domingo, 14 de setembro de 2008

Igreja e Renovação (Haring) I: Instalação e a Mulher de Lot

«A Eucaristia é a hora pascal, o caminho e transição do Senhor. É uma hora de descanso? Certamente que é, mas é sobretudo o momento de uma nova partida, uma oportunidade para uma aventura humana maior que a experiencia de Moisés e dos Israelitas. Em cada celebração da Eucaristia, é Cristo quem nos convida de novo: “Levantai-vos, vamos!” (Mt 26, 46).

Que Cristo nos possibilite a serenar não implica que nos tornemos pessoas “sentadas”. Quem são essas pessoas? Para responder à questão, é importante compreende-la à luz de uma questão mais importante: que tipo de presbíteros precisa a Igreja? Pessoas “sentadas”, instaladas são essas mulheres e homens que estão sempre cansadas, vazias de ideais e inspiração, incapazes de aderir ao poder do Espírito para encorajar outros.
A pessoa instalada é incapaz de interiorizar o convite de Jesus: “Levanta-te, vamos caminhar”, especialmente se avançar significa o risco potencial de sofrer, mudar, e sentir-se inseguro durante algum tempo. A pessoa sentada é estática e auto-suficiente, sempre contente em celebrar os triunfos e resultados do passado enquanto evita a responsabilidade corajosa de assumir riscos. Numa palavra, a pessoa instalada é cobarde.

Normalmente, os auto-satisfeitos são fundamentalistas no seu pensamento, evitando novas e criativas formulações da doutrina enquanto se apegam às normas e imperativos do passado. São duros e ferozes tradicionalistas e, aplicando as suas energias, extenuam-se em promover a restauração da ordem passada. Pessoas instaladas são aquelas pessoas empoleiradas em tronos feitos por elas próprias, incapazes de acompanhar os tempos porque caminhar significaria renunciar ao “glamour” e privilégio do clericalismo em todas as suas formas.

A nossa época de mudanças rápidas e de novos desenvolvimentos revela um problema único. A Igreja de hoje sofre muito devido a esses bispos e presbíteros que, casados com os seus diversos cargos, títulos e ofícios, encorajam os fiéis a retardar o relógio, a olhar para atrás a uma época ultrapassada, mas que desconhecem que isso significa tornar-nos a todos, como a mulher de Lot, em montes de sal. Apenas se nos tornarmos contemporâneos com Jesus, o Senhor da história, Aquele que veio, vem, e virá de novo, poderemos caminhar e avançar.
De facto, é verdade que caminhando com Jesus numa memória agradecida é, aos olhos de muitos, demasiado perigoso recordar e mudar. Se o Cristo Ressuscitado da história pode escolher ser totalmente presente para nós no acto de partir o pão e partilhar o cálice, não pode também transformar as pessoas instaladas em incansáveis peregrinos e vanguardas da história? Isso seria um grande e esperançoso milagre pelo qual devemos todos rezar.

Procurar construir o futuro da história como não-violentos e corajosos construtores da paz é inequivocamente a grande aventura dos nossos tempos. Se a memória agradecida do Sermão da Montanha pôde ter impacto em homens e mulheres como Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr., Dorothy Day e corajosas fundadoras de comunidades religiosas, levando-as a transformá-las em imaginativas pioneiras e peregrinas que conduzem sempre para a frente, porque são tais lideres tão raros hoje?

A esta luz, há poucas dúvidas que precisamos de uma renovação litúrgica, mas precisamos sobretudo de ultrapassar a abordagem no debate ritual. Desde o princípio, precisamos de nos tornar, numa via radicalmente transformada, em pessoas de maior fé e esperança, com ouvidos, corações e mentes atentas e preparadas para viver e promover a mudança, assumindo o convite de Cristo: “Levantai-vos, vamos!»
Bernard Haring cssr: Priesthood Imperiled (Sacerdócio em Risco), Missouri EUA 1996

4 comentários:

Rui Santiago disse...

QUE DELÍCIA!!! Obrigado.

Sol da manhã disse...

Rui Pedro...

... outro Senhor muito à frente!!!

Muito Obrigado.

Um abraço.

Mila disse...

Rui Pedro, gostei muito! Obrigada.

A caminhar se faz caminho...vamos?

Um abraço!

anawîm disse...

como um excerto tão pequeno diz TANTO sobre a realidade da nossa "monárquica" Igreja...!!!

belíssima partilha!... este Bernard Haring deixa-me mesmo sem palavras...