«Dominado pelos astros, senhor dos animais: a sabedoria bíblica põe o homem sob esta subtil linha mediana. A sabedoria moderna, ao invés, encontraria nisto pouca “glória e majestade”, não considerando esta posição como particularmente real. Todavia a Bíblia tem-no em conta. O primeiro capítulo do Génesis não renuncia: o homem, privado de poder sobre os astros, saberá conquistar a terra porque comandará aos animais herbívoros. Nada de mais vem sugerido, além deste império tido como bastante glorioso (o leitor pode verificar por si próprio o texto de Gen 1,28: o homem não pode multiplicar-se, encher a terra e dominá-la se não comandar os animais que, como ele, se multiplicam e enchem a terra. A segunda obra é condição da primeira). Para uma Humanidade que deu uns passos sobre a Lua, a mensagem é bem pouco sugestiva.
Mas pode-se caminhar sobre a Lua e não ter o ouvido suficientemente agudo para entender a mensagem de um antigo. Estes fazem-nos compreender, no Génesis, que o homem é feito à imagem de Deus e, no Salmo 8, que é quase um deus (v. 6). Os dois textos concordam no ensinar que a imagem divina é o constitui o núcleo da diferença entre o homem e o animal. Ainda uma vez, o pensamento da Criação não nos conduz somente ao homem, mas ao que, no homem, não é o aspecto mais visível.
Todavia, esta diferença e esta superioridade real do homem sobre o animal não são muito claras? O antigo reserva-nos uma resposta: «Os animais, responde o antigo, devoram-se entre eles e assim também os homens»: a diferença não é, por isso, evidente. Os animais não são herbívoros, segundo o relato da Criação (Gen 1,30), que por ordem de Deus esta restrição não pertence à sua natureza. Para dominar tal natureza, o homem sucede a Deus no posto de comando: através da sua palavra delegada (é verdade que é bastante estranho que se fale aos animais), os animais abstêm-se de devorar-se entre eles. Mas apenas Caim assassina Abel e os homens começam a partir daí a devorar-se, como o fazem de Caim até ao Dilúvio, a sua palavra perde todo o poder de impor a doçura aos animais.
O facto que hoje os homens imitem os animais que por natureza se devoram, é o sinal que não os comandam mais. Dado que os imitam, assemelham-se a eles. E se se assemelham aos animais, é sinal evidente que perderam a semelhança divina, sobre a qual se fundava o seu poder. Quererão agora sem mais comandar àqueles, mas o farão com a força e o terror: o homem comanda ao leão com o mesmo método com o qual o leão comanda o cordeiro. Não já com a palavra. Depois que o homem se enterrou na violência, Deus adaptou-lhe a sua lei: «incuti o medo e o terror a todos os animais da terra» (Gen 9,2). Por isso, daquele momento reina o estado de guerra entre os animais, entre os homens e os animais, entre o homem e o homem. Será somente no dia em que Deus terá curado o homem que «o leão comerá da palha com o boi» porque se terão reconciliado, e isto porque «um menino os conduz» (Is 11,1-9; cf. 2,4).
Assim, conclui o antigo, o poder sobre os animais que te parecia pouca coisa, é aquilo que te falta, ainda que caminhes na Lua. Talvez nunca como agora te terá faltado»
Paul Beauchamp (Salmi Notte e Giorno, "Salmos Dia e Noite", Assis 2004 p. 172), jesuita francês (1924-2001), foi professor de Bíblia em Paris, destacando-se na espiritualidade do Antigo Testamento
Olá! Partilho hoje convosco uma bela experiencia que fizemos no grupo JR aqui em Gaia: uma gravação, sobre o tema "Imagem e Semelhança de Deus". Ok, a gravação não foi feita por profissionais, não tem a garantia de qualidade da BBC! Em todo o caso, o texto está em baixo, para quem quiser seguir. Mas quanto aos autores do texto (que se tornam as vozes do video), esses sim são verdadeiramente profissionais! Se alguém quiser deixar um comentário destinado ao grupo, eu encarrego-me de transmiti-lo na próxima semana.
O que é que nos torna à imagem e semelhança de Deus, como diz o livro do Génesis? O que é que temos de original, de próprio, de mais rico e profundo? O que é que nos torna pessoas, o que é que nos faz diferentes de um calhau com olhos? Acredito que aprender a fazer perguntas, procurar as perguntas certas é um dos passos mais importantes que podemos dar. Porque assim partimos à procura, e pomo-nos a caminho. Viver parado, confortável, indiferente, é tornar-se medíocre… é ser mais um entre a multidão…
Vemo-nos no rosto uns dos outros, e descobrimos um mistério muito profundo, sempre com uma fonte de novidade… Paramos um pouco em nós próprios e damo-nos conta de que as nossas experiencias, projectos, histórias, sentimentos não são nada simples… vivemos e construímos as nossas relações, sobretudo aquelas que vão mais fundo no compromisso e na entrega, e percebemos bem que estamos sempre a aprender...
Escrevemos uma carta a um irmão nosso, companheiro nesta aventura de ser pessoa, e partilhamos-lhe que viver só vale a pena se for para ser feliz, e esta é a sua grande missão… E era a nós próprios que estávamos a dizer isto… Sim, somos amados, e estamos aqui para ser felizes: a nossa vida faz sentido, não é por acaso, não é por acidente… Diante de um recém-nascido não pode ser por acaso…
E foi uma carta tão boa que até a Coca-Cola nos imitou!
Imaginamos depois que estávamos diante de uma criança de 6 anos, no início de uma nova fase da sua vida: entrar para a escola. E imaginamos a missão de ajudar essa criança a descobrir um mistério muito profundo que a habita, agora que ela já é mais crescida. Ela própria, assim como as pessoas que a rodeiam e que ela conhece, não se medem apenas pelo que vê ou toca: somos mais, somos uma interioridade, o mistério mais profundo do que somos é interior… E mais ainda: é no Amor que essa interioridade cresce, como uma árvore, é no Amor que nos tornamos pessoas, é nas relações de Amor que construímos.
Construimos… No Amor…
Sim, porque não nascemos feitos nem acabados: temos uma missão muito importante, a mais importante da nossa vida: somos pessoas em construção, criadores de nós próprios, e somos chamados a criar uma obra de arte única, original e irrepetível em toda a história da Humanidade – a nossa identidade…
E, claro, ao imaginarmos esta conversa era para nós próprios que estávamos a reflectir: viver alerta do mistério mais interior de nós próprios e da nossa vida, um mistério que somos chamados a construir, no Amor… espero que a Coca-Cola não se lembre de voltar a imitar-nos!
E somos nós, somos jovens que estamos a falar… sabemos bem o que significa a linguagem do nosso corpo, que somos nós próprios. Somos seres corporais, não somos máquinas de chapa metálica! Por isso trocamos afectos, por isso nos cumprimentamos, por isso nos relacionamos, por isso somos sensíveis! E por isso também a Biblia fala de Deus como de uma mãe que amamenta o seu filho, de um Pai que limpa as lágrimas dos olhos dos seus filhos, de um Deus que caminha ao fim da tarde com Adam…
E o perdão, lembras-te? Aquela do história do profeta, como se chamava? Oseias, não é? Que tinha uma teoria de que, quando a mulher o traiu, ele é que tinha de ir seduzi-la de novo; e disse que Deus é assim connosco! Que vem ao nosso encontro, que nos procura, que quer fazer connosco uma história de gente feliz e reconciliada… Parece que o Amor é assim…
E então? Falta alguma coisa? Ah, a morte! Parece que tem a ver com um nascimento pleno e definitivo do que somos, como pessoas, do que nos construímos na nossa história… É pá, para mim o mais importante foi o que disso o Orlando, no fim de uma hora a discutirmos: só sei que temos esta vida, e que temos de aproveitá-la bem! E acrescentamos: sim, aproveitá-la bem no que é mais importante: a nossa humanização, as nossas opções e relações de amor, liberdade, responsabilidade… No fundo, é como quando olhamos para um recém-nascido: faz sentido estarmos aqui, vamos aproveitar bem e construir uma vida a valer, fecunda… e a morte será o pleno nascimento disso…
E com tudo isto, ainda não falei do que queria falar hoje!
Hum, mas já temos vindo a falar, e como tudo isto, são coisas que nunca deixaremos de conversar e de descobrir, se o quisermos… Tem a ver com o Amor e com Deus… Porque é a descoberta mais importante que tenho vindo a fazer, e ainda só estou no início! O Amor é uma Presença que acompanha toda a História da Humanidade, é no Amor que nascemos e crescemos como pessoas, é o Amor que nos identifica…
Mas mais do que isso, muito mais! No Princípio, já existia o Amor! Sim, é verdade: o Amor é anterior a tudo, o Amor é o princípio de tudo; porque Deus é Amor! O Amor é um Projecto, é uma História que nos conduz e na qual fazemos parte, somos convidados a escreve-la com a nossa vida… Gostei quando a Patrícia disse que ver o Amor como um Projecto dá um certo sabor e piada (acho que foi esta a expressão). Para mim é o mais importante: porque o Amor não acontece por acaso nem ao calhas, é o mais sério e importante da nossa vida. Porque o Amor vem de Deus, que no Princípio, já era uma Família de Amor!
E queres saber o melhor? O melhor de tudo é que Deus é uma Família de Amor na qual nós estamos a nascer, da qual nós fazemos parte! Somos abraçados num Amor Eterno entre o Pai e o Filho, no Espírito Santo… Podemos falar a linguagem de Deus porque sabemos falar a linguagem do Amor: será isso o tal de sermos imagem e semelhança de Deus?...
