quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Crisma 4. Baptismo no Espírito e Vida Teologal

Como vimos no Novo Testamento, o baptismo, ou mergulho, e a unção com o Espírito Santo estão intimamente ligadas. O baptismo na água é sinal, explicitação e proclamação do Baptismo no Espírito. O Crisma, ou unção com óleo não é separado. Ainda hoje, no rito do baptismo encontramos a unção com óleo, tal como no rito da confirmação, em que é acompanhada da imposição das mãos (que simboliza a nossa ligação aos primeiros Apóstolos, nos laços do Espírito). Portanto, ambos os sacramentos – baptismo na água e confirmação – estão intimamente ligados, pois ambos exprimem a dinâmica do Baptismo no Espírito. Procuremos compreender um pouco esta realidade.

Imagina uma piscina. Compreendes que o baptismo na água é um momento concreto, uma celebração. Podes compará-lo ao teu salto, ao teu mergulho na piscina. Mas, para não te afogares, tens duas alternativas: ou ficas parado, num sítio, agarrado à margem e acabarás por sentir frio e sairás da piscina, ou nadarás ao longo da piscina. Esse nadar, podes compará-lo ao Baptismo no Espírito.
Compreendes? Se o baptismo na água é um momento, o Baptismo no Espírito é um ritmo, uma dinâmica que dura toda a tua vida! O baptismo na água proclama essa tua vivência, mas não a pode limitar: tem de ser um sinal (sacramento) de uma realidade maior e mais importante.

Mas o que é o Baptismo no Espírito?
Desde que o Homem é Homem, o Espírito de Deus está com ele. O “sopro de vida” que Deus insufla no Homem e o torna um “ser vivente” (Gn 2, 7), é o Espírito Santo que, no interior de cada um, vai convidando, apelando e interpelando (mas sem obrigar) o Homem para que este se construa à imagem e semelhança de Deus, isto é, em relações de amor. É o que, na cultura popular, chamamos de “voz da consciência”. É a acção personalizante do Espírito Santo. Deus é pessoas – a Humanidade também. Não são iguais, mas são proporcionais; logo, há possibilidade de diálogo. Esta acção universal, acontece em todos os homens, mesmo aqueles que não conhecem o nome de Deus. Basta que se guiem pelos critérios do amor.

Num outro nível, temos a acção revelacional do Espírito Santo. Esta apenas acontece numa parcela da Humanidade. Começou no povo bíblico, um povo no qual Deus encontrou espaço para Se revelar, de modo gradual e progressivo, claro. No meio de muitos condicionalismos, sociais, culturais, genéticos, o povo da Aliança foi descobrindo e conhecendo o “Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob”. Deus chamou este povo para que fosse, no mundo, mediação de revelação. Mas, com o tempo, esse povo acabaria por se encerrar em si próprio, nas suas leis, rituais e cultos.

Mesmo quando o Homem foi capaz de inventar o pecado, isto é, imprimir nas suas relações as lógicas contrárias ao amor, e mesmo quando o povo foi infiel fechando-se em si, o Projecto de Deus para a Humanidade não se alterou um milímetro. O amor de Deus é demasiado forte para se deixar vencer pelo Homem. E temos o acontecimento de Cristo.

Quando chegou a “plenitude dos tempos”, o Filho Eterno de Deus formou uma comunhão perfeita e plena com Jesus de Nazaré, pelo Espírito Santo. Em Jesus, o Cristo, os dois níveis de acção do Espírito Santo no Homem chegaram à sua plenitude (não o seu fim, claro!): pela primeira vez, um homem deixou-se mover totalmente pelo Espírito Santo, tornando-se a medida do homem perfeito, o Homem Novo, “provado em tudo como nós, excepto no pecado” (Heb 4, 15). Além disso, ao Se revelar, revelou o Pai: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). N’Ele, o Espírito Santo encontrou total disponibilidade para agir como revelador.

