do noviciado.

O nosso encontro andou à volta do tema da Moral. A Teologia Moral, ou Ética teológica, é a área de aprofundamento da vocação do ser humano a construir-se como pessoa através do Amor e da Comunhão. A Ética é um saber humano, que ultrapassa o âmbito religioso ou cultural, no qual se procura a felicidade do ser humano no bem e na verdade através das experiencias concretas de cada geração e contexto social. A fé cristã contribui para a procura ética oferecendo um horizonte muito belo de dignidade e vocação do ser humano, como imagem de Deus e chamado a uma Vida em Plenitude na Páscoa de Jesus.

A Moral é um campo no qual os redentoristas têm uma grande tradição. Através da missão fundamental de anúncio do Evangelho de Jesus de um modo renovado, surge a vocação a uma vida mais plena e amadurecida, nos apelos do Espírito Santo e nos critérios do Reino. Tradicionalmente, a teologia moral vem relacionada com temas como o sacramento da Reconciliação, a Liberdade e a Consciência perante as leis escritas, as acções e comportamentos, sexualidade, etc; na actualidade, temos as questões da bioética, como o aborto ou a eutanásia, pastoral dos divorciados e outros grupos na Igreja, etc.

A par do anúncio do Evangelho de Jesus e da procura de lhe serem fiéis, os redentoristas são conhecidos pelo anúncio de uma Moral humanizada, cujo centro é a pessoa humana na sua dignidade e liberdade perante qualquer lei escrita. Afonso de Ligório, proclamado Doutor da Igreja pela teologia moral, inovou no século XVIII defendendo a prioridade da pessoa e a formação da sua consciência em detrimento da lei escrita.
No século XX, a Moral católica sofreu uma profunda renovação graças à acção de redentoristas como B. Haring: a moral cristã deixa de ser a mera aplicação dos mandamentos às acções e comportamentos dos indivíduos, para se tornar a procura da realização pessoal numa vida em plenitude em Cristo, chamada a construir-se no Amor e na Comunhão, segundo contextos e situações humanas bem mais complexas que qualquer lei escrita.

«Aquele, porém, que medita com atenção a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera - não como quem a ouve e logo se esquece, mas como quem a cumpre - esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática» (Tg 1, 25) «Foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal 5, 1) “Para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus” (Rom 8, 21). A vivencia cristã é um apelo constante do Espírito Santo para a liberdade; na lógica bíblica, o contrário da liberdade não é lei, mas o pecado, que escraviza do ser humano nas dinâmicas contrárias ao Amor.
Todas as leis escritas estão ao serviço da verdadeira Lei, a do Espírito, para quem o centro é a Pessoa na sua dignidade. O selo que marcou a sangue Afonso, e todos os redentoristas, foi o selo da pastoral, do anúncio do Evangelho; foi no contacto com as pessoas, nas suas experiencias, problemas e dificuldades, que Afonso, e todos os redentoristas descobrem a Compaixão de Deus que está com a pessoa, não como quem coloca metas e leis inatingíveis, mas como quem acompanha, fortalece e impele no seu amadurecimento na vivencia do Amor.
um grande abraço

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Viver a Vida no Espírito de Cristo

Tenho a sorte de pertencer aos Jovens Redentoristas, uma Família de Jovens de todo o país na qual juntos partilhamos e aprofundamos a nossa Fé como discípulos de Jesus.
Este fim-de-semana tivemos o nosso encontro de retiro. Partilho o nosso texto de Acção de Graças que proclamamos na Eucaristia com a Comunidade. Para nos conhecer visitem www.jovensredentoristas.com!
Jesus, Mestre:
Bem sabes que agradecer-te, assim, numa Acção de Graças
É não deixar que as coisas nos passem ao lado, indiferentes…
Sempre que nos reunimos em teu Nome, na tua Presença,
Nós, os teus discípulos, chamados a partir da tua Palavra,
Comprometemo-nos de novo com o Reino do Pai, do Abbá.

E agora, Mestre, a caminho de celebrarmos a tua Páscoa,
Continuamos a tomar consciência do que significa o nosso Baptismo:
Sim, somos teus discípulos, a ti nos entregamos,
Em ti aprendemos a confiar e a acreditar no Homem Novo,
Aquele que está a nascer em nós, agora, graças ao Espírito Santo.

O Espírito Santo, Jesus, que te acompanhou ao deserto,
Ao deserto no qual o Projecto do Pai é posto à prova
Por todos as lógicas, critérios e prioridades do nosso mundo…
O Espírito Santo, Jesus, que sempre te conduziu
E consagrou, na tua fidelidade ao anúncio do Reino,
À emergência do teu sonho, o sonho do Abbá,
Uma nova Humanidade, salva, libertada, perdoada.