Pois é, e no final de tudo isto ainda não dissemos o que significa sermos imagem e semelhança deste Deus que nos ama tanto! Certamente não estaremos muito longe, com tudo isto que falamos…
Acredito que sermos imagem de Deus significa que fazemos parte de um Projecto de Amor que preside e conduz toda a História da Humanidade, e é nesse Amor que nascemos, crescemos e tomamos parte, assumindo-o com a nossa própria liberdade e responsabilidade, construindo-o como Pessoas…
Acredito que sermos imagem de Deus é podermos caminhar, ouvir, crescer, rir, chorar, amar, sonhar, ao lado daqueles que nos amam… termos coragem de levantarmos, todos os dias, com um sorriso na cara e com vontade de o mostrar a toda a gente…
Acredito que sermos imagem de Deus é ser livre, de uma qualidade inimaginável, é ser pessoa, criada com objectivos de amor, é ser relação… ser à imagem de Deus é ser pertença da sua família, estar mergulhado no seu projecto, e sermos parte criadora com esta família, neste projecto de Amor: a Humanidade…
Acredito que sermos imagem de Deus é bom! Acredito que isso faz de nós seres originais e irrepetíveis dentro da igualdade que é a Humanidade. Acredito que existem muitas Carlas, mas tenho a certeza que se todas as pessoas que gostam de mim as conhecessem, certamente, por mais parecidas que pudessem ser comigo, eles nunca iriam achar que elas são iguais a mim e nunca gostariam delas como gostam de mim. E é nessa confiança que eu fundo a grande amizade que tenho por eles, o grande carinho e amor…
Acredito que sermos imagem de Deus é agirmos tendo em conta não só nós próprios mas também os outros… é viver, amar, criar e ser feliz…
Acredito que sermos imagem de Deus é sermos livres de fazer a pintura que nos apetece no quadro das nossas vidas, sem um caminho traçado, sem medo de fazer um borrão e estragar a pintura, sem medo de errar depois… é a errar que se aprende. Acredito que ser imagem de Deus é podermos oferecer e receber um amor incondicional, inexplicável, que sem motivo aparente, simplesmente existe. Acredito que sermos imagem de Deus é sermos felizes, partilhar essa felicidade com os outros, fazendo-os assim também felizes… Acredito que um bom quadro é aquele que é ao mesmo tempo definido e com borrões. E é assim que quero viver a minha vida: deixa-me pintar-te.
Acredito que sermos imagem de Deus é termos a capacidade de amar tal como Ele nos ama. É como se tivesse sido esse o gene que Ele nos passou quando nos criou! Ser à semelhança do Pai é, tal como Ele, sabermos dar o Amor, sempre…
Acredito que sermos imagem de Deus é sermos pessoas com a capacidade de amar o irmão…
Acredito que sermos imagem de Deus é sabermos da existência do mundo que nos rodeia, do vento que agita folhas e cabelos, do sol que queima estradas e faz amadurecer as uvas de uma vinha, da água que limpa rostos e fertiliza campos, sem nuca esquecermos de tudo amar e venerar. É sermos seres com o dom de amar o ser mais complexo de todos: o próximo.
Acredito que sermos imagem de Deus é muito mais do que alguém possa sequer definir.
Acredito que sermos imagem de Deus é uma verdade, um caminho, um projecto, uma construção, uma novidade, um sabor, um cheiro, um nascimento, uma história, um vida… acredito que sermos imagem de Deus é uma ideia descoberta...
Acredito q sermos imagem d Deus...é sermos fortes,é nunca cruzármos os braços e irmos à luta, porque são os pequenos gestos que um dia mais tarde darão fruto; que tornarão a nossa vida e das pessoas que amámos melhor, pois se a mudança partir de cada um de nós, acredito que teremos um mundo à imagem de Deus.
Acredito que sermos imagem de Deus é respeitarmos e aceitarmos os outros.
Acredito que sermos imagem de Deus é a maior expressão de amor que Deus utilizou e utiliza para fundamentar o seu Projecto, o tal Projecto de Amor. Logo, é uma expressão que é essencial. Deus dá-nos a possibilidade de participar nesse projecto e portanto, de nos aproximarmos dele, de Deus…
Ajuda-nos, Bom Deus que nos amas, a caminharmos contigo… Obrigada por nos amares tanto e me fazeres entender tudo isto… Obrigada por estares sempre comigo nos bons e nos maus momentos. Ajuda-nos a sermos cada vez mais parecidos contigo e não desistas de nós. Eu sei que não desistes porque tu nos amas pois somos teus filhos do coração. Na essência do teu ser, o Amor… Ajuda-nos a viver da maneira que tu nos ensinaste, a perdoar, amar os outros como tu nos amas, pois só assim é que somos felizes. Ajuda-nos a caminharmos contigo e ensina-nos a sermos melhores… Obrigada por nos dares as três melhores coisas das nossas vidas: o Amor, a Liberdade e os Outros… Obrigado por nos amares tanto…
Viva! Nas últimas sextas, hoje e na semana passada, tivemos aqui no Seminário em Gaia dois encontros abertos de formação. O tema foi o Homem segundo a história biblica. Partilho o texto que utilizamos hoje - é uma tentativa de síntese desta história biblica, desde o Génesis até Jesus e o Novo Testamento. Bom fim-de-semana!
Génesis: Adam, Imagem de Deus
Percorrer a história biblica é percorrer o testemunho de uma história que Deus faz com a Humanidade, que Deus faz connosco. Uma história que tem a ver precisamente com o ser humano, com o Homem no centro: estamos profundamente enganados quando atiramos a história bíblica apenas para o campo religioso; ela testemunha acima de tudo uma história do ser humano à luz da relação com Deus.
Os textos sobre a Criação do livro do Génesis (Génesis é uma palavra grega que significa Origem, Génese) proclamam sobretudo a grande dignidade do ser humano como eleito, amado e escolhido por Deus para uma história de Aliança. São textos que partem da experiencia de Fé de um Povo, Israel, e por isso não estão preocupados em dar uma resposta cientifica à questão de como começou o mundo. São textos de Fé, com um sabor mais poético do que propriamente cientifico, o que não significa que sejam menos verdadeiros! Não falam sobre o começo do Cosmos nem sobre os primeiros homens à face da terra, mas falam do sentido do Universo e da Humanidade como um Projecto, hoje também.
Assim, são muito bonitas as imagens e símbolos que o livro do Génesis utiliza para falar de nós, de nós próprios, do ser humano (Adam, em hebraico) à luz da sua experiencia de Fé em Deus:
A Criação em 7 dias: não se trata do tempo cronológico; o sete, na Biblia, é um símbolo de plenitude e o 7º dia, o Sábado, é símbolo, em Israel, da Aliança com Deus. Assim, o texto proclama que a Criação é um Projecto de Aliança, um Projecto com Sentido, uma história que está a acontecer onde tudo existe em função do ser humano: Deus prepara um contexto para que Adam possa viver, toda a Criação está em função do Homem.
O Ser Humano é Imagem de Deus: Israel como Povo faz a experiencia de que Deus o escolhe como parceiro de Aliança, para construírem uma história juntos. A partir dessa experiencia, o Génesis proclama que o Homem é um ser único e privilegiado em toda a Criação, porque Deus o elege para ser seu Parceiro de Aliança, para que o Homem domine sobre toda a Criação e seja Criador de si próprio, da sua história. Uma relação especial com Deus, única, que lhe dá uma dignidade de imagem que ninguém pode retirar – é esse também o símbolo do Beijo: Adam nasce do pó (a Adamah, o Húmus fértil da Criação) para ser beijado por Deus, para receber o seu hálito de Vida.
Adam não pode estar só; por isso recebe uma Auxiliar, Eva: é em relação, em Aliança que o ser humano se realiza; sozinho, separado, torna-se apenas metade de si próprio. O Homem vive enquanto convive, enquanto se constrói em relações de pertença, de Aliança, de Comunhão. Só é de verdade Pessoa na medida em que comunica, se partilha e recebe.
Por fim temos toda a catequese do Fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, que Adam e Eva comem. Fundamentalmente, o que o Génesis proclama é que Deus respeita o Homem como numa Aliança com duas partes: assim o Homem pode recusar, como recusa, o Projecto de Deus para a Criação, inserindo na Criação ritmos de pecado, ritmos contrários ao Amor que rompem e bloqueiam as relações. A “expulsão do Paraíso” significa precisamente que a Criação não é ainda o contexto de plena emergência do ser humano, e que Deus inicia com o Homem um caminho de libertação e de transformação pessoal!
Jesus de Nazaré: o Sonho de uma Nova Humanidade
Jesus de Nazaré foi um Homem acima de tudo apaixonado por Deus, não um deus ausente e longínquo lá nas nuvens, mas o Deus Vivo e Presente, que está Próximo da história do seu Povo e com ele vive uma Aliança. A grande novidade da vida e do anúncio de Jesus foi o Reino de Deus: o Deus da Graça faz-se presente na nossa história, não para a condenar ou julgar, mas para a salvar, para a recriar e libertar com o seu Amor. O Reino de Deus, para Jesus, é a proclamação do Perdão e do Amor de um Deus que se faz Próximo de todos os homens!