Apesar de tudo, devemos ter cuidado: não podemos considerar Jesus, o Cristo como um meteorito caído do céu! É fruto de uma história, de uma caminhada do povo bíblico sempre alimentada pela voz dos profetas. Jesus começou por ser amado antes de amar, tal como cada um de nós. Maria e José terão sido mediações estupendas da ternura, maternal e paternal, de Deus-Pai. João Baptista terá possibilitado em Jesus a descoberta da Sua condição messiânica, embora de um modo diferente do que anunciava. Essa consciencialização de Jesus não terá passado sem dúvidas e hesitações, muito bem expressas no episódio das tentações (Mt 4, 1-11).

Mas, em Jesus Cristo, temos um salto qualitativo da acção do Espírito Santo na Humanidade: a acção divinizante. O mesmo Espírito que colocou Jesus de Nazaré em comunhão com a Filho Eterno de Deus vai, no momento da Sua morte e ressurreição, espalhar-se por toda a Humanidade. Esta também é assumida, é a filiação divina: filhos em relação a Deus-Pai, irmãos em relação a Deus-Filho, na comunhão do Espírito Santo. O Espírito diviniza o que somos, o que nos construímos na história, em dinâmica relacional de amor. Nada do que de humano nos construímos se perde no vazio ou no cemitério, mas é tornado pleno na Família de Deus. Atenção: estamos a falar ao nível do ser, não ao nível do ter.

Esta acção é universal: na medida em que conduz à humanização, o Espírito diviniza.
Temos, portanto, os três níveis de acção do Espírito Santo na humanidade. É evidente que não são compartimentos estanques: a acção é única, as dimensões complementam-se. Falar do Baptismo no Espírito é falar da dinâmica de abertura da pessoa à acção do Espírito, que a molda interiormente e a faz agir, optar e relacionar-se ao jeito de Deus. Uma pessoa que se deixe mover segundo os apelos do amor já se poderá dizer que mergulha no Espírito. No entanto, na medida em que conheça e experimente o rosto amoroso e familiar de Deus e o Seu Projecto plenificador para si e para toda a Humanidade, revelados em plenitude em Jesus de Nazaré (a acção reveladora); e até na medida em que se relaciona interior e amorosamente com esse Deus, essa pessoa conhecerá horizontes novos para a sua vida.
De facto, na medida em que conhece um sentido e critérios como os revelados por Jesus de Nazaré, essa pessoa poderá viver uma vida teologal, ao jeito de Deus e que brota da Revelação. Aí, o Baptismo no Espírito acontece de modo pleno.

E o que é a vida teologal?
Qualquer vida humana, em construção, portanto, em relações, precisa de viver três experiências: a da , a da esperança e, principalmente, a do amor. Estas três dimensões são fundamentais numa qualquer relação humana: confiar no outro, esperar dele o seu melhor e, claro, amá-lo. De modo recíproco.

Além disso, o homem é, por natureza, um ser religioso. Está aberto à transcendência, ao que o ultrapassa, e precisa de encontrar explicações para aquilo em que é impotente (por exemplo, as forças da Natureza, para os homens da Antiguidade) e para o absurdo, isto é, tudo o que simplesmente não tem explicação. Por isso, na história, o Homem foi concebendo divindades e sistemas religiosos, onde desenvolvia a sua fé na lógica de acreditar no que não se pode provar, a sua esperança num futuro para lá da morte, e o amor como um conjunto de morais e éticas de comportamento. Esta dimensão do Homem é fundamental como primeiro passo para acontecer Revelação. Mas pode também fechar o Homem, bloqueá-lo. É uma pena que, para muitos dos cristãos, o cristianismo se reduza a esta dimensão.

