quinta-feira, 8 de maio de 2008

o sentido do cristianismo

Partilho mais um texto de uma leitura que estou a fazer, que me parece muito interessante. Um grande abraço!

Se as verdades do ensinamento cristão não produzissem nenhum efeito, nenhum fruto nas nossas vidas, que classe de verdades seriam? Se Deus é o sentido de tudo, o facto de sermos crentes, de vivermos com a visão colocada em Deus como o nosso objectivo último, terá que manifestar-se de alguma forma nas nossas próprias vidas.

De modo que o cristianismo deve produzir algum efeito, ainda admitindo que não nos tornamos cristãos em vista a alcançar tal efeito. Coloquemos o caso de que se poderia demonstrar que os cristãos somos os mais tranquilos e mais relaxados em comparação com outras pessoas: não é por isso que vamos a insistir aos demais a partilhar a nossa fé a fim de que se sintam menos stressados. “Faça-se cristão e dormirá melhor pelas noites!” Isso equivaleria a reduzir a religião a um mero acessório útil a incorporar dentro do estilo de vida, ao mesmo nível que ir ao ginásio ou fazer exercício. Equivalia a vender a ideia de Deus como algo útil para mim, tipo sais de banho.
Ora bem, a afirmação de que a própria fé poderia contribuir verdadeiramente para nos sentirmos mais relaxados e mais livres de tensões, ou mais felizes, ou mais valentes, permite sugerir que as pretensões de verdade defendidas pelo cristianismo não são triviais, e portanto pode valer a pena aprofundá-las. Se o configurar a nossa própria vida em direcção a Deus como o destino pleno que nos é próprio, gera consequências tais como o tornar-nos livres, não é por isso que vamos dizer às pessoas: “Vocês têm de tornar-se cristãos, porque o cristianismo vos fará livres”. Mas se as pessoas vêm que os cristãos somos livres num sentido e de uma forma que resulta atraente e intrigante, se interessarão em averiguar a razão, o porquê, e finalmente esse interesse reverterá para o Deus que adoramos.

Permitam-me deixar claro desde o princípio que o que talvez possa ser chamativamente diferente não é o facto de que os cristãos sejamos melhores que as outras pessoas. Não existe nenhuma evidência de que seja assim. Jesus disse: “Não vim chamar os justos, senão os pecadores” (Mc 2, 17) e assim o continua a fazer. Jesus comia e bebia com as pessoas de má fama. A Igreja é um lugar para todo o mundo, e especialmente para aquelas pessoas que levam uma vida desastrosa. É significativo que o primeiro cristão a aceder ao Paraíso foi o ladrão que estava crucificado ao lado de Jesus.
Segundo um antigo poema siríaco, quando o ladrão chegou às portas do Céu, o anjo que estava ao cuidado desses assuntos tratou de impedir-lhe a entrada porque não era a classe de pessoa a que correspondia estar ali! De qualquer forma, uma comunidade que fundamentara a sua existência na afirmação de uma pretendida superioridade moral, já não seria só repulsiva, senão que inevitavelmente convidaria às pessoas a procurar-nos os defeitos e mostrá-los a todos. Se a imprensa costuma atacar com tanta frequência a Igreja e se os jornais sensacionalistas não deixam escapar nenhum dos nossos pecados, isso parece dever-se a que por norma, de um modo equivocado, tem-se assente que o sentido de ser cristão não é outro que o de ser melhor que os demais.
O sentido do cristianismo não é outro que apontar ao sentido das nossas vidas, que é Deus. A esperança é a confiança firme de que a existência do Homem tem um sentido último. Senão, o cristianismo e todas as religiões não seriam mais que uma perda de tempo.
Timothy Radcliffe (Que sentido tem ser cristão? Bilbao 2007) é um padre dominicano inglês; como geral da sua ordem viajou e contactou com todo o mundo, dedicou-se ao ministério junto de pessoas afectada com a SIDA e é conhecido pelas obras de espiritualidade.

1 comentário:

Mila disse...

Tens rasão Rui quando dizes que ao fazermo-nos cristãos dormimos melhor pela noite.É que foi tanto tempo a ouvir mais do mesmo que nos chegou a bloquear,mas graças ao vosso exemplo tivemos o privilégio de aderirmos a esta descoberta e percebemos que ser cristão não é ir à missa, ou dizer umas resas,ou dizer biatices moralistas...Ser cristão é um jeito de viver em que nos liberta e nos compromete ainda mais atrvés do amor e da cominhão e sem duvida nenhuma somos muito mais felizes assim!

Obrigada Rui Pedro,gostei muito deste post.