E o Espírito Santo, Jesus Ressuscitado, é o teu único testamento…
Foi tudo o que viveste e construíste,
Foi tudo pelo qual acreditaste e te entregaste.
E agora, Mestre, na tua Presença e na tua Força,
Cabe-nos a nós…

É agora, Jesus, que o Espírito nos acompanha e guia
No deserto da construção do Reino de Deus,
O Reino que não cai das nuvens, nem é de outro mundo,
Mas constrói-se e nasce nas nossas vidas, sim, nos nossos dias,
Nas nossas opções, nossos critérios, nas nossas experiências…

É nos nossos dias, Mestre, que o Reino,
Esse Homem Novo em nós, é posto à prova por tantas coisas…
E é nestes nossos dias que vivemos, Mestre, que tu nos chamas e convidas,
E que o Espírito nos fortalece e inspira,
Para confiarmos e acreditarmos neste Reino do Pai,
No qual somos já Filhos Amados, Perdoados e Salvos.
um grande abraço

sábado, 5 de janeiro de 2008

John Neumann cssr (1811-1860)


Deixem-me hoje prestar aqui uma homenagem:
Na minha família CSsR, recordamos e celebramos hoje por todo o mundo um redentorista muito especial: chama-se John Neumann, checo, viveu no século XIX e foi missionário nos EUA, numa época em que estavam ainda a fazer a “conquista do oeste”… Não que tenha feito coisas muito extraordinárias, mas eu tive a sorte de ler, no ano passado, o seu diário, e foi muito importante para mim. Para a história, ficou como um grande pastor, sobretudo dos emigrantes alemães lá nos EUA. Deixo aqui um texto seu, que lhe pedi autorização para o adoptar como meu também.

“Senhor, como te poderei alguma vez agradecer
por me teres chamado ao teu serviço?
O que posso fazer para mostrar-te a minha gratidão?
Aceita o dom da minha vontade,
do meu corpo e alma, de tudo o que sou!
Dispõe de mim como quiseres… Sou o teu servo!
Leva-me apenas a conhecer e compreender a tua Palavra!
Meu Salvador, como poderei alguma vez agradecer-te?
Queres mesmo provar-me que me escolheste
para anunciar a tua Palavra às nações?
Bom Pai, que o teu Nome seja bendito em toda a terra!”

um grande abraço

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

muito obrigado...



«O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres;
enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista;
a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.»
Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se.
Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» (Lc 4, 18-21)

Muito obrigado, Espírito Santo.
Muito obrigado pela história que começaste a escrever
Com Jesus de Nazaré.
Muito obrigado pela história de fidelidade
Que foste escrevendo ao longo dos séculos
No coração de tantos homens e mulheres
que colocaram as suas vidas ao serviço do Reino,
seguindo apaixonados a Jesus.

Muito obrigado Espírito Santo
Por este novo ramo que brotou em Scala.
Obrigado por teres suscitado esta nova Família,
Esta nova história de serviço pelo Reino.
Obrigado, Espírito Santo, por Afonso,
Esse homem de coração apaixonado por Jesus,
Que o tornou o apóstolo do perdão e da gratidão.

Muito obrigado, Espírito Santo,
Por poder entregar a minha vida, deste modo,
Ao serviço do anúncio do Evangelho.
Obrigado, meu Paráclito, pela consagração
Que envolve e abraça a nossa vida
Numa Missão que nos ultrapassa e envolve.
A Missão que o próprio Jesus viveu,
Conduzido por ti.

É bom poder ser discípulo de Jesus deste modo,
Espírito Santo. É bom poder experimentar
E partilhar o Amor do Pai, o seu Reino, assim…
Obrigado pela fidelidade de Afonso, e de todos os redentoristas,
Que colocando as suas vidas, os seus talentos
Ao teu serviço, Espírito Santo,
Possibilitaram que se escrevesse esta história
Tão bonita no serviço pelo Reino.
História que me convidas e conduzes, hoje,
Paráclito, a continuar a escrever
Com a minha vida.
E obrigado por isso.
um grande abraço

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

CSsR (III): a forma comunitária de viver a Missão

Os redentoristas, para corresponderem a sua missão na Igreja, exercem a obra missionária de modo comunitário. Pois, a forma apostólica de vida em comum abre, do modo mais eficaz, o caminho para a caridade pastoral. Por isso, para os redentoristas é lei essencial de sua vida: viver em comunidade e por meio da comunidade realizar o trabalho apostólico. (Constituição 21)
Foi um ponto central para Afonso: os missionários deveriam viver juntos, em comunidade, para se dedicarem mais plenamente à Missão. O modelo para os redentoristas é a Comunidade Apostólica, que Jesus formou com os seus discípulos, para viverem com Ele e para os enviar a pregar (Mc 3, 14) e que, depois da experiência pascal, continuariam a missão de Cristo, anunciado a Boa-Nova do Reino.