Por fim, temos a vida teologal, que é a optimização destas duas dimensões do Homem pelos horizontes da Revelação. Pela Revelação, conhecemos um Deus que tem fé em nós, que acredita e confia absolutamente no melhor de nós. Um Deus fiel, em quem vale a pena confiar.
Um Deus em quem podemos esperar, que nos motiva de modo muito especial para a nossa tarefa de construção pessoal, única verdadeiramente válida, e que acontece hoje. Um Deus que nos dá a certeza de que nada do que somos se perderá, mas tudo será assumido e plenificado. Assim, a morte não é um fim, mas um nascimento.

E, claro, pela Revelação conhecemos o Deus-Amor, Família de Amor, que não é senão Amor. Porque o Amor é fonte de vida, é no Amor que nos fazemos à Sua imagem. E, na medida em que conhecemos e experimentamos o Amor de Deus, ganhamos critérios para a nossa construção pessoal.

A vida teologal brota da Graça de Deus, do Deus que Se revela por puro dom, por amor totalmente gratuito. Do Deus que Se faz Palavra, que Se dá a conhecer. É pela escuta desta Palavra, que o Espírito nos inunda. É da escuta desta Palavra, que não se limita um conjunto de letras escritas mas é uma relação interior, que nasce a dinâmica do Baptismo no Espírito. Este conduz-nos a viver e a construirmo-nos, no meio de todas as nossas limitações e imperfeições, segundo a Vida Nova de Deus.

É toda esta realidade que o baptismo na água proclama e visibiliza. Mas, então, onde inserimos o sacramento da Confirmação?
Na altura em que o Novo Testamento foi redigido, nas comunidades primitivas, o baptismo na água era feito em adultos, após uma intensa catequização. Ser cristão era arriscado, exigia opções claras e corajosas e, sobretudo, uma fé inabalável. Formar Igreja significava risco da própria vida.

À medida em que as perseguições foram diminuindo, e o cristianismo foi sendo tolerado e oficializado no Império Romano, os baptismos foram progressivamente passando de adultos para crianças e recém-nascidos. É evidente que, nestas idades, não há a possibilidade de haver opções assumidas para se ser cristão; o Espírito Santo ainda não tem espaço para fazer acontecer a Revelação. Não há Baptismo no Espírito. Assim, o baptismo na água proclama o Baptismo no Espírito dos pais, padrinhos e de toda a comunidade cristã na qual o baptizado irá crescer. Estes têm a responsabilidade de ir introduzindo a criança, à medida que cresce, nos conteúdos da fé pela catequese. À medida que vai acolhendo a Palavra, ou a Revelação de Deus, vai mergulhando ela própria no Espírito, enquanto vai crescendo e optando.

Chega a altura em que o assumir-se como cristão será uma opção e uma responsabilidade do baptizado. Os pais, padrinhos e catequistas da comunidade iniciaram-no; se ele quer aprofundar, confirmar o acolhimento da Revelação e crescer numa Vida Teologal, só poderá ser opção dele. Ninguém o pode obrigar, nem, claro, Deus.
O sacramento da Confirmação proclama o assumir, pelo crismado, do seu próprio Baptismo no Espírito. Os pais iniciaram-no; ele confirma.

Em termos mais práticos, se o baptismo na água é um compromisso dos pais perante Deus, pela mediação da comunidade, a confirmação é um compromisso do próprio crismado. Tal como o baptismo em adultos, já tem que acontecer numa dinâmica de Baptismo no Espírito e de Revelação a acontecer. Por isso, no caso de adultos, estes recebem juntos os chamados Sacramentos de Iniciação Cristã: baptismo, confirmação e eucaristia.
É claro que, nesta idade, o Espírito encontra mais espaço para provocar a Revelação do que em criança. Por isso este é chamado de “o Sacramento do Espírito”. Só faz sentido falar dele na lógica do Baptismo no Espírito. Além disso, este também é considerado o “Sacramento da Igreja”.
grande abraço!

1 comentário:

figlo disse...

...e é aqui que entra o "catecumenato", aprofundamento da Fé para adultos. O acompanhamento e este crescimento na Fé tem que ser feito, forçosamente, caminhando em comunidade .