Esse tal Reino de Deus significa, para Jesus, o nascimento de uma Nova Humanidade: não uma Humanidade perfeita, acabada, mas a que somos, a única que existe, esta Humanidade formada por todos os homens e mulheres em construção na sua vida. A presença do Amor Salvador de Deus significa, para Jesus, o nascimento de uma Nova Ordem, de uma Nova Era de relações marcadas, não já pela violência, mas pela Fraternidade, pelo Perdão e pela Graça – a experiencia do Amor de Deus, o Amor de um Pai, conduz-nos a viver como irmãos! É uma Humanidade onde já não há lugar para pessoas que não são reconhecidas como Imagem de Deus. É uma Humanidade onde o maior é aquele que serve, onde o Amor supera todas as lógicas de grupo social ou religioso. Uma Humanidade segundo a vontade de Deus.
Jesus não é um teórico ou um sonhador nas nuvens; essa Humanidade que sonha, vive-a em gestos e palavras concretas, que provocam reacções no seu tempo: para Jesus, o ser humano está no centro, relativizando todas as normas e costumes religiosos e sociais. Jesus inicia com os seus irmãos um Projecto de Libertação, de Humanização, onde todas as dimensões da nossa vida sejam marcadas cada vez mais pelo Amor. Claro que um Projecto destes, tudo menos teórico, provoca resistências nos poderes instituídos, sobretudo quando Jesus o vive afirmando que é vontade de Deus. A Cruz revela bem que nem Jesus foi um teórico, nem o Reino de Deus, a Nova Humanidade são uma teoria, mas continuam a encontrar resistências de morte.
Novo Testamento: a Plenitude dos Tempos para a Humanidade
Tudo teria terminado ali, há dois mil anos, se não tivesse acontecido algo de extraordinário: a Experiencia Pascal. Os discípulos de Jesus proclamam que aquele homem, morto e crucificado nas mãos das autoridades judaicas e romanas, foi Ressuscitado por Deus. A sua Vida é agora universal e plena, é assumida na própria Vida de Deus.
Então, no anúncio dos discípulos e das primeiras comunidades cristãs, algo de muito bom, de radicalmente novo acontece, e que tem a ver com todos os homens e mulheres: um Homem, Jesus de Nazaré, um dos nossos, da nossa Humanidade, ressuscitou e, logo, todos Ressuscitamos nele! O Projecto que ele anunciou, o Reino de Deus, a Nova Humanidade, afinal não são uma teoria: estão plena e definitivamente inaugurados, chegou a Plenitude dos Tempos! A Humanidade sonhada pelo Génesis, em plena comunhão com Deus e com os irmãos, está inaugurada, é já um Projecto de Sucesso! A verdadeira dignidade do Homem, do ser Humano, é revelada como Graça de Deus: somos Filhos de Deus, à imagem de Jesus de Nazaré!
A espinha dorsal da história bíblica é a história que Deus faz com a Humanidade, história testemunhada primeiro por Israel (Antigo Testamento) e depois pelos discípulos de Jesus (o Novo Testamento). A história de um Projecto, de um Sentido para a Humanidade que, à luz da Ressurreição de Jesus, é já uma Humanidade salva, com um horizonte de Plenitude. Uma Nova Humanidade que não vem de cima nem de fora, mas que continua a nascer, animada pelo Espírito Santo, no seio da nossa história e das nossas relações como apelo ao perdão, à Justiça, à Verdade, ao Homem Novo, o Adam de Deus, cada um de nós…
Tenho uma Palavra a dizer-te, Uma Palavra a sussurrar-te… Uma Palavra sobre ti, uma Palavra que és tu, Uma Palavra que quer entrar nos teus dias Como novidade no meio das tuas tantas rotinas…
Podes ter a certeza de que não quero entrar na tua vida Para te oprimir, te substituir ou para te tirar a alegria de viveres… Escuta-me como uma Palavra de Vida, de Liberdade, De Alegria, de Salvação, de Bondade para a tua vida, A tua vida que vais construindo, dia a dia, Opção após opção, com aqueles a quem mais amas.
E descobre-te unido, proponho-te, Descobre-te unido a uma Família Universal de irmãos, Uma Família chamada Humanidade, A quem pertences, a quem estás a edificar.
Uma Família que viu nascer um Homem, um dia, Chamado Jesus, Jesus de Nazaré, Um Homem por quem te chamo, hoje, num sonho, Meu Filho muito amado.
Após uma (grande!) pausa, continuo a nossa caminhada de antropologia, hoje com a resposta de Jesus perante a experiencia do sofrimento e do mal.
A evidencia do sofrimento e do mal percorre toda a história bíblica, como vimos logo no texto de Gen 2,25-3,24. Sobretudo nos Profetas e nos chamados livros sapienciais (Job, Qoélet, os próprios Salmos), encontramos muito presente esta realidade.
Essencialmente, a Biblia (e hoje a reflexão dos crentes) não procuram explicar ou dar respostas para o mal. Nem procura uma resignação perante esse mistério, contrariamente ao que costumamos pensar. O mal e o sofrimento surgem precisamente como um escândalo perante a experiencia de fé no Deus Libertador, e logo a necessidade de o combater. Por aí a resposta do autor de Gen 2,25-3,24, quando aponta o mal como origem na história (e não da natureza ou do Projecto de Deus) e ligando-o sobretudo à responsabilidade do Homem.
Assim, a Biblia torna-se muitas vezes a procura de como acreditar apesar e na experiencia do mal e do sofrimento. Aí encontramos a experiencia de Jesus de Nazaré: não fez discursos nem procurou explicações teóricas sobre esse mistério. Não convidou à passividade nem à resignação, pelo contrário: foi um homem que viveu, sofreu e lutou contra o mal.
Os Evangelhos são percorridos permanentemente por episódios da luta de Jesus contra todas as forças de opressão do ser humano, sobretudo dos mais frágeis. Na sua linguagem própria, os Evangelhos narram a luta de Jesus contra os espíritos impuros que oprimem o ser humano, vencendo-os com o poder libertador de Deus, o Espírito Santo: «Mas se Eu expulso os demónios pela mão de Deus, então o Reino de Deus já chegou até vós» (Lc 11, 20).
Jesus foi um homem que acreditava profundamente na bondade da Criação e do ser humano. Provam-no a sua confiança, a sua alegria e sabedoria ao contar as parábolas do Reino. As pessoas que com ele se encontram experimentam um profunda libertação. Em todo o caso, Jesus foi um homem que experimentou na carne, até ao fim, o mistério do pecado, do sofrimento e do mal. Ao longo do seu mistério depara-se com todas as causas de opressão e desumanização; encontra-se com forças contrárias que procuram bloquear o seu ministério. É morto e crucificado pelos poderes instituídos do seu tempo, politico e religioso, terminando a sua acção transformadora da sociedade.
E desde o Jardim das Oliveiras até à Cruz, Jesus, abandonado pelos discípulos e perante o fracasso da sua missão, não deixa de perguntar pelo Abbá que sempre o acompanhou: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mc 15,34). Sabe melhor do que ninguém do que falamos, sabe o que é o sofrimento injusto, e sabe o que é perguntar por Deus nessa situação, como o afirma continuamente a carta aos Hebreus: «Nos dias da sua vida terrena, apresentou orações e súplicas àquele que o podia salvar da morte, com grande clamor e lágrimas, e foi atendido por causa da sua piedade. Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obediência por aquilo que sofreu» (Heb 5, 7-8).
A resposta de Jesus? Prática. Não um discurso, ou uma teoria. Tornou-se mediação de libertação e transformação pelo seu Amor, pela sua proximidade e acolhimento de todos os marginalizados do seu tempo. Convidou a uma nova ordem de relações marcadas pelo perdão, pelo amor aos inimigos e pela iniciativa e gratuidade do serviço. Sobretudo, uma tremenda Fé: acredita que este é o mundo de Deus, onde Deus se faz presente com o seu Reino, o seu poder Salvador, a sua Graça, mesmo no meio de todas as situações de sofrimento, de pecado e de morte. Um Deus com-passivo, de Com-Paixão, que sofre connosco, assume connosco e connosco dá a resposta através da libertação pessoal e integral.
E, a partir da Ressurreição, a fé dos discípulos proclama que o Juizo de Deus está inaugurado como vitória definitiva; não contra os assassinos de Jesus, nem contra os “maus e impuros”, numa lógica de justiça humana. Mas como emergência irreversível de Vida e Amor que vence até a morte e se torna esperança de um Reino onde «não haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor» (Apc 21,4), um Reino já a emergir na história pela presença do Espírito do Ressuscitado, o Espírito Santo que como «Amor de Deus derramado nos nossos corações», faz acontecer o Perdão, a libertação, o Bem e a Justiça. Na certeza das palavras do Ressuscitado, «Bem-aventurados…»
Esta experiencia única do Amor gratuito do Pai leva Jesus a purificar o próprio rosto do ser humano, de cada pessoa. Parece que a lente de Jesus é a própria lente de Deus que vê em cada um, com as suas marcas, imperfeições e sofrimentos, o rosto belo, “demasiado bom” de Adam no Projecto Criador. Como sabemos, não se trata de um “paraíso perdido” lá no início, mas da vocação a que o Homem está chamado a ser.
Experimentando o Cuidado Amoroso e Paternal do Abbá pelas suas cristuras, esse Cuidado gratuito e generoso do acto criador, Jesus vai testemunhá-lo sobretudo junto dos que vivem mais oprimidos, os Anawim. É a nova condição de Filhos, que ultrapassa todas as lógicas da lei e submissão. Paulo, olhando para o próprio mistério de Cristo, chama-lhe a “Plenitude dos Tempos”: “Quando chegou a Plenitude dos Tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os súbditos da lei afim de recebermos a condição de Filhos. E como sois Filhos, Deus derramou nos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, Pai! De modo que não és escravo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro, por disposição de Deus” (Gal 4, 4-7).
