domingo, 21 de setembro de 2008

Jesus de Nazaré: a experiencia de um Amor Paternal

Sem dúvida, o que motiva e conduz toda a vida de Jesus de Nazaré é a sua experiencia de encontro com Deus. Jesus descobre de uma maneira única e absolutamente original o jeito de Deus de amar e se relacionar com a sua criatura, o seu parceiro de Aliança, Adam. De novo, é na pregação do Reino de Deus que podemos descobrir a melhor imagem, e a melhor Boa-Noticia, sobre o Homem. A experiencia que Jesus faz deste Deus do Reino vai conduzir à sua maneira de estar e falar do Homem, e traduz-se numa Boa-Noticia de uma Sabedoria estupenda.

O começo da vida pública de Jesus, da sua missão, encontra-se no Baptismo por João Baptista, no Jordão. A pregação de João apresenta um tom negativo: a história humana está traçada a desaparecer sob o julgamento de Deus, a conversão torna-se uma “tábua de salvação” para escapar da condenação final. “O machado já está posto à raiz da árvore; a árvore que não produzir frutos bons será cortada e lançada ao fogo” (Mt 3, 10).

O que está em causa é um modo de ver a Deus que conduz ao modo de viver as relações, os acontecimentos. Ao longo do Antigo Testamento, a visão da Aliança como Proposta gratuita e libertadora de Deus, sempre disposto a perdoar e a seduzir pela ternura da Palavra, vai a par da visão da justiça retributiva e coactiva: Deus actua na medida das acções humanas, e termina com o pecado e o mal pela violência. Esta visão de Deus modela a base das relações sociais: a lei de Talião. “Se alguém fizer um ferimento ao seu próximo, far-se-á o mesmo a ele: fractura por fractura, olho por olho, dente por dente; conforme o dano que tiver feito a outro homem, assim se lhe fará a ele” (Lv 24, 19-20).

É bem visível nos testemunhos dos Evangelhos que Jesus ultrapassa esta visão violenta das relações humanas a partir da sua própria experiencia de Deus. Jesus admira em João Baptista a sua coerência e fidelidade até à morte, nas mãos de Herodes. João foi capaz de intuir a proximidade do Reino: “Eu vos asseguro: dos nascidos de mulher ainda não surgiu um maior que João Baptista” (Mt 11, 11). No entanto, Jesus distancia-se da visão de João: a intervenção decisiva de Deus na história humana não será de destruição e violencia, mas de Graça e Salvação. Inaugura-se, de facto, uma nova era, assente não já na lei de Talião, mas na Graça de Deus; e João pertence ainda à antiga ordem: “O ultimo no Reino de Deus é maior do que ele” (Mt 11, 11).

Marcos apresenta bem esta novidade de Jesus através das curas que aparecem no inicio do Evangelho: é uma “autoridade” (Mc 1, 27) que vence os espíritos malignos pela libertação dos enfermos; ao mesmo tempo declara: “Os teus pecados estão perdoados” (Mc 2, 5) e aceita a colectores e pecadores como discípulos: “Era convidado na casa dele (Levi) e muitos colectores e pecadores estavam à mesa com Jesus e os seus discípulos. Pois muitos eram seus seguidores” (Mc 2, 15). Naturalmente que estes comportamentos de Jesus provocam o murmúrio de fariseus e escribas: está em causa o processo “normal” de relações, assente na separação moral e nos critérios de pureza.
O surpreendente vem das justificações que Jesus dá: “Os sãos não tem necessidade de médico, mas os doentes sim. Não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2, 17). Assume como a sua missão comportar-se deste modo, assume que é esta a vontade de Deus, não está para aplicar a lei farisaica ou a pureza cultual, mas superá-las pela Graça. Trata-se de uma Novidade, de uma nova era, que ultrapassa a anterior do fariseismo e de Talião: “Ninguém põe vinho novo em odres velhos, pois o vinho arrebenta os odres e se perdem odres e vinho. Para vinho novo, odres novos” (Mc 2, 22).

