quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

um Filho. do Seio do Pai...

«Porque um Menino nasceu para nós,
um Filho nos foi dado…»
(Is 9,6)

«O Filho Unigénito, que é Deus e está no Seio do Pai,
foi Ele quem o deu a conhecer»
(Jo 1,18)

Um Filho nos foi dado… Um Filho nasceu para nós, um Filho começa a ser gerado, para nós, na História, nesta História da Humanidade…

Agora pouso no chão, ao meu lado, todas as preocupações, as perguntas, as dificuldades que me aparecem. Elas estão aí, vão comigo, e não quero fugir delas. Mas agora, dou-me ao direito de as pousar no chão. Como um cessar-fogo, como um princípio de Perdão…

Agora deixa-me contemplar este Mistério, este Projecto que Paulo canta no hino de Efésios 1,3-14 como um Projecto do Pai, sonhado desde toda a Eternidade porque um Projecto destes só pode ter horizontes de Eternidade, este Projecto revelado Agora, no Agora de Paulo e no nosso, em Jesus, sim, em Jesus. Para nós: «Foi assim que Ele nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo» (Ef 1,4). Sim, as preocupações, os desafios vêm a seguir, com Paulo a responder na sua Carta. Mas agora, é para cantar isto. Tenho de o fazer. Só assim faz sentido, só assim pode ser.

Um Filho nos foi dado… Que melhor frase para repetir na noite de Natal, deste Nascimento de 25 de Dezembro que ninguém sabe se foi mesmo a data do nascimento deste Homem chamado Jesus, nem interessa. Temos de o celebrar, tenho de o celebrar. Tenho de o repetir: um Filho nos é dado. Por Deus. É Dom de Deus, sempre Dom de Deus. Acção de Deus. Para nós. Um Filho. Para sermos Filhos nele. Isto é o mais importante. Vale a pena cantá-lo com as palavras de Paulo:

«Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo - é pela graça que vós estais salvos - com Ele nos ressuscitou e nos sentou no alto do Céu, em Cristo.

Pela bondade que tem para connosco, em Cristo Jesus, quis assim mostrar, nos tempos futuros, a extraordinária riqueza da sua graça. Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie.»
(Ef 2,4-9)

A partir desta Explosão que é a Experiencia Pascal de reconhecer e abrir-se à Ressurreição de Jesus, o de Nazaré, toda a sua Vida é iluminada. Toda a vida de Jesus. Desde o seu nascimento. Através da lógica bíblica da Eleição, Deus vai actuando na história da Humanidade, apresentada de maneira particular na história de Israel, como salvando e beneficiando todo o Povo através de figuras concretas. Assim, em Abraão Deus está a beneficiar uma Multidão de povos com a Promessa, em Moisés Deus está a beneficiar o Povo com a Libertação… Em Jesus de Nazaré, um dos nossos, Homem, que não se envergonhou de nos chamar Irmãos (Heb 2,11), Deus toma partido por toda a Humanidade, beneficiando-a com o Dom… da Filiação.

E aquele grito da 1ª Carta de João: «Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar Filhos de Deus; e, realmente, o somos» (1Jo 3,1). A Salvação, o Amor de Deus a acontecer na nossa História, não acontece por decreto, por “varinha mágica” ou por uma prenda, embrulhadinha, que cai dos céus. Acontece por pessoas, acontece a partir da nossa história e das suas possibilidades. E o maior Dom, o Dom pleno e total que o Abbá tem a oferecer à sua Criação, à sua Humanidade, o Dom do seu Amor que nos abraça e nos gera como Filhos, acontece, imagine-se, por um Homem. Sim, um dos nossos. Um Homem. Que por um mistério de comunhão pessoal, de preparação, de abertura – de Eleição – o Espírito Santo que nele actua, nele permanece (Jo 1,32) para já não sair, o Espírito Santo gera-o numa relação plena de confiança, entrega e abertura filial ao Abbá, Abertura plenamente revelada na sua morte e Ressurreição.

E então, se o Espírito Santo nele actua gerando-o como Filho, o mesmo Espírito torna-se património de toda a Humanidade. Assumindo-a, abraçando-a numa Comunhão Filial e Fraternal. Todos, toda a Humanidade. Assumida, divinizada na linguagem dos primeiros cristãos, na própria Familia de Deus, no próprio Amor do Abbá. E então, todos somos beneficiados. Nele, naquele Homem. O Filho. Para nós. Dado.

E quando este Homem nasce, podemos verdadeiramente proclamar:
Chegou a Plenitude dos Tempos,
está inaugurada a Nova Humanidade...

Desculpa se pareço confuso, ou a linguagem muito elaborada. Deixa-me que as coisas me saiam, assim, pelo menos agora. Vou continuar a partilhar esta Descoberta contigo nos próximos dias, assim. Permite-me, sem preparação, sem esquemas. Só a descobrir esta Alegria. E se me dás licença, seguimos a lógica do Novo Testamento, esses testemunhos dos nossos pais e irmãos: tá bem, as questões, as dificuldades, as exigências estão aí; mas deixem-nos cantar este Mistério, este Dom que nos é Doado, este Acontecimento que não é uma conquista ou mérito nosso. É Dom. Um Filho.
um grande abraço!

2 comentários:

Mila disse...

Por mim, tens toda a licença... e quero descobrir esta alegria contigo.
Obrigada por a partilhares!

Anawîm disse...

"... o Amor de Deus a acontecer na nossa História... acontece por pessoas, acontece a partir da nossa história e das suas possibilidades..."

Também o sinto com tanta verdade... embora me custe, muitas vezes, entendê-lo com aqueles que me estão mais próximos. Somos tão... humanos, tão vivos, tão a caminho... que nunca paremos no caminho... nunca...

Eheheh... uma reflexão sem esquemas? Isso parece que promete...
... fica com sabor a espontaneidade, a fazer com que fale mais o Coração do que ideias muito estruturadas. Que belíssima ideia.

Agradeço-te muito as tuas partilhas, Rui
Um grande abraço para ti