O ser humano é verdadeiramente a única imagem de Deus; em nome desta centralidade da pessoa, Jesus relativiza as principais práticas religiosas judaicas: “o sábado foi feito para o Homem, não o Homem para o sábado” (Mc 2, 27). “Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todo o tipo de verduras, e descuidais a justiça e o Amor de Deus” (Lc 11, 42). Perante todo o tipo de tradições e práticas religiosas, até sociais, Jesus aponta para a centralidade do Homem: “Levanta-te e coloca-te no meio” (Lc 6, 8). O mesmo acontece em relação às distinções que se estabeleciam entre as pessoas por causa dos critérios de pureza e impureza: uma visão pessimista da realidade, que separava as pessoas e as levava a viver com desconfiança.
Perante isto, Jesus vive com uma certeza e confiança na bondade da Criação: come e bebe, ao contrário dos discípulos de João e dos fariseus, participa em festas e utiliza a imagem do Banquete para falar do Reino de Deus, no qual todos estão convidados a participar. Rompe com a lógica dos alimentos puros e impuros. “Escutai todos e compreendei. Não há nada fora do Homem que, ao entrar nele, possa contaminá-lo. O que sai do Homem é que contamina o Homem” (Mc 7, 15). A maneira como se deixa tocar por mulheres (Lc 7, 37), leprosos (Mt 8, 2) e até crianças (Lc 18, 15) prova a sua liberdade perante os tabus que deturpam as relações em nome de um deus falso porque falseia o Homem!
Encontro talvez um tabú em Jesus, um mandamento que ele apresenta com uma seriedade radical: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e vos perdoarão. Dai e vos darão” (Lc 6, 37). O que parece que está em causa é um modelo de relações que Jesus estigmatiza, a de agir com o outro e vê-lo com base nos próprios critérios: “Porque reparas no cisco do olho do teu irmão e não reparas na viga que tens no teu?” (Lc 6, 41). Parece que para Jesus é uma questão de vida ou de morte. Talvez seja esta a sua versão do mandamento do Génesis: “Podes comer de todas as árvores do Jardim, mas não comerás da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, pois no dia em que comeres, morrerás” (Gen 2, 17).
O que está em causa não é um pretenso juízo ou castigo de Deus, que afinal responderia ao Homem na mesma moeda e não naquela liberdade criadora e gratuita das Origens. O que está em causa é a própria lógica de viver do ser humano, da maneira como constrói ou desconstrói as suas relações. A ordem da lei, do juízo e da condenação não é capaz de superar e transformar o mal e o pecado. Pelo contrário, conduz a uma espiral de violência e de morte que acaba por conduzir Jesus à Cruz, sob a lei romana e sacerdotal. O único tabu talvez que Jesus expulsa é o Homem fechado em si mesmo, centrado em lógicas de poder, sucesso e glória, como o demonstra a catequese dos Evangelhos Sinópticos sobre as tentações (Lc 4, 1-13). É a essa dinâmica de morte que Jesus lança o seu maior alerta, e que como vemos é uma questão humana, mais que religiosa: “Deus disse: Insensato! Nesta noite te pedirão a vida. Aquilo que preparaste, para quem será? Assim é aquele que acumula para si e não é rico para Deus” (Lc 12, 20).
O anúncio de Jesus apresenta a Liberdade de Deus que entra na história dos homens de uma maneira radicalmente nova e original. É de facto uma Nova Ordem, uma nova Era que está a nascer: diante de todas as lógicas fechadas de relações segundo a lei e de realização pessoal segundo a conquista e a luta, o Amor de Deus surge como Proposta de Graça, Perdão e Criatividade. Sem dúvida, o Reino de Deus é o Reino do Homem Livre; é uma Nova Criação que está em marcha, uma Nova Humanidade pronta a renascer: “A Humanidade se emancipará da escravidão da corrupção, para obter a liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rom 8, 21).
O Projecto de Jesus, o Projecto de uma Nova Humanidade que possa nascer na Ordem da Graça e da Vida. Na experiencia de Jesus estará sem dúvida uma tremenda confiança na vontade do Pai, na certeza de que essa vontade coincide com o que é melhor para o Homem. Deus está aí como uma plena doação de Amor e Perdão que conduz a Humanidade para uma nova Lógica, a Lógica da Salvação, da Graça e da Liberdade. A Ordem do Espírito. “Capacitou-nos para servir uma Aliança Nova: não de simples letras, mas de Espírito; porque a letra mata, o Espírito dá vida. Onde está o Espírito do Senhor, aí está a Liberdade” (2Cor 3, 6.17).
A resposta que nos é pedida diante deste Dom ultrapassa em muito uma conversão moral, um esforço de sermos pessoas melhores. Trata-se de um acolhimento agradecido, que nos leve a superar todas as lógicas egoístas e fechadas do Homem Velho, e nos leve a renascer para a Loucura desta Graça e deste Amor Revelado: “Em verdade te digo que, se não nasceres de novo, não poderás entrar no Reino de Deus” (Jo 3, 3).
Sem dúvida, o que motiva e conduz toda a vida de Jesus de Nazaré é a sua experiencia de encontro com Deus. Jesus descobre de uma maneira única e absolutamente original o jeito de Deus de amar e se relacionar com a sua criatura, o seu parceiro de Aliança, Adam. De novo, é na pregação do Reino de Deus que podemos descobrir a melhor imagem, e a melhor Boa-Noticia, sobre o Homem. A experiencia que Jesus faz deste Deus do Reino vai conduzir à sua maneira de estar e falar do Homem, e traduz-se numa Boa-Noticia de uma Sabedoria estupenda.
O começo da vida pública de Jesus, da sua missão, encontra-se no Baptismo por João Baptista, no Jordão. A pregação de João apresenta um tom negativo: a história humana está traçada a desaparecer sob o julgamento de Deus, a conversão torna-se uma “tábua de salvação” para escapar da condenação final. “O machado já está posto à raiz da árvore; a árvore que não produzir frutos bons será cortada e lançada ao fogo” (Mt 3, 10).
O que está em causa é um modo de ver a Deus que conduz ao modo de viver as relações, os acontecimentos. Ao longo do Antigo Testamento, a visão da Aliança como Proposta gratuita e libertadora de Deus, sempre disposto a perdoar e a seduzir pela ternura da Palavra, vai a par da visão da justiça retributiva e coactiva: Deus actua na medida das acções humanas, e termina com o pecado e o mal pela violência. Esta visão de Deus modela a base das relações sociais: a lei de Talião. “Se alguém fizer um ferimento ao seu próximo, far-se-á o mesmo a ele: fractura por fractura, olho por olho, dente por dente; conforme o dano que tiver feito a outro homem, assim se lhe fará a ele” (Lv 24, 19-20).
É bem visível nos testemunhos dos Evangelhos que Jesus ultrapassa esta visão violenta das relações humanas a partir da sua própria experiencia de Deus. Jesus admira em João Baptista a sua coerência e fidelidade até à morte, nas mãos de Herodes. João foi capaz de intuir a proximidade do Reino: “Eu vos asseguro: dos nascidos de mulher ainda não surgiu um maior que João Baptista” (Mt 11, 11). No entanto, Jesus distancia-se da visão de João: a intervenção decisiva de Deus na história humana não será de destruição e violencia, mas de Graça e Salvação. Inaugura-se, de facto, uma nova era, assente não já na lei de Talião, mas na Graça de Deus; e João pertence ainda à antiga ordem: “O ultimo no Reino de Deus é maior do que ele” (Mt 11, 11).
Marcos apresenta bem esta novidade de Jesus através das curas que aparecem no inicio do Evangelho: é uma “autoridade” (Mc 1, 27) que vence os espíritos malignos pela libertação dos enfermos; ao mesmo tempo declara: “Os teus pecados estão perdoados” (Mc 2, 5) e aceita a colectores e pecadores como discípulos: “Era convidado na casa dele (Levi) e muitos colectores e pecadores estavam à mesa com Jesus e os seus discípulos. Pois muitos eram seus seguidores” (Mc 2, 15). Naturalmente que estes comportamentos de Jesus provocam o murmúrio de fariseus e escribas: está em causa o processo “normal” de relações, assente na separação moral e nos critérios de pureza.
O surpreendente vem das justificações que Jesus dá: “Os sãos não tem necessidade de médico, mas os doentes sim. Não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2, 17). Assume como a sua missão comportar-se deste modo, assume que é esta a vontade de Deus, não está para aplicar a lei farisaica ou a pureza cultual, mas superá-las pela Graça. Trata-se de uma Novidade, de uma nova era, que ultrapassa a anterior do fariseismo e de Talião: “Ninguém põe vinho novo em odres velhos, pois o vinho arrebenta os odres e se perdem odres e vinho. Para vinho novo, odres novos” (Mc 2, 22).
O Evangelho de Mateus reúne no Sermão (capítulos 5 a 7) uma série de frases e discursos de Jesus verdadeiramente surpreendentes. Pelas Bem-Aventuranças ultrapassa a ideia de felicidade através do sucesso e da conquista nas relações, para uma Nova Ordem, uma nova realidade na qual os papéis são trocados. Com a frase “Pois eu digo-vos, se a vossa justiça não superar a dos letrados e fariseus, não entrareis no Reino de Deus” (Mt 5, 20), Jesus começa um discurso no qual procura superar as lógicas da lei. Mais importante que os sacrifícios está a iniciativa da reconciliação: “Se fores, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta” (Mt 5, 23-24).