O Evangelho de Mateus reúne no Sermão (capítulos 5 a 7) uma série de frases e discursos de Jesus verdadeiramente surpreendentes. Pelas Bem-Aventuranças ultrapassa a ideia de felicidade através do sucesso e da conquista nas relações, para uma Nova Ordem, uma nova realidade na qual os papéis são trocados. Com a frase “Pois eu digo-vos, se a vossa justiça não superar a dos letrados e fariseus, não entrareis no Reino de Deus” (Mt 5, 20), Jesus começa um discurso no qual procura superar as lógicas da lei. Mais importante que os sacrifícios está a iniciativa da reconciliação: “Se fores, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta” (Mt 5, 23-24).
À lei de Talião de olho por olho e dente por dente, Jesus responde de maneira surpreendente: “Pois eu vos digo: não resistais ao malvado. Pelo contrário, se alguém te dá uma bofetada na face direita, oferece-lhe a esquerda” (Mt 5, 39). Aos restritos critérios de amizade e proximidade, Jesus rompe os horizontes: “Pois eu vos digo: Amai os vossos inimigos, rezai pelos que vos perseguem. Se amais somente os que vos amam, que prémio mereceis?” (Mt 5, 45-46).

De novo, Jesus justifica-se dizendo: eu actuo e proponho isto, porque é assim que Deus é e faz! “Assim sereis filhos do vosso Pai do Céu, que faz surgir o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai do Céu é perfeito” (Mt 5, 45.48). É surpreendente. Caem todas as ideias de um deus que serve para justificar e aplicar a pequena justiça humana, que estabelece distinções entre bons e maus, puros e impuros, e conduz a uma espiral sem fim de violência e morte na qual o ultimo episódio (mas não diferente) seria o Juizo Final.

Parece que o anúncio do Reino, em Jesus, está nesta Nova Lógica do Deus da Graça e da Bondade. Jesus experimenta o Cuidado Amoroso do Abbá que é um convite à confiança e à libertação das preocupações opressoras do dia-a-dia: “Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?” (Mt 6, 26-27)
Parece que Jesus regressa àquele Projecto Original de Deus para Adam, Projecto que se está a realizar agora, de um Deus Criador por pura gratuidade que ama as suas criaturas: “E viu Deus que tudo era bom”. É a esta Bondade criativa que supera a lei que Jesus apela no caso da tradição desumanizante do divórcio que subjugava as mulheres: “Porque sois obstinados, Moisés escreveu semelhante preceito (de repudiar a mulher); mas no princípio da Criação, não era assim…” (cf. Mc 10, 5)

No Evangelho de Lucas encontramos parábolas de uma novidade única: para falar do Amor a Deus e ao Próximo, Jesus apresenta o bom exemplo de um Samaritano, povo odiado pelos judeus, e como mau exemplo o sacerdote e o levita vindos de Jerusalém. Para responder à murmuração dos fariseus “Este recebe pecadores e come com eles” (Lc 15, 2), Jesus apresenta uma parábola na qual a maneira de ser de Deus é comparada ao pastor que deixas as 99 ovelhas para procurar uma, ou a moeda perdida, ou o Pai que corre a beijar o filho separado para o vestir de novo na sua dignidade filial, perante a murmuração do filho mais velho que se recusa a entrar na festa.

Podemos não entender até recusar instintivamente estas lógicas de Jesus como sendo do próprio Deus, porque nos afectam nos estímulos mais naturais de defesa, reacção e controlo. Mas é um facto que os evangelistas nos transmitem com uma sobriedade maravilhada perante a Graça sobreabundante revelada na Ressurreição. “Eu te digo que não sete vezes, mas setenta e sete. Pois o Reino de Deus se parece…” (Mt 18, 22). É à luz da novidade desta experiencia de Deus que Jesus apresenta o seu Projecto para uma Humanidade Nova, uma Humanidade reconciliada e agradecida segundo a vontade do Pai, o seu Reino. Um jeito original e criativo de ser de Deus que rompe os esquemas fechados de relações. Paulo vai dedicar páginas apaixonadas na Carta aos Romanos a esta Graça, verdadeira loucura. Jesus dedica-lhe uma entrega até ao fim.
um grande abraço!

2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado por este post
É bom ver como o amor a Deus Pai pôde levar Jesu a amar tantoa Humanidade.
Isto quer dizer que Deus ao encontrar-se connosco, nos enviapara os irmãos.

Rui Santiago disse...

...Jesus ultrapassa esta visão violenta das relações humanas a partir da sua própria experiencia de Deus...


...Paulo vai dedicar páginas apaixonadas na Carta aos Romanos a esta Graça, verdadeira loucura. Jesus dedica-lhe uma entrega até ao fim...

Obrigado, parceiro, pelas coisas bonitas que tenho saboreado por aqui! Esta última frase... teve em mim quase a força de um mandato!

SHALOM