Assim, os redentoristas vivem juntos, em comunidade, para alimentar a sua experiência de Fé, o seu aprofundamento da Palavra e a vida de Oração. Descobrem e reconhecem que Cristo Ressuscitado está presente no meio deles, como o está sempre que dois ou três se reúnem em seu nome. A vida comunitária, em que os redentoristas se abraçam como irmãos, é um contexto privilegiado de baptismo no Espírito Santo.

Essa vida no Espírito consagra os redentoristas para a Missão. Vivendo em comunidade, toda a vida dos redentoristas está dedicada à Missão, e é a comunidade redentorista que está em Missão. Pelos carismas pessoais de cada redentorista que os conduz ao anúncio do Evangelho de variadas formas e caminhos, vivendo unidos na única Missão, apoiam-se uns aos outros e, frequentemente, apresentam-se também juntos no anúncio do Evangelho. Formam uma Família no Espírito para o serviço do Reino, e nela vivem a sua vocação pessoal e cristã.
um grande abraço

terça-feira, 6 de novembro de 2007

CSsR (II): a opção preferencial pelos pobres

A preferência pelas condições de necessidade pastoral ou pela evangelização propriamente dita e a opção em favor dos pobres constituem a própria razão de ser da Congregação na Igreja e o distintivo de sua fidelidade à vocação recebida. O mandato conferido à Congregação de evangelizar os pobres visa a libertação e a salvação da pessoa humana toda. Os membros da Congregação têm como incumbência o anúncio explícito do Evangelho e a solidariedade com os pobres, a promoção de seus direitos fundamentais na justiça e na liberdade, com o emprego dos meios que sejam, ao mesmo tempo, conformes ao Evangelho e eficazes. (Constituição 5)

Um carisma é a consagração pelo Espírito dos dons e talentos de uma pessoa para o serviço da comunidade. Do mesmo modo, o Espírito consagra um grupo de pessoas para o serviço do Reino; por isso, todas as Famílias na Igreja, todos os Institutos abraçam um determinado serviço no Reino.

A CSsR surgiu, com Afonso, numa experiência de falha da Igreja institucional: Afonso, então padre com 36 anos, descobre em Scala e nas zonas rurais à volta grupos de camponeses e pastores que não eram assistidos espiritualmente, não conheciam o fundamental da Fé nem tinham possibilidades de praticar uma vida sacramental, por não terem padres disponíveis a ir para essas zonas e a suportar os incómodos e dificuldades, como dizia o próprio Afonso. Perante a observação dessa realidade, Afonso faz a experiência de que o Espírito o consagrava a entregar a sua vida por essa causa, dedicando-se ele mesmo à assistência a esses pastores como missionário itinerante. Quando outros padres fazem a mesma experiência de consagração e se juntam a Afonso, nasce uma nova Família Carismática na Igreja ao serviço do Reino.

A CSsR dedica-se ao anúncio do Evangelho aos que estão afastados ou abandonados pela igreja institucional, seja os que nunca ouviram o anúncio do Evangelho, seja os que nunca o ouviram numa linguagem verdadeiramente de Boa-Nova, seja os que são vítimas da divisão ou exclusão da igreja (os grupos excluídos pastoralmente, como os divorciados, por exemplo). Vemos que não é preciso pensar em terras distantes para encontrar estas situações: como Afonso, encontramo-las facilmente, na nossa Europa, em que a Igreja não adquiriu ainda o seu rosto evangelizador e, por isso, boa parte dos baptizados ou vive a sua fé de modo pouco formado, ou está totalmente afastado de qualquer ritmo de vida cristã e comunitária. Assim, os redentoristas dirigem-se de modo especial a todos os que “não frequentam a missa ao domingo”, não tanto para os “recrutar” ou para “regularizar a sua situação”, numa espécie de proselitismo, senão para os convidar a (re)descobrir o rosto evangélico de Jesus Cristo num caminho comunitário de Fé.