À lei de Talião de olho por olho e dente por dente, Jesus responde de maneira surpreendente: “Pois eu vos digo: não resistais ao malvado. Pelo contrário, se alguém te dá uma bofetada na face direita, oferece-lhe a esquerda” (Mt 5, 39). Aos restritos critérios de amizade e proximidade, Jesus rompe os horizontes: “Pois eu vos digo: Amai os vossos inimigos, rezai pelos que vos perseguem. Se amais somente os que vos amam, que prémio mereceis?” (Mt 5, 45-46).
De novo, Jesus justifica-se dizendo: eu actuo e proponho isto, porque é assim que Deus é e faz! “Assim sereis filhos do vosso Pai do Céu, que faz surgir o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai do Céu é perfeito” (Mt 5, 45.48). É surpreendente. Caem todas as ideias de um deus que serve para justificar e aplicar a pequena justiça humana, que estabelece distinções entre bons e maus, puros e impuros, e conduz a uma espiral sem fim de violência e morte na qual o ultimo episódio (mas não diferente) seria o Juizo Final.
Parece que o anúncio do Reino, em Jesus, está nesta Nova Lógica do Deus da Graça e da Bondade. Jesus experimenta o Cuidado Amoroso do Abbá que é um convite à confiança e à libertação das preocupações opressoras do dia-a-dia: “Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?” (Mt 6, 26-27)
Parece que Jesus regressa àquele Projecto Original de Deus para Adam, Projecto que se está a realizar agora, de um Deus Criador por pura gratuidade que ama as suas criaturas: “E viu Deus que tudo era bom”. É a esta Bondade criativa que supera a lei que Jesus apela no caso da tradição desumanizante do divórcio que subjugava as mulheres: “Porque sois obstinados, Moisés escreveu semelhante preceito (de repudiar a mulher); mas no princípio da Criação, não era assim…” (cf. Mc 10, 5)
No Evangelho de Lucas encontramos parábolas de uma novidade única: para falar do Amor a Deus e ao Próximo, Jesus apresenta o bom exemplo de um Samaritano, povo odiado pelos judeus, e como mau exemplo o sacerdote e o levita vindos de Jerusalém. Para responder à murmuração dos fariseus “Este recebe pecadores e come com eles” (Lc 15, 2), Jesus apresenta uma parábola na qual a maneira de ser de Deus é comparada ao pastor que deixas as 99 ovelhas para procurar uma, ou a moeda perdida, ou o Pai que corre a beijar o filho separado para o vestir de novo na sua dignidade filial, perante a murmuração do filho mais velho que se recusa a entrar na festa.
Podemos não entender até recusar instintivamente estas lógicas de Jesus como sendo do próprio Deus, porque nos afectam nos estímulos mais naturais de defesa, reacção e controlo. Mas é um facto que os evangelistas nos transmitem com uma sobriedade maravilhada perante a Graça sobreabundante revelada na Ressurreição. “Eu te digo que não sete vezes, mas setenta e sete. Pois o Reino de Deus se parece…” (Mt 18, 22). É à luz da novidade desta experiencia de Deus que Jesus apresenta o seu Projecto para uma Humanidade Nova, uma Humanidade reconciliada e agradecida segundo a vontade do Pai, o seu Reino. Um jeito original e criativo de ser de Deus que rompe os esquemas fechados de relações. Paulo vai dedicar páginas apaixonadas na Carta aos Romanos a esta Graça, verdadeira loucura. Jesus dedica-lhe uma entrega até ao fim.
«Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha. A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis.’ A serpente retorquiu à mulher: ‘Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal’.»
Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu. Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus, coseram folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas, como se fossem cinturas, à volta dos rins.
Ouviram, então, a voz do Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim. Mas o Senhor Deus chamou o homem e disse-lhe: «Onde estás?» Ele respondeu: «Ouvi a tua voz no jardim e, cheio de medo, escondi-me porque estou nu.» O Senhor Deus perguntou: «Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura, da árvore da qual te proibi comer?» O homem respondeu: «Foi a mulher que trouxeste para junto de mim que me ofereceu da árvore e eu comi.» O Senhor Deus perguntou à mulher: «Por que fizeste isso?» A mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi.»
O Senhor Deus fez a Adão e à sua mulher túnicas de peles e vestiu-os. O Senhor Deus disse: «Eis que o homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre.» O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, a fim de cultivar a terra, da qual fora tirado. Depois de ter expulsado o homem, colocou, a oriente do jardim do Éden, os querubins com a espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da Vida.»
Ao longo da história de Israel, há um dado que vai marcar permanentemente a sua experiencia de fé: a evidencia do mal e do pecado. Perante um Deus santo e justo, a quem pertence a Criação, como pode existir esta realidade tão marcada pela injustiça, sofrimento e morte? A reflexão em Israel acontece a partir da sua experiencia religiosa: ao contrário do que estamos habituados a pensar, a experiencia religiosa de encontro com Deus não serve para aceitar passivamente o mal e o sofrimento, pelo contrário! É a partir do reconhecimento da Bondade de Deus e do seu Projecto de Aliança que o sofrimento mais surge como uma desordem, é posto em causa, é algo que simplesmente não faz sentido. A par desta realidade, o Antigo Testamento reconhece uma permanente situação de pecado, em Israel e toda a Humanidade, uma incapacidade de vivencia da Aliança e de uma harmoniosa convivência humana. É uma situação que abrange a todos os indivíduos, sem excepção, na ideia bíblica de Humanidade como união orgânica e solidária.
O nosso texto é uma reflexão sapiencial que procura dar respostas a esta situação, presente, através de um relato simbólico. Outras respostas foram surgindo ao longo do AT, como os livros de Job ou Qoélet, para além dos Profetas. O autor utiliza o método tipicamente hebraico da contradição: uma primeira parte apresenta a vocação do Homem como uma vocação ideal, de comunhão com Deus, como já vimos. Numa segunda parte, a não realização deste quadro pela emergência do pecado.
Apesar de já termos visto a primeira parte, dois elementos são aqui importantes: primeiro, o autor apresenta o contexto da relação com Deus com elementos que, na tradição profética, servirão para falar da era messiânica, da Plenitude dos Tempos: o jardim como morada de Deus, com as pedras preciosas e os querubins, a fertilidade, a concórdia com todos os seres vivos… Mais que uma reportagem do passado, o texto aponta o quadro ideal da relação com Deus à qual o Homem está chamado, vocação que está presente desde o Princípio no Projecto Criador de Deus.
Depois, as duas árvores, que estão no centro do Jardim e do nosso texto. Primeiro, a Árvore da Vida que, tal como a morte, na concepção bíblica é um conceito religioso mais que biológico. O Homem vive, ultrapassa a sua condição de ser da Adamah, na medida em que se relaciona com Deus, de quem recebe o Sopro da Vida, com o Próximo ou Auxiliar, e com a Criação. A esta Árvore, o Homem não está proibido de comer: é um Dom.
A segunda árvore é a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal: discernir o bem do mal, possuir o conhecimento de toda a realidade é um atributo apenas de Deus. Aqui está em causa a própria relação do Homem com Deus: Deus, com o mandamento, abre espaço para a autonomia e resposta de Adam. Está em causa o Homem aceitar, na sua relação com Deus, a sua vocação de criatura, talhada para o acolhimento e dom, não para a posse, o juízo, a violência.
Assim, para o autor, está em causa a opção fundamental do Homem perante Deus, e perante a sua própria vida. O Homem tem a possibilidade real de dizer não a Deus, de recusar o projecto de uma relação de Aliança, de optar viver na lógica da posse, e não do acolhimento. A própria imagem de Deus fica deturpada: na boca da serpente, símbolo da tentação ou possibilidade de recusa, está um deus ciumento e concorrente do Homem, quando a Aliança é precisamente Deus a constituir o Homem como interlocutor e parceiro, na liberdade e responsabilidade e, portanto, capaz de recusar.
Com o pecado, as relações vitais do ser humano ficam deturpadas: o homem e a mulher têm vergonha da sua nudez, da sua condição de criaturas, e depois acusam-se mutuamente; o Homem foge de Deus que o procura sem desistir: “Onde estás?”. Até com a Criação a relação deixa de ser harmoniosa para se tornar numa fonte de conflitos. É a própria vocação do Homem, expressa nas suas relações vitais, que fica em causa com o pecado, com a lógica de viver na posse e na concorrência em vez do acolhimento e da Graça. Depois a história continuará: Caim matará Abel, a torre de Babel, o Dilúvio, a lógica da Lei de Talião (olho por olho, dente por dente) que representa a violencia controlada e legitimada.
A resposta do autor procura, portanto, desresponsabilizar o Projecto de Bondade de Deus, colocando a origem do mal na responsabilidade do Homem e na sua capacidade de dizer não à Aliança. É o Homem, com as suas opções de posse e domínio contrárias ao amor, quem marca negativamente os ritmos vitais e relacionais com o próximo, com a Criação, com Deus.
Em todo o caso, é fundamental analisar as portas abertas pelo autor, segundo a melhor tradição bíblica. É evidente que não podemos ler o texto como história científica. Mas é verdade que o autor fala do pecado como um Acontecimento, algo estranho que surge na história, independentemente do quando e onde: a entrada de ritmos negativos de pecado na história humana, acontecimento que remonta aos primórdios da Humanidade e que a percorre segundo o princípio bíblico da solidariedade. O autor preocupa-se em tornar o mal em algo histórico, ou seja: ele pertence à história humana, não ao Projecto Original de Deus que sonha uma Criação boa e, tal como o pecado surgiu historicamente, pode e deve ser combatido e transformado na história humana. Como um elemento estranho que entra num corpo.
O pecado não é algo natural ao ser humano, senão que pertence á sua responsabilidade e pode, por isso, ser vencido. O pecado, mais que uma questão religiosa, é uma questão puramente humana: trata-se de opções e dinâmicas de mal que afectam as relações e afastam a pessoa da sua vocação humanizante. A “emergência pessoal mediante relações de Amor e opções pelo bem” significa inscrever na história ritmos positivos que vencem a dinâmica do mal. O autor tira a carga mítica e fatalista do mal e atira-o para um campo de batalha, a história do Homem livre e responsável, que o tem de combater e vencer!
E Deus é o primeiro a fazê-lo: segundo a melhor tradição bíblica, aqui começa uma história de Salvação e não de perdição ou degeneração, como pode parecer a quem observa os acontecimentos em qualquer momento. É Deus, não o ciumento ofendido da tentação mas o Deus da Aliança, quem veste o Homem, é Deus quem impede que o Homem seja eternamente mau, é Deus quem acompanhará o Homem numa história de Graça, até ao Jardim ao qual está chamado, desde o Princípio, Jardim aberto em Cristo.
E com este post terminamos a caminhada no Antigo Testamento. Naturalmente que encontramos outros livros onde surge a questão do Homem, sempre à luz da Aliança: a reflexão do livro da Sabedoria, mais próxima ao tempo de Jesus, as respostas dos livros de Job e Qoelet à questão do sofrimento e do mal, ou a maneira como o Povo experimenta a Aliança de Deus, desde a Promessa de Abraão, a Libertação e Lei de Moisés, a Eleição dos profetas e reis...
Por agora fazemos um intervalo neste caminhada de Antropologia. Nos próximos dias partilharei três textos do redentorista Bernard Haring sobre a Igreja e a sua renovação. Mais tarde retomamos a nossa caminhada procurando um pouco a maneira como Jesus vê e vive o ser humano à luz da relação com o Abba, e depois a experiencia do Novo Testamento a partir da Ressurreição de Jesus. Verdade, verdade, será que há uma Antropo-logia do Novo Testamento?
Quando o Senhor Deus fez a Terra e os céus, e ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar, e da terra brotava uma nascente que regava toda a superfície, então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo.
Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, ao oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. O Senhor Deus fez brotar da terra toda a espécie de árvores agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer; a árvore da Vida estava no meio do jardim, assim como a árvore do conhecimento do bem e do mal. (…)
O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar. E o Senhor Deus deu esta ordem ao homem: «Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás.»
O Senhor Deus disse: «Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele.» Então, o Senhor Deus, após ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, a fim de verificar como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes desse. O homem designou com nomes todos os animais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes; contudo, não encontrou auxiliar semelhante a ele.
Então, o Senhor Deus fez cair sobre o homem um sono profundo; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe um dos seus lados, cujo lugar preencheu de carne. Do lado que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. Então, o homem exclamou: «Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!» Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne. (Gen 2, 4-24)
O texto de Gen 2,4b-3,24 é provavelmente mais antigo que o anterior, pertencente ao ambiente monárquico em Jerusalém nos sécs. IX até VII. Não se trata de um relato sobre a criação do mundo, senão sobre a criação do Homem (2,4b-24) enquanto homem e mulher, e da origem e existencia do mal (2,25-3,24). De novo, o nosso texto procura respostas face ao presente, real, do ser humano na sua experiencia do mal. E descobre-as à luz da experiencia de fé de Israel, no esquema tradicional com que lê a sua história:
O Homem é modelado do solo, eleito e colocado no jardim, preparado por Deus, dá-lhe a missão de cuidar do jardim e guardar o seu mandamento, o Homem não o cumpre, Deus expulsa Adam do jardim para Oriente. Mas, no fim, começa uma história de regresso, vestindo o Homem, impedindo-o de ser eternamente pecador.
Israel: o Povo nasce no deserto, é eleito e libertado por Deus rumo à Terra Prometida, recebe a missão de a cuidar no culto e no cumprimento da Aliança, mas Israel não cumpre essa missão, torna a Terra Prometida um lugar de sofrimento por não viver na lógica da Graça, até partir para o exílio, para Oriente (Assíria, Babilónia). Mas Deus parte sempre com o Povo, para com ele começar uma história de reconciliação.
Portanto, temos no texto uma leitura da história da Humanidade à luz da experiencia de relação de Israel com Deus, sem qualquer pretensão de apresentar informações científicas. O autor não se preocupa com a origem da Criação: ela surge, de novo, pela pura vontade de Deus. Mas a Criação só ganha sentido com o Homem: é ele quem a pode cultivar (v.5). É para ele que a Criação está aí, para que nela exerça o seu trabalho, nela colabore com o Criador.
É de facto magnífica a imagem com que o autor expressa a origem do Homem, ou seja, a relação deste com Deus. Utiliza a figura popular de Deus como modelador do Homem a partir do pó do solo (Adamah) tornando-se assim o Adam. Aqui se expressa a condição natural do Homem, ligado à Criação e partindo dela, sem que esta condição possua, no nosso texto, qualquer conotação negativa, ao contrário da lógica dualista grega. Aqui surge a primeira relação vital de Adam: com a Criação, o mundo, a sua condição natural.
É a este Adam que Deus “sopra” um “alento de vida” tornando-se um “ser vivo” que respira. Na tradição bíblica, é pelo ar de Deus, a sua Ruah, que o Homem vive, e morre quando Deus lhe retira esse ar, deixando de respirar. O judaísmo lerá neste sopro um Beijo de Deus ao Homem. Intimidade, troca de hálitos, toque. Profunda comunhão de Deus com o Homem, por sua iniciativa – eis a Graça. De novo, numa harmonia admirável, sem lutas, conflitos, méritos, conquistas, posses. Apenas dom e acolhimento, Graça e gratidão. O Homem é eleito por Deus, o Homem na sua condição integral, unitária, de ser natural, “vindo do pó” – é esse que Deus beija, não um qualquer “princípio espiritual” e é nessa lógica, Adam vivificado pelo Beijo de Deus, que tradição bíblica vê o ser humano.
A Graça de Deus não termina por aqui: Deus prepara um jardim para o Homem, um jardim que o Homem não cultivou nem conquistou, mas recebeu por pura Graça, com a missão de o acolher e cuidar. Um jardim com todos os dons, cujo centro é a Árvore da Vida, pela qual o Homem vive, presente desde o princípio no Projecto de Deus, sem restrições nem preços. O autor desenvolve outra relação vital do ser humano, presente desde o princípio: a relação com Deus, relação de intimidade e comunhão, relação de convivência num mesmo jardim preparado por Deus e acolhido na Graça, onde Deus “passeia à brisa da tarde” (3,8). Um Projecto comum, uma Aliança, vida partilhada, na qual o Homem trabalha, cuida, dá sentido à sua vida e a toda a Criação.
E Deus dá um mandamento ao Homem: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A experiencia do Deus da Aliança conduz a uma grande proclamação: sendo o seu Criador, Deus estabelece o Homem como seu interlocutor, faz uma Proposta que não é imposição mas convite à Resposta, lança o Homem como ser responsável, livre e autónomo. Segundo o autor, mais à frente, será esta a origem do mal – o ser humano é capaz de recusar a Aliança, e faz-lo, deixa de viver em Aliança, deixa de acolher a vida e a terra por Graça. Mas aqui está uma dimensão fundamental da relação de Deus com Adam: o respeito, a diferenciação que torna o Homem livre, o diálogo que Deus estabelece e que torna o Homem num tu, num parceiro de Aliança. Em linguagem contemporânea, Adam é constituído como pessoa, sujeito de vontade, parceiro de relação. Neste mandamento de Deus, que exprime a Aliança de Israel na escuta fundamental, está a maior proclamação da dignidade do ser humano.
Relação vital com a Criação, à qual o Homem pertence e na qual desenvolve a sua vocação de cultivar e cuidar (trabalhar, criar, inventar), e relação vital com Deus, de quem recebe a vida em intimidade e comunhão, de quem é eleito, de quem é constituído parceiro de Aliança, interlocutor de diálogo, chamado a dar uma resposta livre e acolhedora. Falta a terceira relação vital segundo o autor: a relação com o tu humano.
De facto, Adam, a Humanidade, está só: não lhe chega os animais e seres a quem domina atribuindo-lhes um nome. Parece até que não lhe chega a relação com o Criador, ou antes, o Homem não pode ainda dar a sua resposta ao mandamento de Deus – esta resposta surge no tu-a-tu humano, é na fraternidade e comunhão que a Humanidade corresponde à Aliança. A mulher, o tu, a auxiliar ou parceira de comunhão, o Próximo, é também dom de Deus que o Homem não conquista nem domina – apenas acolhe, primeiro no sono, lugar de revelação na Biblia, e depois num grito de júbilo, na primeira vez que fala em todo o texto: “é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v.23), é da minha Humanidade, brota do seu “lado” para agora chegarem à verdadeira vocação humana, a comunhão: uma só carne, uma só comunhão, pertença, partilha, diálogo. O Homem torna-se imagem de Deus no diálogo, na comunhão, no respeito, tal como Deus o faz. E esse Amor que acontece ultrapassa a mera relação humana: atravessa a Humanidade como a sua espinha dorsal: “todo aquele que ama nasceu de Deus pois Deus é Amor” (1Jo 4,8).
Está concluída a leitura de sentido que o autor dá ao ser humano à luz da experiencia de fé do seu Povo: a pessoa como ser ligado à Criação, a Deus e ao tu humano, na lógica da Aliança, do diálogo e da comunhão, do respeito, acolhimento e Graça. O autor não pretende elaborar uma mitologia de um começo longínquo, senão que exprime à luz da sua fé a compreensão do Homem no presente, o sentido da sua existência que está chamado a viver e a construir.