Entre estes abandonados ou afastados eclesialmente, os redentoristas têm de modo especial em atenção os mais pobres, economica e socialmente, em que a sua pobreza é causa de abandono espiritual. É nas “zonas de fronteira eclesial” que os redentoristas são chamados segundo o carisma pessoal dos seus missionários para serem anunciadores do Evangelho libertador e redentor, presenças de amor fraterno e defensores dos seus direitos fundamentais.
um grande abraço

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

CSsR I. A Proclamação explícita do Evangelho

O testemunho de vida e de caridade conduz ao testemunho da Palavra, conforme a possibilidade concreta e a capacidade pessoal. Os redentoristas têm na Igreja, como a sua principal missão, a proclamação explícita da Palavra de Deus para a conversão fundamental (Constituição 10).

Existem diversos serviços no Reino e diferentes modos de viver o Seguimento de Jesus: algumas pessoas dedicam-se à acção social e caritativa, outras à contemplação e aprofundamento espiritual, outras partem para outros continentes e territórios onde a evangelização ainda tem de acontecer pela primeira vez… Estes são caminhos para viver de modo radical o Evangelho, e os redentoristas contam também, na sua Tradição, com todas estas actividades. Mas o centro da sua Missão é o anúncio explícito do Evangelho, a proclamação da Palavra.

Assim, os redentoristas vivem em Igreja, seja em que contexto for, com a Missão de anunciar e proclamar de modo explícito o Evangelho de Cristo, sabendo que é um serviço que prestam ao Reino: é pela escuta da Palavra do Evangelho que acontece o encontro com Jesus Ressuscitado, a descoberta do Amor Salvador do Pai e do seu Projecto, a abertura à acção do Espírito Santo pela Fé.

No contexto da nossa Europa cheia de baptizados mas em que o regime de cristandade já morreu, a missão dos redentoristas passa pelo anúncio numa linguagem nova do Evangelho de Cristo, pelo animar os baptizados a redescobrir a sua vocação pessoal e cristã e pela formação de contextos comunitários eclesiais, onde os cristãos aprofundem a Palavra e o Baptismo no Espírito e vivam a missão de ser sal, luz e fermento no mundo. Num tempo em que ser cristão já não é uma questão social, mas fruto de uma opção consciente e responsável, os redentoristas colaboram na missão da formação da fé dos crentes, para que tornem cada vez mais consciente a sua vocação cristã.
Naturalmente que é uma questão fundamental para qualquer redentorista, como Apóstolo de Jesus, aprofundar e experimentar o seu Evangelho e descobrir-lhe sempre a sua linguagem nova e libertadora. Seguem o exemplo de Afonso que, no século XVIII, tanto pela sua teologia moral como na sua acção missionária, ficou recordado por marcar o seu anúncio no Amor e no Perdão de Deus, e nunca no temor e na opressão da consciência.
um grande abraço

domingo, 4 de novembro de 2007

CSsR: uma Vida Apostólica

Na próxima sexta-feira 9 de Novembro, os missionários redentoristas celebram 275 anos de existência: foi em 1732, numa aldeia chamada Scala, próxima de Nápoles, que Afonso de Ligório e outros companheiros se juntaram para se dedicarem à evangelização das zonas rurais mais abandonadas espiritualmente. A partir daí a Congregação foi crescendo no seio da Igreja até chegar hoje a 70 países, com cerca de 5500 redentoristas no mundo.

O que define a identidade do redentorista, a sua vida, é a expressão Vida Apostólica, que compreende, a um só tempo, a vida especialmente dedicada a Deus e a obra missionária dos redentoristas (Constituição 1: as Constituições são um conjunto de princípios, normas e critérios que inspiram e orientam a vida dos redentoristas). O redentorista identifica a sua vocação com a tradição profética e apostólica: fazem a experiência de que Deus os consagra no seu Amor de Aliança e Eleição – experiência proclamada pelo Baptismo, comum a todos os discípulos de Jesus – e que vivem essa consagração de Aliança dedicando as suas vidas ao anúncio do Evangelho como serviço pelo Reino.

Então, a Congregação do Santíssimo Redentor é uma Família no seio da Igreja, um contexto para viver o Seguimento de Jesus de maneira livre e radical. Na intuição e na iniciativa de Afonso em 1732, encontramos o início de um Carisma na Igreja, isto é, de uma acção do Espírito Santo que consagra os talentos e dons dos redentoristas para um serviço fundamental no Reino, o anúncio explicito do Evangelho. Esse Carisma tem três dimensões fundamentais:

· A proclamação explicita do Evangelho;
· A opção preferencial pelos Pobres;
· A dimensão comunitária da Missão.

São estas três dimensões que partilhei um pouco esta semana.




um grande abraço