Depois, Deus disse: «Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.» Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher.
Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus e a todos os seres vivos que existem e se movem sobre a terra, igualmente dou por alimento toda a erva verde que a terra produzir.»
E assim aconteceu. Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o sexto dia. Foram assim terminados os céus e a Terra e todo o seu conjunto.
Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado. Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o, visto ter sido nesse dia que Ele repousou de toda a obra da criação. Esta é a origem da criação dos céus e da Terra.
(Gen 1,26-2,4)
A Criação do Homem, no nosso texto, é envolvida numa solenidade especial, como que o momento alto da celebração liturgica do Sábado. O Homem não “surge” nem é “produzido segundo as suas espécies”, como os animais: provém de uma vontade expressa de Deus, directa: “Façamos”. Por tres vezes Deus fala ao Homem, “diz” (v. 26,28 e 29) e, só no v.27, numa breve proclamação surge o verbo técnico “bara” por tres vezes, mais do que em todo o restante texto. E se, ao longo do texto Deus vai proclamando que “tudo é bom”, em relação ao Homem o tom chega ao superlativo: é “demasiado bom” (v. 31). Ao contrário do texto de Gen 2,4-24, aqui o Homem não ocupa o lugar central do texto, senão que se insere em todo o processo da Criação. No entanto, o autor não deixa de lhe reservar um lugar especial, e de certo modo todo o texto corre para ele, atingindo um auge no sexto dia, para cumprir a sua plentiude no sétimo dia.
Aqui não temos um desenvolvimento da relação Homem-Mulher à luz da Aliança, como surgirá em Gen 2,20-24. O texto é directo e declara logo que Adam (a Humanidade, o ser humano) é criado homem e mulher, de imediato, sem hierarquização nem qualquer valorização. É enquanto Homem e Mulher, na complementariedade, que Adam, a Humanidade, é imagem de Deus.
“Imagem de Deus, à sua semelhança”: o significa mais original desta expressão é que o Homem é chamado por Deus a ser o seu representante junto de toda a Criação, com uma dignidade especial, com a missão de “dominar” e “submeter” a terra e todos os elementos. Esta proclamação surge por exemplo no Salmo 8:
Quando contemplo os céus, obra das tuas mãos, a Lua e as estrelas que Tu criaste: que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares? Quase fizeste dele um ser divino; de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos, tudo submeteste a seus pés. (Sal 8, 4-7)
Vemos a dignidade senhorial de que é revestido o Homem, desde a experiencia original da Aliança, não só os reis, os senhores proprietários, mas todo o ser humano. Para a lógica babilónica, o Homem era um ser surgido ao acaso, em concorrencia e inveja com as divindades, até dominado pelos elementos marinhos e astrológicos; para Aristóteles, o Homem é um “animal racional” apenas com algumas qualidades que o distingue dos animais e que só alguns podem exercer – os escravos, as mulheres, as crianças não exercem as capacidades da razão e, logo, não possuem dignidade. No nosso texto, o Homem, toda a Humanidade é chamada por Deus a uma dignidade nova, que nenhum elemento recebe, a dignidade da relação com Deus. O primeiro Humanismo é, de facto, o Humanismo biblico.
A Criação fica “concluida” com a vocação do Homem, o que não significa que fique “acabada”. De facto, surge aqui outra novidade radical do texto: o Homem é concriador de Deus, a Criação não é um mecanismo fechado, automático, dominado pela necessidade, mas é uma história que o Homem escreve com o Criador, uma história aberta à novidade, à invenção, à arte, à liberdade. A Criação tem como origem a pura liberdade gratuita de Deus e acontece na liberdade do Homem que a lidera. O Homem é Partner de Deus, e a Imagem é uma história de Aliança na qual o Homem acolhe de Deus a sua vida e toda a Criação e o próprio Deus se compromete com o Homem: de facto, Deus elege-o com seu representante, a todo o ser humano, e de certo modo entrega-se nas suas mãos. O sucesso desta história que é a Criação dependerá do sucesso da relação de Deus com o Homem e esse sucesso já se inaugurou, na mútua fidelidade que possibilitou a Ressurreição do Nazareno e a inauguração da “Plenitude dos Tempos”.
O esquema da Aliança, da relação de Deus com o Homem, estará na base do texto seguinte, de Gen 2,4b-3,24. Aqui o realce está na dignidade do Homem como concriador, Partner de Deus na obra da Criação que continua; dignidade que pertence a toda a Humanidade, todo o ser humano, homem e mulher.
O sétimo dia surge também com a solenidade própria do Sábado para a Aliança de Israel: surge por três vezes a expressão “sétimo dia”, Deus “descansa” neste dia, “abençoa-o e santifica-o”. De novo, segundo a posição do autor, toda a Criação, a Natureza, a História estão ao serviço da Aliança, são “abraçadas” pela Salvação que Deus oferece em Aliança, a sua própria vida, o seu próprio descanso. Para Israel, o Sábado significa a paragem do trabalho, da rotina, do procurar responder às necessidades vitais («Porventura não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo.», Mt 6,25;33). Israel celebra a Aliança, proclama a História de Salvação que dá sentido ao tempo, ao correr dos dias, à vida como construção e à Criação como Projecto.
Recorda-te do dia de sábado, para o santificar. Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho. Mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor, teu Deus. Não farás trabalho algum, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, os teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas. (Ex 20, 8)
Não deixa de ser interessante a novidade que este sábado constituiu naquele contexto: nenhum povo possuía um dia assim dedicado ao descanso, no qual até os escravos paravam o trabalho – parece até que, no tempo de Jesus, os próprios romanos tinham inveja desta tradição religiosa! Ao colocar a Criação a culminar no 7º dia, o autor está a proclamar o seu sentido e finalidade: a Aliança. É, de novo, uma leitura teologal da realidade, que procura o seu sentido para além de todas as explicações e esquemas científicos, antropológicos, parciais.
O repouso de Deus significa também o espaço do Homem, a sua liberdade e responsabilidade para ser: na lógica bíblica da Aliança, Deus não vive em concorrência com o Homem mas elege-o como seu parceiro. Precisamente porque se dá, permite ser; porque ama, dá espaço para o outro ser diferente, escrever a sua própria história. Como um pai com o seu filho. A lógica de Deus é a lógica da Kenosis revelada em Jesus: «Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo.» (Flp 2,6). É aí que o Homem pode ser verdadeiramente, na sua dignidade: parceiro na obra da Criação. Um 7º dia, uma Plenitude prometida, esperada, preparada pela História, uma Plenitude já inaugurada no Dom total da vida de Deus, da sua Salvação, na Ressurreição de Jesus. Esta torna-se o 1º dia de uma nova Semana: a Criação chega ao seu Sentido, inaugura-se a Nova e Eterna Aliança, o Homem é divinizado.
Um texto poético, celebrativo, no mais profundo da verdade e do real, em que a Criação e o Homem são cantados à luz da Aliança, do jeito de Deus se revelar como Graça, em que toda a realidade é abraçada na História da Salvação que Deus escreve com a Humanidade. Um sentido de Plenitude prometido por Deus, Promessa feita a Abraão, celebrada no Sábado em que o Homem é convidado à intimidade de Deus. O ser humano, a Humanidade, que ganha uma dignidade nova, como Partner de Deus, a quem a Criação é entregue, uma Criação boa, sem absurdos, determinismos e sem-sentidos que não sejam assumidos pela Palavra de Sentido, Palavra de Aliança.
O texto de Gen 1,1-2,4a é propriamente a única Cosmogonia em toda a Biblia, o único texto que se dedica explicitamente à Criação do Cosmos, dos elementos naturais. O outro texto sobre a Criação (2,4b-3,24a), mais antigo, centra-se já na criação do Homem e na origem do mal. Ambos os textos foram elaborados em épocas diferentes, a partir de fontes diversas e, como já adiantamos, não está na sua intenção nem no seu género literário darem uma resposta científica à origem do Cosmos, senão unir a Criação, o Universo e toda a Humanidade à história de Aliança que Deus constroi com Israel.
O nosso primeiro texto terá sido elaborado nos circulos sacerdotais em Jerusalém por volta do exílio na Babilónia – séc. VI a. C. – ao mesmo tempo que os textos proféticos de Jeremias, Ezequiel e, sobretudo, o segundo Isaias (cap. 40 a 55). Este dado é muito importante para compreendermos o que está por debaixo do nosso texto. No exílio na Babilónia, Israel encontra-se dominado pela cultura e crenças babilónicas, contrárias à sua fé. Aqui, havia já alguns textos (como o Enuma Elis) sobre a criação do Cosmos e, segundo estes, a origem do mundo resultava essencialmente de confrontos entre as diversas divindades que, por azar, resultava nos diversos elementos entre os quais o Homem (formados a partir da morte dos deuses derrotados). Ou então, na origem estava o Caos, uma realidade absurda e sem sentido que os deuses procuravam ordenar. Dois princípios, portanto, que a fé bíblica rejeita: a criação que resulta de um azar do mundo divino, e a criação que resulta de um caos anterior, também ele negativo. Concepções pessimistas, idolátricas, sem-sentido. Tudo acontece por acaso, sem-querer e sem-finalidade.
Já vimos que, para a fé bíblica, a história tem um sentido, resulta de um dom gratuito e libertador de Deus, vai-se escrevendo em Aliança, e tem como horizonte uma Salvação que Deus promete. É assim que Israel vê a sua história, desde a Promessa a Abraão, a libertação do Egipto, a Aliança do Sinai, a Terra Prometida na qual Israel será o Povo da Aliança e da Justiça de Deus. Para defender a fé dos seus irmaos, o autor vai responder às crenças babilónicas: vai unir a própria criação do Universo e do Homem à história da Aliança. Se na experiencia original de Israel está a Bondade e a Graça de Deus, como a base de uma casa, então do nosso texto só pode sair uma Boa-Noticia libertadora!
Possivelmente o autor assume elementos das crenças populares sobre a Criação, o começo de trevas e caos (v.2), Deus a separar entre o dia e a noite (v.4), a separar as águas (v.7) a presença dos astros (v.16) com poder sobre os dias – popularmente os astros eram divinizados, com uma grande influencia da astrologia, tal como o poder das águas como depósito de monstros marinhos. No entanto, o autor vai inserir estes elementos num esquema que destrua as idolatrias, subordinando-os ao poder do Deus da Aliança. Já houve quem chamasse ao nosso texto de "propaganda ateia” e “caça aos mitos”!
A primeira frase do texto (que normalmente, nos textos biblicos, serve também de título), dá logo o mote para a posição do autor: “No princípio Deus criou o céu e a terra” (v.1). O “princípio”, o mesmo pelo qual João iniciará o seu Evangelho, proclama que, na origem da aventura cósmica e humana, não está o caos sem sentido, não estão as lutas das divindades, mas está Deus, o Deus da Promessa, o Deus da Aliança. “No princípio” significa que a Criação é inserida, é “convidada” a pertencer a uma História de Salvação que Deus está a construir com Israel. Esta história de Eleição começa “no princípio”, ou seja, abraça toda a realidade cósmica e humana, dando-lhe o sentido de um Projecto. O Cosmos, o mundo no qual o Homem se insere e emerge unido, não tem uma origem caótica ou causal nem serve para o oprimir, senão que está ao serviço da sua aventura de humanização porque nasce também da Ternura amorosa de Deus!
O verbo criar, bara, é um verbo técnico na Bíblia, como já vimos. Só tem a Deus por sujeito, nunca o Homem, e na origem da sua utilização está a eleição de Israel, a sua libertação, que é vista como uma geração, o nascimento de um Povo que, sem a iniciativa da Graça de Deus nunca existiria. O verbo bara aproxima-se da noção de criar, de ser a origem da vida, e distingue-se dos verbos fazer, moldar, preparar ou fabricar. Assim, mais que modelador ou fabricante do Universo, Deus é o seu Criador: o Universo, esta aventura, tem como origem uma Vontade livre, amorosa, Vontade que continua a construir uma História. Vemos que não é uma noção física ou metafísica, mas teologal.
Outra originalidade do texto é a expressão “Deus disse” que está no princípio de cada obra, seja ela de separar, modelar ou fazer. “No princípio era a Palavra”… a Palavra que Deus pronuncia, que para Israel está na origem da sua história como Povo, a Palavra pela qual Deus se revela, elege, escreve uma história. No princípio, na origem da Criação está o diálogo, a “doçura” da Palavra pela qual Deus se dirige à sua Criação, sem luta, sem esforço, sem constrangimentos. Deus não fabrica a Criação nem a “expele”: dialoga com ela. E a Criação é o princípio de um diálogo, de uma Aliança de Deus com a Humanidade, de uma história salvífica.
Por fim, tudo é Bom. Sempre. Aqui no texto não há o “mas” do pecado e do mal, ou então ele já está assumido – será questão para o segundo texto de Gen 2,4b-3,24. Não, aqui cantamos a Criação, que é obra de Deus, a Graça de Deus, à qual a Criação pertence. Tudo é bom. No princípio da experiencia religiosa de Israel não está a luta contra as divindades, a concorrencia pelo poder – está a Graça, a Bondade que elege, a Palavra que salva. Israel partilha com toda a Criação a experiencia maravilhosa do seu encontro com Deus. Só pode ser bom, só pode ser fruto da esperança e da gratidão, porque Deus, é bom, livre, soberano. E a Criação, a História, pertence à sua Vontade, à sua Palavra: só pode ser um Projecto com sentido. Não há separação entre o material e o espiritual, o histórico e o transcendente: este é o mundo no qual Deus se revela, o Outro, o Livre, mas o Próximo.
Portanto, vemos que o autor configura a Criação segundo o princípal símbolo da Aliança, para o Israel do séc. VI no exílio: a Semana, o Sábado. A Criação tem como plenitude a Aliança de Deus, pertence à História da Salvação que Deus escreve com Israel e a Humanidade. Vemos que é um Projecto cheio de sentido, um Projecto que se une ao jeito de ser que Deus revela: jeito de Aliança, jeito de Salvação. No Princípio, era a Aliança, era o Amor.
Esta lógica da subordinação do Cosmos ao Projecto de Aliança de Deus percorre toda a Biblia, desde a abertura das águas para a passagem no Mar Vermelho de Moisés e do Pvo (Ex 14, 21) até às manifestações do poder de Jesus sobre os elementos, proclamado pelos Evangelhos como emergencia do Reino de Deus, do seu Poder Salvífico sobre todos os elementos (Mc 1, 13; Mt 8, 24; 14, 25).
A 1ª parte da nossa caminhada é uma leitura da experiência do Homem e da Criação segundo o Antigo Testamento. Começamos hoje com as primeiras proclamações de fé no Deus-Criador, em seguida aprofundaremos os textos do Génesis. Boa caminhada!
A fé biblica na Criação liga-se à fé em Deus que é uma fé histórica, alimentada por acontecimentos salvíficos nos quais Israel reconhece, na sua história, a acção de Deus; no centro está a experiencia fundamental da libertação do Egipto:
Proclamarás, então, em voz alta, diante do Senhor, teu Deus: ‘Meu pai era um arameu errante: desceu ao Egipto com um pequeno número e ali viveu como estrangeiro, mas depois tornou-se um povo forte e numeroso. Então os egípcios maltrataram-nos, oprimindo-nos e impondo-nos dura escravidão. Clamámos ao Senhor, Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu o nosso clamor, viu a nossa humilhação, os nossos trabalhos e a nossa angústia, e tirou-nos do Egipto, com sua mão forte e seu braço estendido, com grandes milagres, sinais e prodígios. Introduziu-nos nesta região e deu-nos esta terra, terra onde corre leite e mel. (Dt 26, 5-9)
Em alguns textos, surge o senhorio de Deus sobre a Natureza em função da libertação de Israel – o exemplo da abertura das águas para a passagem no mar Vermelho, em Ex 15. Iavé é um Deus superior a todos os poderes cósmicos e, por isso, não se identifica com nenhum deles. Podemos falar, portanto, de uma fé implícita na Criação como obra e poder de Deus. No entanto, o conceito primário e fundamental da fé Israelita é o conceito de Aliança, da bondade de Deus que faz uma Promessa a Abraão, da Graça de Deus que liberta a Israel do Egipto.
Será Jeremias e, sobretudo, o segundo livro de Isaias (capítulos 40 a 55) quem desenvolverão a fé na Criação para reforçar a fé do povo em Deus, abalada pelo acontecimento do exílio para a Babilónia no ano 587 a. C. A Criação é apresentada ao serviço da Aliança e da re-criação de Israel por parte de Deus. Deus pode salvar Israel porque detém o poder sobre todo o Universo, a Natureza e todos os povos. Ao contrário dos ídolos dos povos a quem Israel se submete, que não actuam nem salvam (são nada, portanto), porque são obra dos homens, o Deus de Israel é o Deus Vivo, que actua e salva, a quem tudo pertence.
À acção criadora exclusiva de Deus é entregue o verbo Bara, que só tem a Deus por sujeito em toda a Biblia, e que se distingue de outros verbos como fazer ou modelar. Com este verbo o autor do segundo livro de Isaias apresenta tanto a acção de Deus junto de Israel, que é o seu Criador enquanto é o seu Salvador, como a acção junto de todo o Cosmos:
Eis o que diz o Senhor, o teu Redentor, que te formou no ventre materno: «Eu sou o Senhor que fiz todas as coisas, sozinho estendi os céus e firmei a terra. Quem me ajudava? (Is 44, 24)
Também é apresentado pelo autor a ideia da Criação pela Palavra: tal como Deus chamou a Israel para ser o seu Povo em Aliança, a partir da Promessa a Abraão, também a Criação é fruto de um chamamento, porque a Palavra de Javé é fecunda:
Assim como a chuva e a neve descem do céu, e não voltam mais para lá, senão depois de empapar a terra, de a fecundar e fazer germinar, para que dê semente ao semeador e pão para comer, o mesmo sucede à palavra que sai da minha boca: não voltará para mim vazia, sem ter realizado a minha vontade e sem cumprir a sua missão. (Is 55, 10-11)
A Criação pertence, pois, ao diálogo salvador que Deus estabelece com Israel, um diálogo de Aliança: a Criação é abraçada por esta História de Salvação. Israel não procura uma resposta “cientifica” para o começo do Cosmos e da Humanidade: faz uma leitura de sentido, a partir da sua experiencia de relação com Deus, relação de Graça e Aliança; será este o ponto de partida para compreendermos os textos do Génesis. Estes surgirão, tal como o Segundo Isaias, para responder aos desafios de alimentar a fé do Povo no Deus de Abraão e Moisés, perante todas as propostas que iam surgindo dos povos vizinhos, bem mais poderosos politicamente. A história bíblica não começa com a Criação: no princípio está a Aliança, e será com a luz da Aliança que Israel vai ler o sentido do Cosmos e do Homem.